Notícia

UOL

Até a pornografia tem: o que é uberização, como surgiu e outras dúvidas

Publicado em 07 agosto 2020

Por Tiago Dias

Vivemos na época em que o acesso vale mais que o acúmulo. Com um clique, é possível solicitar um motorista, um entregador, uma casa para alugar e até fazer um curso online. Tudo sem grandes negociações ou entraves, apenas a baliza dos reviews e notas. É o mundo da "economia compartilhada".

A chegada do Uber e outros tantos aplicativos fez a gente adotar para a vida o chamado serviço peer-to-peer — isto é, pessoas colaborando umas com as outras — como alternativa às grandes corporações que antes lideravam esses serviços. Tudo muito confortável, mas essa mudança de comportamento também fez consolidar de vez um novo modelo de negócio.

O fenômeno da uberização consolidou empresas que agora intermedeiam a demanda de trabalhadores cada vez mais informais. Se, por um lado, isso fomenta o surgimento de novos empregos, por outro há também um processo de precarização da mão de obra — afinal, esses trabalhadores passam a não ter mais vínculos empregatícios.

A paralisação dos entregadores durante a pandemia, pedindo melhores remuneração e condições de trabalho, é prova das disputas em torno do assunto.

Saiba mais o que significa o termo uberização e quais as suas consequências.

Tudo sobre a uberização O que é uberização?

É um termo utilizado em variados contextos, não restrito ao mundo do trabalho.

No campo do trabalho, especificamente, diz respeito à economia do compartilhamento: define uma relação de trabalho contemporânea em que se "vende" um serviço para alguém de forma independente, sem intermediação de empresas, em geral via internet. No princípio, esse fenômeno consistia numa operação de empréstimos e trocas entre iguais; em pouco tempo, com a chegada da Uber, essa dinâmica ganhou o nome da plataforma e passou a explicar a relação entre autônomos e contratantes.

No campo da administração, o uso da palavra indica uma forma de explicar a variação dos preços de acordo com a demanda.

Recentemente, até o ministro do STF Dias Toffoli usou o termo para observar que algumas demandas urgentes da política precisam ser resolvidas com celeridade, sem mediações, e sem os costumeiros processos das instituições representativas. O exemplo ilustra bem: a uberização é uma forma paralela de atuação e funcionamento econômicos, à margem dos controles do Estado.

O que é uberização do trabalho?

É uma nova forma de controle, gerenciamento e organização do trabalho, podendo ser compreendida como um processo de informalização.

Assim, é possível ter uma multidão de trabalhadores informais gerenciados e controlados por alguns meios técnicos. O gerenciamento algorítmico, próprio dos apps que a gente conhece e usa diariamente, consegue processar uma enormidade de variáveis e controlar a forma como o trabalho é distribuído e precificado. Nessa dinâmica, se consolida a figura do trabalhador sob demanda, sem vínculos empregatícios.

Essa relação não começou com as plataformas digitais, como explica Ludmila Costhek Abilio, pesquisadora da Cesit - Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). "É como se décadas de transformações no mundo do trabalho culminassem na uberização. O desenvolvimento tecnológico das plataformas digitais, que vai se materializar nos aplicativos, catalisa esse processo."

Como surgiu o termo uberização?

Por ter diferentes usos, é difícil saber sua origem. Sabe-se apenas que o termo vem da inovação trazida pela empresa Uber no mundo dos aplicativos — e acabou virando a terminologia para explicar como essas novas empresas gerenciam seus negócios.

Assim como a Uber, muitas empresas utilizam tecnologia semelhante, visando sempre colocar consumidores e fornecedores em contato direto. Nesse sistema, os intermediários não atuam diretamente no processo. A única função deles é garantir que aqueles que procuram um serviço possam encontrar pessoas dispostas a oferecer essa demanda.

O termo é usado internacionalmente e popularizado no Brasil desde pelo menos 2017, quando passou a ser incorporado em pesquisas e estudos da área do trabalho.

Por que a uberização está tão em evidência?

Em uma época em que o acesso vale mais que o acúmulo, as novas plataformas barateiam os custos. Sem intermediários, o contato direto entre pessoas reais (e não mais grandes empresas) permite que o consumidor final pague menos pelo serviço desejado, e que quem oferece um serviço (vendendo, naturalmente, sua mão-de-obra), não responde a um chefe ou patrão. A prerrogativa é que o aplicativo onde ocorrem as negociações não se responsabilize pela operação em si, nem "contrate" a mão-de-obra. Ele se coloca apenas como um canal de contato.

Há todo um exercício de análise e pesquisa para compreender esse processo. Décadas de desemprego e crise econômica acabaram por erodir políticas e direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo, houve o desenvolvimento de tecnologia para incorporar e criar novas formas de controle sobre o trabalho.

Qual é a polêmica em torno da uberização?

Apesar de as empresas de tecnologia reforçarem que os "parceiros" podem trabalhar quando e quanto quiserem, essa liberdade acaba negada quando há um dever de cumprir objetivos definidos na programação do serviço. Quem vai entregar ou quantos serviços cada trabalhador pode pegar num dia: tudo isso é decidido de forma unilateral por algoritmos.

Passa-se a ter um trabalhador reduzido à força de trabalho: ele é utilizado somente quando necessário e não conta mais com nenhuma garantia, nem mesmo sobre quanto vai ter de trabalhar num dia para alcançar uma remuneração mínima. Não há margem de negociação.

"Isso é uma enorme transferência de custos, de riscos e de responsabilidades. Você tem lá duzentas mil pessoas trabalhando informalmentem sem qualquer pré-definição sobre horário, e uma empresa controlando todo esse trabalho. Eles trabalham como querem, de fato, mas estão subordinados a uma série de regras que são onipresentes, sem garantia sobre remuneração, tempo de trabalho, custos e até acidentes", explica Ludmila Costhek Abilio.

Quais são as profissões mais uberizadas?

Entregadores e motoristas são as profissões mais reconhecidas neste processo. Na prática, porém, todas tarefas sob demanda ganham espaço nessa realidade. Há quem prevê que até mesmo profissões clássicas, como a de advogado ou médico, vão ser afetadas pela uberização. O universo da indústria pornográfica já tem sido impactado pela uberização — atores e atrizes oferecem serviços em plataformas como o OnlyFans sem participação de produtoras e agentes.

O que significa 'precariado'?

A palavra, surgida ainda nos anos 1980, está sempre associada à uberização, por descrever justamente uma "nova classe social", como diz Guy Standing, economista da Universidade de Londres e autor do livro "The Precariat: The new dangerous class" (2011).

O termo é a combinação do adjetivo "precário" e do substantivo "proletariado", que identifica uma classe emergente em todo o mundo, composta por pessoas que levam uma vida de insegurança, sem empregos permanentes, garantias trabalhistas, normalmente fazendo trabalhos que não garantem dignidade ou satisfação pessoal.

Qual a solução para os trabalhadores dentro da uberização?

Há muitas discussões, em todo o mundo, sobre como regular essa nova relação de trabalho, visando proteger o trabalhador e criando garantias mínimas como jornada de trabalho, férias e uma proteção social em volta dele.

Mas ainda há um bom caminho pela frente. "É um debate complicado, porque a gente já vem de um período de novas regulações do trabalho que são extremamente prejudiciais para a vida dos trabalhadores", observa Ludmila Costhek Abilio.

Fontes:

Ludmila Costhek Abilio, pesquisadora da Fapesp e da Cesit - Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp; e "The Precariat: The new dangerous class, de Guy Standing".