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Ataque duplo

Publicado em 21 fevereiro 2006

Por Marcos Pivetta
Pesquisa FAPESP - Usar o termo cura é exagerado e prematuro, mas um tratamento experimental, que ministra altas doses de quimioterapia seguidas de um transplante de células-tronco adultas originárias da medula óssea do próprio paciente, obteve resultados animadores no controle do diabetes melito do tipo 1, também chamado de juvenil ou insulino-dependente, doença imunológica que atinge cerca de 1 milhão de brasileiros.
Dos 11 pacientes, todos adultos, submetidos aos dois procedimentos no Centro de Terapia Celular (CTC), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligada à Universidade de São Paulo, dez mostraram progressos significativos: oito se livraram da necessidade diária de tomar insulina — um deles permanece nessa saudável condição desde março de 2004, há quase dois anos — e dois passaram a receber apenas metade da dose desse hormônio antes necessária ao controle da doença.
"Não podemos falar em cura", pondera o imunologista Júlio Cesar Voltarelli, que encabeça essa linha de pesquisa. "Não sabemos se os efeitos benéficos são duradouros, se vão persistir por três, quatro ou cinco anos." Apenas um doente não apresentou melhora, justamente o primeiro que foi submetido ao esquema terapêutico alternativo, ainda em novembro de 2003.
Os pesquisadores acreditam que esse caso não se comportou da mesma forma que os demais porque foram usados corticóides para prevenir as reações alérgicas aos medicamentos utilizados no transplante e, sabe-se hoje, esse tipo de droga não dá bons resultados em diabéticos. Os demais pacientes receberam outras classes de medicamentos, aparentemente mais eficazes nesses casos.
Mesmo que os benefícios da nova abordagem terapêutica persistam a longo prazo, dificilmente o tratamento se consagrará como a cura da doença. O procedimento é agressivo, demorado (prolonga-se por uns três meses) e muito caro. A quimioterapia mais o transplante de células-tronco adultas são demorados e têm custo estimado de pelo menos R$ 30 mil e, segundo Voltarelli, não poderiam ser adotados como terapia padrão para cuidar de todos os doentes com esse tipo de diabetes.
"De qualquer forma, as pesquisas apontam um caminho que podemos perseguir para combater o mecanismo que causa o diabetes do tipo 1", afirma Marco Antonio Zago, coordenador do CTC de Ribeirão Preto, um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP.