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Jornal da Unesp

Astrônomos de Guará colaboram com a Nasa

Publicado em 01 setembro 2013

Por Igor Zolnerkevic

O grupo liderado pela pesquisadora Silvia Giuliatti Winter na Unesp de Guaratinguetá vem explorando em simulações computacionais a possibilidade de detritos se acumularem em regiões nas vizinhanças de Plutão e de suas luas. O trabalho chamou a atenção para o risco que a New Horizons, lançada em 2006 pela agência espacial norte-americana (Nasa), pode correr ao atravessar uma dessas regiões em 2015.

“O trabalho dos brasileiros tem sido extremamente relevante”, afirma Harold Weaver, um dos líderes do projeto da New Horizons. Desde 2010, o grupo da Unesp publica suas conclusões na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS).

Tudo parecia sob controle, quando a Nasa lançou a New Horizons com destino a Plutão. Em 14 de julho de 2015, essa sonda passará entre o planeta-anão e a sua maior lua, Caronte, registrando imagens das suas superfícies. As coisas começaram a se complicar quando a vice-chefe científica da missão, Lesley Young, soube do trabalho da equipe da Unesp, divulgado em 2009. O estudo mostrava que, entre Plutão e Caronte, existem regiões com órbitas estáveis, onde corpos celestes menores podem permanecer orbitando corpos maiores.

Em novembro de 2011, Silvia e o pesquisador Othon Winter, seu marido, foram convidados para um evento da equipe da New Horizons, no Colorado. O cientista-chefe da missão, Alan Stern, pediu então que eles estudassem melhor as regiões estáveis. No primeiro artigo, de 2010, os brasileiros haviam buscado regiões com órbitas estáveis no plano formado pelas órbitas de Plutão e Caronte. No trabalho que saiu neste ano, eles analisaram também órbitas fora desse plano. As órbitas estáveis se concentram em algumas faixas próximas de Plutão e outras de Caronte e em uma região entre os dois astros por onde a New Horizons pode passar.

A preocupação com a sonda intensificou as observações de Plutão, de Caronte e de suas luas mais afastadas, Nix e Hidra, cada uma com 150 quilômetros de diâmetro, descobertas em 2005 com o telescópio Hubble. Mark Showalter, do Instituto Seti, nos Estados Unidos, liderou em 2011 observações com o Hubble em busca de anéis em Plutão. As imagens não mostraram sinais de anéis, mas levaram à descoberta de mais duas luas, Cérbero e Estige.

A ausência de anéis corrobora um estudo publicado pelo grupo de Silvia neste ano na MNRAS. Sua aluna de doutorado Pryscilla dos Santos simulou a formação de anéis em torno de Plutão, feitos de grãos de rocha e gelo ejetados de Nix e Hidra durante colisões com meteoritos. Elas descobriram que a radiação solar seria suficiente para espalhar os grãos, praticamente impedindo a formação de anéis.

Cérbero, com diâmetro entre 5 e 15 quilômetros, orbita Plutão em uma das regiões de estabilidade que a equipe da Unesp previu existir para corpos desse tamanho, entre as órbitas de Nix e Hidra. Apresentado em 2011, esse resultado sugeria que mais luas poderiam ser descobertas entre Nix e Hidra. Mas a lua descoberta mais recentemente, Estige, que tem de 4 a 12 quilômetros de diâmetro, está em uma órbita mais interna, próxima a Caronte. A descoberta, porém, sinaliza problemas para a New Horizons. Colisões de objetos interplanetários com Estige e luas menores ainda não descobertas poderiam espalhar detritos entre Plutão e Caronte.

Weaver e seus colegas concluíram que a probabilidade de um impacto com a nave é menor que 0,3%. Isso porque a sonda deve passar por uma região instável próxima a Caronte. De qualquer forma, a equipe tem dois planos de emergência. Um é usar a antena de comunicação da News Horizons como escudo. O outro é aproximar a sonda ainda mais de Plutão, de modo a usar a atmosfera como proteção contra partículas.

Revista Fapesp