Notícia

Correio Popular

Associação faz brotar a natureza

Publicado em 12 março 2009

Por Fernanda Nogueira de Souza

Mata Ciliar recupera rios, investe na conscientização ambiental e na preservação de animais

 

Um trecho de dois quilômetros às margens do Rio Jaguari, no bairro Nadir Figueiredo, em Pedreira, estava totalmente devastado em 1988. Nessa época, nascia a Associação Mata Ciliar na cidade com o objetivo de recompor áreas de mananciais degradadas. Durante aulas de educação ambiental da entidade em escolas da região, começaram a surgir reclamações dos moradores sobre a situação do local. A associação decidiu promover plantios comunitários de mudas ao longo do rio. Os moradores se envolveram no trabalho e, no final de quatro anos, todo o trecho estava reflorestado. “As pessoas passaram a se sentir responsáveis pela área, principalmente as crianças”, disse o engenheiro agrônomo e presidente da Associação Mata Ciliar, Jorge Bellix de Campos.

Hoje, com 40 profissionais, entre engenheiros agrônomos e florestais, biólogos, veterinários, técnicos em meio ambiente, professores e administradores, a Associação Mata Ciliar cultiva 2 milhões de mudas de mais de 200 espécies de plantas nativas da Mata Atlântica e do Cerrado anualmente, atua na capacitação de produtores rurais e na reabilitação, reprodução e conservação de animais selvagens.

A entidade tem viveiros de plantas em Pedreira, Jundiaí, Águas de Lindóia e em Bragança Paulista. A área de quatro hectares onde está localizado o viveiro de Pedreira era uma horta quando foi disponibilizado para o uso da associação pela Prefeitura. Em 1992, a entidade começou um trabalho de reflorestamento no local. Hoje, a área tem árvores como palmiteiro, ingá, grumixama e guaritá à beira do Córrego Vale Verde, que passa pelo terreno e deságua no Córrego Caxambu, afluente do Rio Jaguari.

Quatro jardineiros, dois deles da mesma família, cuidam do viveiro. Nelson Splendores Inamonico, de 72 anos, trabalha para a entidade há dez anos. Seu neto, André Luis Inamonico, de 22 anos, está no viveiro há um ano e meio. Com cuidado e tranquilidade, os funcionários são responsáveis pelo plantio e pelo desenvolvimento das mudas. Para que as plantas tenham mais chance de crescer saudáveis, é feita uma seleção das árvores matrizes. Depois de semeadas, as mudas levam três a sete meses para chegar ao momento do plantio. Enquanto isso, crescem em tubetes de plástico colocados em mesas vazadas. Além de receberem adubo, as mudas são irrigadas até três vezes ao dia e, quando necessário, são protegidas do sol e da chuva forte com uma cobertura especial usada em estufas.

O uso de tubetes de plástico no plantio de mudas de mata nativa foi desenvolvido pela associação. “Já se usava no plantio de café e de eucalipto, mas não com plantas nativas”, disse Campos. O tubete, de acordo com o engenheiro agrônomo, promove um bom enraizamento da planta e facilita o manuseio.

Os gastos da entidade são supridos com várias fontes de renda. São doações, pagamento de anuidade por cerca de 350 associados, projetos de reflorestamento para empresas privadas, vendas de mudas, de camisetas e de canetas, patrocínios e projetos de pesquisa financiados por órgãos como o Fundo Nacional do Meio Ambiente e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Atualmente, o projeto De Olho nos Rios, o primeiro criado pela Mata Ciliar e espinha dorsal da atuação da entidade, é patrocinado pela Petrobras. O trabalho de conservação inclui 18 municípios da bacia do Rio Piracicaba e seu principal objetivo é integrar as comunidades para promover a conservação dos mananciais.

Vários cursos de capacitação são ministrados pela entidade a produtores rurais, líderes comunitários, professores da área rural e jovens carentes. Também há ações de saneamento rural, em que a entidade distribui fossas sépticas a produtores para a despoluição de pequenos mananciais, e palestras sobre alternativas econômicas, como agricultura orgânica, sistemas agroflorestais e turismo rural. Entre os projetos de reflorestamento desenvolvidos pela Mata Ciliar para empresas privadas, estão o plantio de 10,5 mil mudas em uma área particular em Serra Negra e de 11 mil mudas em uma empresa em Itupeva.

MUDAS

Veja 30 das mais de 200 plantas cultivadas pela Associação Mata Ciliar

Araçá (Psidium sp)

Arco-de-peneira (Cupania vernalis)

Aroeira (Myracrodruon urundeuva)

Barbatimão (Stryphnodendron adstringens)

Cabreúva (Myroxylon peruiferum)

Cedro-rosa (Cedrela fissilis)

Coração-de-negro (Poecilanthe parviflora)

Dedaleiro (Lafoensia pacari)

Embaúva (Cecropia sp)

Figueira-branca (Ficus guaranitica)

Grumixama (Eugenia brasiliensis)

Guaritá (Astronium graveolens)

Guatambu grande (Aspidosperma ramiflorum)

Ingá-feijão (Inga uruguaiensis)

Ipê-branco (Tabebuia rosa alba dura)

Jacarandá do campo (Platypodium elegans)

Jequitibá-rosa (Cariniana legalis)

Lofantera da Amazônia (Lophantera lactescens)

Mamica-de-porca (Zanthoxylum riedelianum)

Mutambo (Guazuma ulmifolia)

Oiti (Licania tomentosa)

Palmito açaí (Euterpe oleracea)

Pau-brasil (Caesalpinia echinata)

Pau-jangada (Apeiba tibourbou)

Peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron)

Sapucaia (Lecythis pisonis)

Sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides)

Tapiá (Alchornea iricurana)

Urucum (Bixa orelana)

Uvaia gigante (Eugenia sp.)

COMO AJUDAR A ONG

Sócio - O valor da mensalidade para interessados em se associar é de a partir de R$ 20,00. O dinheiro é revertido para as ações ambientais da entidade.

Voluntário - Quem quer atuar voluntariamente pode trabalhar tanto em funções relacionadas à flora, fauna e educação ambiental como em áreas de manutenção, informática e administração. O interessado passará por uma entrevista e receberá informações sobre as características, restrições e possibilidades de trabalho.

Doações - Quem quiser fazer um depósito para a entidade pode solicitar mais informações sobre a conta bancária pelo telefone (11) 4815-5777 ou pelo e-mail comunicacao@mataciliar.org.br.

Mais informações sobre a associação

www.mataciliar.org.br

(11) 4815-5777 e 4814-7553

Centro de reprodução e cuidados abriga 300 bichos

Macho de onça-pintada vindo de Rondônia é principal atração do local

Um macho de onça-pintada de 8 anos é a principal atração entre os 300 bichos que vivem no centro de cuidados, reprodução e reabilitação de animais selvagens da Associação Mata Ciliar em Jundiaí. Jaguaretê, como foi apelidado, está no local há três anos. Debilitado devido às condições em que vivia no cativeiro em Rondônia e pelo transporte inadequado de lá até Jundiaí — o felino ficou na mesma posição durante a viagem de quatro dias —, o animal nunca mais poderá voltar à natureza.

Por isso, é protagonista de uma campanha da associação para a construção de um recinto de 100 metros quadrados para que possa viver e no futuro se reproduzir. Após quase R$ 35 mil em doações, a área está quase pronta. “Faltam entre R$ 5 mil e R$ 6 mil para completar a obra”, disse o presidente da associação, Jorge Bellix Campos.

Além de cuidar dos animais, a associação coordena um consórcio internacional de conservação de jaguatiricas, que conta com um banco genético. Os pesquisadores da entidade, em parceria com estudiosos da Universidade de São Paulo (USP) e cientistas norte-americanos, foram responsáveis no final de 2007 pelo nascimento de três jaguatiricas de proveta — as primeiras do mundo. A jaguatirica, assim como os outros sete felinos brasileiros — onça-pintada, onça-parda, gato-do-mato grande e pequeno, gato-maracajá, jaguarundi ou gato-mourisco e gato-palheiro —, estão ameaçadas de extinção em diferentes graus. A Associação Mata Ciliar tem espécimes de todos eles em Jundiaí, além de lobos-guará, macacos e vários tipos de aves. (JF/AAN)