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Assim como na Medicina Humana, a Veterinária também busca tratamentos para a leishmaniose

Publicado em 26 agosto 2016

Cláudia Guimarães, da redação

 

Doença infecciosa causada por parasitas do gênero Leishmania: Leishmaniose. Quando ela se manifesta, os parasitas vivem e se multiplicam no interior das células que fazem parte do sistema de defesa do indivíduo. Dela, existem dois tipo: a tegumentar ou cutânea e a visceral ou calazar. A leishmaniose visceral é considerada uma das seis parasitoses que mais se destacam nos humanos.

 

Com esse número que assusta, a ciência vem fazendo sua parte. Uma pesquisa coordenada pelo professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP, Ribeirão Preto/SP), João Santana da Silva, mostra que estimular a produção de interleucina, uma das citocinas liberadas por células do sistema imune, pode ser uma estratégia eficaz no tratamento da enfermidade. De acordo com os resultados descritos pelos pesquisadores e colaboradores, a elevação dos níveis de interleucina no organismo infectado ajuda a reduzir a carga parasitária. Além disso, também protege os órgãos contra lesões provocadas pela resposta inflamatória exacerbada, algo bastante recorrente nesses casos. O anúncio desse aprofundamento foi destaque em instituições de fomento à pesquisa, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, São Paulo/SP). Mas, por ser uma zoonese, essa inovação também pode ser conduzida para a Medicina Veterinária?

 

A professora de Clínica Médica de Pequenos Animais da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade Estadual Paulista (FMVZ-Unesp, Araçatuba/SP), Mary Marcondes, explica que a leishmaniose visceral em humanos e nos cães é causada pelo mesmo parasita, transmitida pela picada de um flebotomíneo, um pequeno inseto. Os sintomas das doenças são parecidos nos dois casos, segundo a professora, no entanto, grande parte dos cães que apresentam os sintomas da doença desenvolvem lesões de pele, o que não acontece com seres humanos acometidos por leishmaniose visceral. “Uma diferença importante é que a incidência da doença no homem é bem menor do que a prevalência da doença em cães em uma área endêmica. Os animais são o principal reservatório da doença e, por isso, são importantes na manutenção do ciclo epidemiológico da leishmaniose visceral”, expõe.

 

Apesar das semelhanças entre homem e animal, no entanto, a nova descoberta da ciência não se aplica a tudo, nem a todos. Quando questionada sobre por que uma substância capaz de curar a doença em humanos não é eficaz nos animais, Mary afirma que, na verdade, não existe cura parasitológica (eliminação de todos os parasitas) nem em humanos e nem em cães tratados. “Pode haver cura clínica, mas são raríssimos os casos em que o tratamento consegue eliminar todas as leishmanias”. O que acontece, como ela explica, é que, com o tratamento, ocorre uma melhor resposta do sistema imune do paciente e a multiplicação do parasita é controlada, causando, assim, uma regressão dos sintomas da doença. “Em cães submetidos a tratamento podem ocorrer recidivas da doença de meses a anos após o tratamento inicial e se faz necessário um novo ciclo de tratamento. Por essa razão, todos os animais tratados devem ter acompanhamento médico-veterinário para o resto da vida”, adverte.

 

De modo geral, os medicamentos utilizados em humanos também podem ser utilizados em cães, como esclarece a profissional. “O que existe é uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OIE, Paris/França) para que medicamentos utilizados em seres humanos não sejam utilizados em cães porque, com o uso indiscriminado, podemos selecionar cepas de leishmanias resistentes a um determinado medicamento e, consequentemente, os seres humanos podem não responder mais adequadamente ao tratamento”, explica e lembra que isso já acontece em algumas partes do mundo, sendo uma preocupação dos órgãos internacionais de saúde.

 

Atualmente, a legislação brasileira não permite o tratamento de cães com medicamentos de uso humano. Como até o momento não existem formulações registradas para o uso em cães, o Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV, Brasília/DF) não autorizam o tratamento de cães no Brasil. “No entanto, em alguns Estados brasileiros, o tratamento foi permitido judicialmente. Acredito que dentro de alguns meses poderemos ter, no mercado brasileiro, um medicamento aprovado para o uso em cães”, acredita.

 

Mary conta que assim como a pesquisa realizada com foco em humanos, inúmeros grupos de estudo estão trabalhando na busca de novas opções terapêuticas para os animais, no entanto, por se tratar de um parasita intracelular, a cura torna-se mais difícil. “Existem muitos medicamentos que foram testados em animais, mas, como dito anteriormente, essas medicações não conseguem eliminar completamente o parasita. A leishmaniose é uma doença endêmica em mais de 80 países”, cita e revela que há medicamentos que podem ser utilizados em cães, comercializados na Europa, cujos resultados são satisfatórios.

 

No Brasil, iniciativas também vêm sendo construídas, como o caso da pesquisa realizada pelo professor do Departamento de Morfologia do Instituto de Ciência Morfológica, Rodolfo Cordeiro Giunchetti, juntamente com sua equipe. Os profissionais estão desenvolvendo uma vacina com o objetivo de bloquear a infecção do inseto transmissor da doença. A vacina que está sendo trabalhada poderia ser usada junto às vacinas convencionais contra a LV. Assim, o cão que recebesse a vacina e se infectasse poderia fazer uso do produto que está sendo desenvolvido com objetivo de bloquear a infecção no inseto. (Confira reportagem completa sobre o assunto neste link)

 

Ainda assim, Mary frisa que a melhor maneira indicada aos tutores é a prevenção da doença nos pets e para isso aponta o uso de inseticidas e, principalmente, os de uso tópico e as coleiras impregnadas com piretróides. “É importante salientar que não é qualquer produto ou coleira inseticida, mas recomendamos aquelas que foram testadas para o vetor da leishmaniose”. Os cães, quando infectados, geralmente apresentam emagrecimento, aumento de volume de linfonodos, baço e fígado, lesões cutâneas, problemas renais, digestórios e locomotores, dentre outros sintomas. “Vale a pena reforçar que para cada cão que apresenta sintomas da doença em uma área endêmica, existem outros cinco cães assintomáticos, isto é, infectados, mas sem presença de sintomas. Estes também possuem capacidade de infectar os vetores, ou seja, transmitir a doença. Por isso, todo cão que vive em área endêmica deve ser protegido da infecção”, alerta.