Notícia

Gazeta Mercantil

AsGa fatura 525% mais com alta tecnologia

Publicado em 13 agosto 2001

Por Laura Knapp - de São Paulo
Investimentos anuais em pesquisa, além de um financiamento da Fapesp, garantiram à AsGa, de Campinas (SP), fabricante de equipamentos para telecomunicações ópticas, um aumento de 525% em seu faturamento. Dos R$ 16 milhões em 1999, passou para R$ 100 milhões este ano. "Nosso sucesso depende da tecnologia própria", diz o presidente José Ellis Ripper Filho. O governo federal organiza, em setembro, conferência para discutir diretrizes para o desenvolvimento tecnológico do Brasil. (Pág. A-8) DISCUTE-SE A ESTRATÉGIA DE INVESTIMENTO EM PESQUISA Laura Knapp - de São Paulo Pela primeira vez em 16 anos, cientistas, políticos, representantes de instituições de ensino, de associações de classe e. o que é mais importante, empresários vão se sentar para definir uma estratégia de investimento em pesquisa e desenvolvimento de longo prazo para o País. O último encontro do gênero ocorreu em 1985, quando Renato Archer tomou posse como primeiro titular do recém-criado Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). A Conferência Nacional de Ciência. Tecnologia e Inovação será realizada em Brasília, de 18 a 21 de setembro. Para se preparar, os participantes têm acesso ao "Livro Verde", um arquivo de 12 megabites, ou 280 páginas impressas, que apresenta um histórico do desenvolvimento tecnológico no País, discussões e sugestões sobre os cinco temas principais a serem debatidos: no caminho do futuro, qualidade de vida, desenvolvimento econômico, desafios estratégicos e desafio institucional. Ao final do evento será compilado um "Livro Branco", com as propostas apresentadas. Nos dias 16 e 17 de agosto, serão feitas reuniões regionais em seis capitais - Belém, Florianópolis, Goiânia, Maceió, Rio de Janeiro e São Paulo -, onde os interessados poderão definir e discutir temas e prioridades a serem apresentados em Brasília. Em São Paulo, o tema central, além dos propostas no Livro Verde, será o desenvolvimento tecnológico dentro das empresas. "O grande desafio estrutural para um sistema de inovação tecnológica no País é envolver empresas na atividade de pesquisa", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente de uma das organizadoras do evento, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Fazer com que o setor privado invista fortemente em pesquisa equivale a mudar a mentalidade da quase totalidade dos empresários no Brasil. Acostumadas a adquirir tecnologia de parceiros externos ou simplesmente fazer produtos já popularizados, as empresas depararam com a necessidade de inovar só recentemente, em conseqüência da abertura do mercado, de uma maior concorrência e da globalização. Houve época em que era mais vantajoso deixar o dinheiro rendendo no mercado financeiro do que investir na produção. "No passado, era mais útil contratar um bom contador do que um engenheiro", diz Brito Cruz. Apesar de não haver ainda números concretos, há indicações, segundo a Fapesp, de que o cenário começa a mudar. "Detectamos sinais de mudança na mentalidade dos empresários", afirma o presidente. O assunto do acesso à tecnologia, por exemplo, tem sido tema freqüente em associações como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e atraído mais interesse no Sebrae, para citar dois casos. Em 1999, a Fapesp lançou o primeiro edital para o Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe). Houve 80 interessados e 31 projetos foram aprovados. Hoje. 170 empresas participam do programa, que financia a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos, com recursos a fundo perdido, desde que a empresa cumpra a seguinte condição: tenha um pesquisador em seu quadro fixo de funcionários. É conhecido e exemplar o caso da Petrobras. Para cada R$ 1 que investe em pesquisa e desenvolvimento, recebe R$ 5 em faturamento. O grau de retorno da petrolífera é muito superior à média das outras empresas. Desenvolvendo tecnologia própria, a AsGa, fabricante de equipamentos ópticos usados em telecomunicações, conseguiu se firmar como uma das principais fornecedoras no mercado brasileiro. Seu faturamento, que em 1999 foi de R$ 16 milhões, pode chegar a R$ 100 milhões este ano. Outro exemplo é o da Sensis, de São Carlos, no interior paulista. Com financiamento da Fapesp de R$ 135,5 mil, além de pouco mais de US$ 29 mil para a compra de equipamentos, a empresa desenvolveu um sistema de monitoramento de processos fabris baseado em emissão acústica. Suas vendas, que giravam em torno de R$ 60 mil por ano, já somaram R$ 80 mil nos primeiros sete meses deste ano. O governo dos Estados Unidos e de alguns países europeus age diretamente para garantir o desenvolvimento tecnológico das empresas. Do orçamento de US$ 14 bilhões da Nasa, a agência espacial americana, 75% são gastos com compra de equipamentos e serviços desenvolvidos por empresas do país. O governo federal reserva uma verba anual de US$ 25 bilhões para contratar produtos de empresas, como encomendas tecnológicas. E há uma lei obrigando toda agência governamental que compra tecnologia extramuro a destinar pelo menos 5% dessa verba para pequenas empresas. "É uma maneira de o estado americano subsidiar o desenvolvimento tecnológico", afirma Brito Cruz. Já no Brasil, isso ocorre raramente. Exceções de uma incursão direta do Estado incluem a compra de medicamentos e vacinas da Fiocruz, pelo Ministério da Saúde. Mesmo a lei de renúncia fiscal, pela qual as empresas que aplicassem em pesquisa e desenvolvimento poderiam fazer deduções do imposto, nunca foi plenamente utilizada. DOTAÇÃO DA BAHIA PARA O SETOR VAI TRIPLICAR Lídice Oliveira - de Salvador O orçamento para pesquisa e desenvolvimento nas áreas de ciência e tecnologia vai praticamente triplicar na Bahia, a partir do próximo ano. O motivo é a criação, pelo governo baiano, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), que terá recursos vinculados à receita tributária do estado. Com a mudança, a verba para investimentos saltará de uma média anual de R$ 8 milhões para cerca de R$ 22 milhões já em 2002. O projeto de lei que implementará a fundação baiana devera ser enviado à Assembléia Legislativa nos próximos dez dias. De acordo com o texto da regulamentação, no seu primeiro ano de funcionamento a entidade ficará com 0,6% da receita líquida anual do estado, taxa que aumentará gradativamente até se estabilizar em 1% no quinto ano. "Existe hoje uma demanda reprimida muito grande na Bahia e, por isso, acreditamos que a procura vai crescer na mesma proporção da nossa capacidade de investimentos", disse Cleilza Ferreira Andrade, diretora da Superintendência de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico, órgão atrelado à secretaria estadual do Planejamento, que será substituído pela fundação. Na prática, além de reforçar o orçamento da nova instituição, a autonomia também garantirá maior flexibilidade operacional, já que hoje a superintendência não pode financiar diretamente os pesquisadores, devido à sua natureza jurídica. O professor da Universidade Federal da Bahia Caio Castilho acredita que a nova entidade vai assegurar maior agilidade e regularidade na distribuição dos recursos. "Se nossa fundação operar nos moldes da Fapesp, de São Paulo, e os recursos que estão previstos forem de fato mantidos, no prazo de cinco anos a Bahia terá outra realidade no campo da tecnologia e pesquisa científica." NOVOS EMPREENDIMENTOS Quando afirma que investimento em tecnologia traz riqueza, o presidente da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, tem como provar. Com um financiamento de R$ 380 mil, a AsGa, empresa de Campinas (SP) especializada em equipamentos para telecomunicações, desenvolveu um modem óptico. Em dois anos no mercado, o equipamento não só se tornou o carro-chefe, como hoje responde por pelo menos 40% de um faturamento que cresce em ritmo espetacular. Passou de R$ 16 milhões em 1999 para R$ 100 milhões este ano. Ou seja, 525% em dois anos. '"Nosso sucesso dependeu certamente do investimento em tecnologia", confirma José EIlis Ripper Filho, sócio e presidente da AsGa. "'Com tecnologia própria, consigo entender e ser mais ágil para atender meus clientes." Com um segundo financiamento da Fapesp, a AsGa desenvolveu uma nova família de equipamentos, que será fabricada a partir de outubro. Todo ano, a empresa costuma investir cerca de 12% de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento, tanto no laboratório interno, onde trabalham 20 pessoas, quanto em contratos terceirizados. O próprio Ripper, assim como outros dos cinco sócios, é pesquisador. Depois de uma temporada de nove anos nos Estados Unidos, na década de 70, que incluiu um emprego no Bell Labs, um dos mais conceituados laboratórios do mundo, hoje da Lucent. Ripper voltou para trabalhar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sabia, pelo trabalho no Bell Labs, que a fibra óptica iria "'dominar o mundo". Fez pesquisas para a Telebrás, até decidir abrir sua própria empresa, com outros sócios, em 1989. A Sensis, de São Carlos (SP), também está no segundo financiamento do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe) da Fapesp. Com o primeiro, no valor de R$ 135.505, além de outros US$ 29 mil para a compra de equipamentos, a empresa desenvolveu um sistema de monitoramento de processos fabris. Sem interferir no processo de manufatura, o sistema mede e compara sons emitidos por equipamentos de produção, alertando para possível falhas. O faturamento da Sensis vem crescendo sensivelmente com o novo produto. Nos primeiros sete meses de 2001, já vendeu R$ 80 mil, quando nos últimos anos vinha registrando vendas de R$ 60 mil. Agora, a empresa desenvolve um sistema microprocessado para controle de iluminação, que deve estar pronto em dois anos, segundo Juarez Felipe Júnior, um dos cinco sócios da Sensis. "Já existem equipamentos importados, mas nossa idéia é lançar opções mais baratas", diz. Para fazer o financiamento, a fundo perdido, a Fapesp exige que a empresa contrate um pesquisador. '"Sem esses recursos, é difícil para uma empresa pequena contratar um doutor", afirma. (L.K.)