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O2

As três pontas do tridente

Publicado em 01 maio 2013

Por Gilberto Ungaretti

A prática regular de atividades físicas traz benefícios à saúde, certo? Nem sempre. Muitas vezes, na pressa de alcançar seus objetivos, os atletas (mesmo amadores) decidem pegar um atalho, fazendo uso de substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidoping (Wada). Ou então cruzam o limite do bom senso e pegam muito pesado no treinamento, indo além de sua capacidade física (overtraining). Ou ainda passam a se entregar aos treinos de forma contínua e extremada (vigorexia), um transtorno psíquico motivado pela busca da perfeição a qualquer custo. Em todos esses casos, os efeitos são contrários ao que se propõe, ou seja, acabam por destruir, em vez de fazer bem à saúde.

DOPING, A FORÇA QUÍMICA

Em busca de maior rendimento, atletas recorrem a substâncias ilícitas que aumentam o fôlego e a massa muscular. Ao mesmo tempo, alguns técnicos, dispostos a tudo para melhorar de modo “mágico” o desempenho de seus pupilos, não hesitam em contratar os serviços de certos cientistas, que se dedicam a criar substâncias indetectáveis nos exames. O doping entra em cena.

Porém, não é preciso ser especialista no assunto para saber que o uso de doping traz efeitos danosos ao organismo humano. “No caso dos anabolizantes, as consequências são catastróficas, porque o fígado fica sobrecarregado, o que pode causar câncer”, alerta Francisco Radler, coordenador do Laboratório de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (Ladetec), do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Além disso, o uso exagerado de esteroides sobrecarrega todo o sistema cardiovascular, provoca hipertensão arterial e pode causar dependência química”, explica o coordenador do laboratório, que terá a missão de analisar as amostras da Copa do Mundo 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016.

Por isso, antes de se injetar, furar e ingerir substâncias consideradas doping, vale a pena pensar duas vezes. Duas, não: três, quatro… Aliás, aqui vai algo em defesa dos atletas: às vezes, eles são dopados (sem saber) por seus treinadores. Então, desconfiem daqueles suplementos líquidos ou de injeções disfarçadas de vitaminas – podem ser anabolizantes!

De acordo com o psicólogo Arthur Marcondes Ferraz Silva, que também é triatleta e titular de um blog dedicado à psicologia do esporte (arthurmferraz.blogspot.com), os atletas que fazem uso de doping dividem-se em cinco grupos: 1º) o dos ingênuos; 2º) o dos irresponsáveis; 3º) o dos que se julgam em situação de inferioridade; 4º) o dos que não veem outra opção; 5º) o dos que querem levar vantagem mesmo.

 

AS SUBSTÂNClAS PROIBIDAS

MAIS USADAS PELOS ATLETAS

- ANABOLIZANTES

Efeito_ Mudam a constituição orgânica, dando mais massa muscular e aumentando a força e a aceleração

Drogas_ Esteroides e nandrolona

- CALMANTES

Efeito_ Relaxam os nervos, acalmando o competidor, o que ajuda em modalidades em que são importantes a precisão e a concentração

Drogas_ Formoterol e salbutamol

- DIURÉTICOS

Efeito_ Eliminam água do organismo e, com isso, mascaram outras substâncias dopantes

Drogas_ Furosemida e clortalidona

- ENERGÉTICOS

Efeito_ Contêm DMMA, ou dimetilamilamina, estimulante, usado para o emagrecimento e o ganho de massa corporal

Drogas_ Os energéticos Jack3D, Oxy Elite Pro, Lipo-6 Black, 1MR, Code Red, Hemo Rage Black, Hydroxystim, Napalm e Nitric Blaste

- ESTIMULANTES

Efeito_ Excitam o sistema nervoso, elevando os batimentos cardíacos e a pressão arterial, mascarando o cansaço, o que dá a sensação de o atleta ter mais gás

Drogas_ Anfetaminas e efedrinas

- ESTEROIDES ANABOLIZANTES

Efeito_ Ganho de força e massa muscular

Drogas_ DHEA e GH (hormônio de crescimento)

HORMÔNIO

Efeito_ O mais comum (eritropoietina sintética) eleva o total de hemoglobinas no sangue, dando mais resistência

Drogas_ Eritropoietina (EPO), darbopoietina (dEPO), hematide

 

OVERTRAINING, O EXAGERO NA DOSE

Ao tentar melhorar o desempenho em provas, alguns corredores exageram na intensidade dos treinos e não respeitam um período adequado de descanso. A atividade é tão intensa que os músculos não conseguem se recuperar entre um treino e outro. Não bastasse isso, ainda seguem uma alimentação incorreta. Resultado: um cansaço intenso, que não passa, também conhecido como Sindrome de Overtraining (literalmente, exercitar-se mais do que o corpo aguenta), ou Sindrome do Excesso de Treinamento.

“Não é apenas cansaço, é exaustão!”, ressalta a psicóloga clinica e esportiva Carla Di Pierro. “Isso precisa ficar claro. O atleta em overtraining está em estado de exaustão física e psicológica. Sentir-se apenas cansado faz parte do treino, mas sentir-se exausto, somado aos sintomas psicológicos, é sinal de alerta”, adverte.

Uma diferença importante é que o cansaço simples pode ser eliminado com atividades relaxantes, enquanto a Síndrome do Overtraining exige que o atleta pare por um tempo e depois recomece do zero.

Entre as sequelas físicas provocadas pela overdose de treinos estão dores musculares, o aumento da frequência cardíaca, o aumento da tolerância (necessidade de mais sessões de treino para obter o mesmo resultado) e a perda de rendimento. Já as emocionais vão de angústia e depressão à sensação de incompetência, passando por sintomas como ansiedade, irritabilidade excessiva, apatia, diminuição da libido, dúvida quanto a si mesmo, apatia e raiva prolongada.

“Há também a possibilidade de o treino ter alcançado um valor muito alto na vida da pessoa, tornando-se a sua fonte única de prazer. Nesses casos é como se o atleta dependesse do treino para se sentir bem”, acrescenta a psicóloga do esporte. E tome malhação.

Antigamente, só atletas profissionais apresentavam overtraining. Hoje, esse problema tem sido muito comum entre amadores. Uma pesquisa do Centro de Estudo em Psicobiologia do Exercício, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), apoiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), identificou que 28% dos atletas brasileiros profissionais ou recreacionistas são viciados na prática de exercícios.

Normalmente o corredor aumenta a quantidade de treino com a crença de que, assim, melhorará sua performance. Porém, a sensação que se tem é de que, quanto mais se treina, pior o desempenho fica.

O programa de reabilitação prevê redução da carga de treinamento e descanso por pelo menos duas semanas, mas, dependendo da gravidade, o caso pode exigir um afastamento completo dos treinos por até seis meses. Nesse período, além do repouso, é importante investir numa dieta com alto valor nutritivo e rica em vitamina E, nutriente parcialmente responsável pela regeneração de todos os tecidos do corpo, incluindo sangue, pele, ossos, músculos e nervos, ajudando de forma significativa a reduzir os sintomas de overtraining. A vitamina E ocorre naturalmente em alimentos de origem vegetal, principalmente nos legumes e verduras verde-escuros, nas sementes oleaginosas (nozes, amêndoas, avelã, castanha-do-pará), nos óleos vegetais (amendoim, soja, palma, milho, cártamo, girassol) e no gérmen de trigo. Também pode ser encontrada em alimentos de origem animal, como gema de ovo e figado.

O retorno aos treinos deve ser bem gradual, a partir de um novo planejamento. Dependendo do caso, a troca da corrida por uma atividade mais leve e relaxante pode resolver: em vez de correr, treinar na piscina, por exemplo.

Muita gente acha que essa síndrome é exclusividade de atletas de elite, mas o overtraining acomete também corredores amadores. Para isso, basta não descansar o suficiente que depois de algum tempo o organismo entra em colapso.

VIGOREXIA, A VIDA NO LIMITE

Após cruzar a fronteira, o atleta com diagnóstico de Síndrorne do Excesso de Treinamento pode desenvolver uma compulsão por atividade física ainda mais extrema: a vigorexia, um transtorno caracterizado pela busca da perfeição. Então, o que deveria melhorar sua saúde e a autoestima se transforma em problema.

Motivada por fatores físicos e psicológicos – o atleta percebe-se fraco, ou tem a sensação de que precisa sempre treinar mais para estar melhor do que está -, essa compulsão por treinamentos atinge vários tipos de esportistas, inclusive corredores.

Segundo a psicóloga do esporte Carla Di Pierro, a causa da vigorexia é multifatorial. “Está mais relacionada com a função que o esporte ocupa na vida da pessoa, com o valor de recompensa, de controle, status, do que com a dependência em serotonina e endorfina, como alguns acreditam.”

Dificuldades na vida profissional ou pessoal, aponta a psicóloga, fazem com que o esporte se torne via de autoafirmação e satisfação. “A pessoa começa a desempenhar mais que o limite do saudável no treino. Ela não consegue viver sem aquilo. O esporte, então, passa a ser objeto de dependência, não de saúde”, avalia. Com isso, excede a sua capacidade de recuperação. Às vezes, o atleta treina mesmo impedido clinicamente por estar com uma lesão ou fratura grave.

Ignorar sinais de cansaço, fazendo treinos mesmo fatigado, também faz parte do quadro. A pessoa disputa uma maratona por mês e, no descanso, corre mais 30 km. Há ainda o efeito psicológico: a frustração por nunca estar satisfeito com os resultados.

Como em todo vício, surgem crises de abstinência, como irritação por não treinar e não ceder na rotina de exercícios. “É comum ele deixar de ter relações sociais para treinar”, diz Carla. E acha normal burlar (para mais) as orientações do instrutor.

Só isso? Não. Além de estar relacionada ao abuso de exercícios, pode haver abuso de substâncias que melhoram a performance. Estima-se que 10% dos que treinam intensamente tenham a síndrome. O primeiro sinal é a queda de rendimento que, ironicamente, pode induzir a abusos maiores ainda.

COMO SUPERAR ESSE TRANSTORNO?

O tratamento recomendado é o mesmo indicado para pessoas com vícios variados, de forma a retomar o equilíbrio e o controle sobre a atividade. Ou seja, quem sofre de vigorexia deve procurar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra, mesclando terapia e uso de medicamentos. O maior desafio é convencer quem sofre desse mal a buscar tratamento.