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As start-ups no mundo oftalmológico

Publicado em 01 outubro 2013

Por Raphael Cavaco

O nome é recente, está na moda e tem toda a pompa de terceiro milênio. Mas o conceito já existe há anos no mercado em geral, inclusive na oftalmologia. As start-ups, termo em inglês para designar empresas iniciantes de base tecnológica, não possuem na maioria dos casos certeza de sucesso, nem mesmo um modelo de negócio pronto. "Esse tipo de modalidade ou iniciativa empresarial não é novidade. É algo que já acontece desde sempre em diversos segmentos e só modificaram a nomenclatura", afirma o Professor Adjunto e Vice-Chefe do Departamento de Oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Paulo Schor.

Especialista no assunto, ele coordena há dois anos um grupo multiprofissional do Laboratório de Bioengenharia Ocular da Unifesp. Composta por 15 pessoas, a equipe trabalha no desenvolvimento constante de instrumentos e equipamentos médicos inovadores ligados a cirurgias e diagnósticos. Os projetos de novas tecnologias aplicadas à oftalmologia estão também abertos para estudantes de graduação, pós-graduação, estagiários e observadores nas áreas de ciências humanas, exatas e biológicas.

Algumas universidades e seus centros de pesquisa tornam-se vitrines para grandes empresas na aquisição de novas ideias, patentes e inovações tecnológicas. Ao mesmo tempo, as instituições universitárias estimulam os jovens por meio de incubadoras de empresas, que fornecem o ambiente e estrutura para o desenvolvimento de novos produtos, ou na criação de uma empresa do tipo spin-off, originada a partir de um grupo de pesquisa em alta tecnologia de uma universidade ou de laboratório público ou privado.

Segundo Schor, o cenário das start-ups no mundo da oftalmologia é promissor, principalmente para aquelas com viabilidade econômica e proteção intelectual de seus produtos e serviços. Isso porque as grandes empresas no Brasil, mercado visto pelas multinacionais como estritamente consumidor, não investem em inovação, mas ficam atentas às novidades do mercado, dos congressos e das universidades. "As grandes novidades nascem de pequenas empresas, pois as grandes estão no país para vender, priorizar o marketing e não desenvolver", avalia. Por outro lado, as empresas maiores e já estabelecidas estão mais abertas a riscos para comprar ou adquirir novas tecnologias. "Há uma porta aberta para a inovação fora das grandes empresas. O desafio dos inovadores é estreitar o contato com elas e oferecer suas soluções para mais gente", acrescenta.

De modo geral, os polos universitários de desenvolvimento de tecnologia estimulam estudantes e professores a buscar soluções ou aplicações focadas nos usuários finais, ou seja, nos pacientes. São instrumentos feitos e testados em laboratórios e depois usados em exames ou cirurgias em seres humanos. As inovações são fomentadas com investimentos da própria universidade, por meio de recursos governamentais e até mesmo do próprio bolso dos profissionais envolvidos no projeto. "Essas divisões de pesquisa, ou pequenas ilhas de inovação, são a única esperança de coisas novas aparecerem", comenta.

Há também outras maneiras de subsídios às empresas inovadoras ainda em estágio embrionário. Uma delas é o programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), criado em 1997 para apoiar a execução de pesquisa científica ou tecnológica em pequenas empresas sediadas no Estado de São Paulo.

Ao mesmo tempo, não é milagre cair do céu a ajuda do chamado "investidor-anjo". São pessoas ou fundos de investimento dispostos a oferecer capital e suporte administrativo para empresas nascentes de tecnologia em diferentes setores. Além disso, embora bastante atrasado em comparação a países como EUA e Coreia do Sul, o governo brasileiro, por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI), lançou em março deste ano um programa de aceleradoras de empresas emergentes de tecnologia, o Start-up Brasil. Em meio ao boom de surgimento dessas pequenas empresas, a área da oftalmologia, cada vez mais interligada à tecnologia, também poderá se beneficiar das boas ideias e de novas fontes de recursos aos empreendedores.

Inovadores da oftalmologia

Já existem alguns casos de sucesso de empresas start-ups especializadas em produtos e serviços oftalmológicos, concebidas e dirigidas por brasileiros. Em comum, elas tiveram como semente embrionária o trabalho de pesquisa de ex-alunos e professores de grandes universidades brasileiras e estrangeiras. Um bom exemplo é a Wavetek Technologies, que fabrica uma série de instrumentos para oftalmologia e para outras áreas médicas. A empresa foi criada, em 2006, pelo Professor e Pesquisador do Centro de Excelência em Óptica e Fotônica (CEPOF) da USP de São Carlos, Luís Alberto Carvalho, também PhD em Física aplicada à óptica.

Hoje a start-up cresceu e tem uma estrutura física de mais de 300 m², incluindo linha de produção e oficinas computadorizadas. Com cerca de 50 empregos gerados, ela continua desenvolvendo projetos de inovação em parceria com as universidades."Nosso faturamento atual está na casa dos milhões de reais por ano e atendemos a todo Brasil, sendo que este ano estamos fechando parceria com uma multinacional para exportação de nossos produtos para mais de 100 países", afirma o empresário-docente.

A empresa conta com diversos produtos pioneiros já lançados. Dentro de seu portfólio, destacam-se o Heron, primeiro microscópio especular totalmente desenvolvido no Brasil e com mais de 300 unidades vendidas, e o Chroma, primeiro topógrafo de córnea com discos cromáticos do país. O instrumento oftálmico desenvolvido mais recentemente chama-se Mono, um topógrafo de córnea com discos monocromáticos e mapas virtualmente idênticos, feito para médicos acostumados com o padrão Eyesys. "A oftalmologia é um mercado muito bom, especialmente a área cirúrgica. Mas as empresas iniciantes têm que focar hoje no mercado mundial, formado por cerca de 200 mil médicos oftalmologistas. Outro detalhe é atentar que o médico brasileiro tem o mesmo nível daqueles de países desenvolvidos, portanto os novos produtos devem ter qualidade internacional", ensina Carvalho.

O mercado internacional já faz parte do plano de negócios da EyeNetra, start-up baseada na cidade americana de Boston, desde 2012. Ela foi fundada por Vitor Pamplona, graduado em Ciências da Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em parceria com um professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), onde o brasileiro ingressou em 2009 para cursar doutorado e trabalhar no grupo de ótica da renomada universidade. "Conheci a oftalmologia através de pesquisas, livros, artigos e logo na minha pós-graduação no Brasil comecei a desenvolver modelos biofísicos sobre o funcionamento do olho. Apliquei as teorias da computação na oftalmologia para construir uma tecnologia que, se desconsiderar o preço do celular, é o exame refrativo acurado mais barato já inventado", conta.

Sua atual aposta tecnológica é uma máscara ótica justamente para medir o poder refrativo dos óculos das pessoas por meio de aplicativo do celular. Ela fornecerá medidas acuradas para corrigir miopia, astigmatismo, entre outras doenças. O patenteado e premiado projeto nasceu no MIT e ainda tem sido aperfeiçoado pela EyeNetra. "As pessoas poderão ter esse equipamento em suas casas, fazer a própria medição visual e levar para o médico avaliar os resultados. Será um produto de baixo custo, com acurácia eficaz e similar ao que os médicos têm no consultório", garante o cofundador da empresa.

A máscara será lançada na Índia, em 2014. O populoso país asiático foi escolhido inicialmente em razão de seu mercado regulatório mais acessível, bem como pelo fato de boa parte dos indianos não possuir acesso a consultas oftalmológicas. Segundo Pamplona, perto de 4 bilhões de pessoas no mundo precisam de óculos, mas só a metade tem alcance às consultas. "É preciso prover soluções para esse público viver com a mesma performance ocular de uma pessoa normal. Na Índia, os problemas de visão são em geral associados com pobreza e baixa qualidade de vida. Os indianos acreditam até que a catarata seja uma doença incurável", cita.

Quando chegar a outros países, como Estados Unidos e Brasil, o inédito dispositivo da EyeNetra terá versões específicas de acordo com a cultura e regras mercadológicas de cada lugar. Vitor vislumbra que, por meio do app vinculado à máscara, o paciente poderá interagir diretamente com o médico e até receber prescrições. "É uma grande tendência transformar o celular em equipamentos diagnósticos e de aferição para a medicina e bem-estar em geral", aposta.

Se há muitos investidores no mercado, conforme afirmam os especialistas, ainda faltam as boas ideias e empresários para realizá-las. Na oftalmologia ou em qualquer segmento, as mentes brilhantes das universidades são o começo de tudo - e a inspiração das start-ups.