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Jornal do Campus online

As revistas acadêmicas na era do online

Publicado em 11 julho 2017

Por Nara Siqueira

Cinco milhões. Esse é o número de downloads que, em breve, o Portal de Revistas da USP alcançará. Quando começaram a surgir os primeiros movimentos de mudança do suporte físico para o online, nasceu também um sentimento de dúvida entre os acadêmicos. No universo da pesquisa, os títulos impressos pareciam ter maior credibilidade e aceitação.

Apesar disso, mesmo com o crescimento das publicações eletrônicas e a diminuição, cada vez maior, dos periódicos em papel, as estatísticas mostram que os leitores continuam engajados com as revistas da Universidade.

André Serradas é bibliotecário chefe da Seção de Apoio ao Credenciamento de Revistas USP e assumiu o Portal de Revistas em 2010, quando ele estava praticamente fora de operação.

O projeto de André foi baseado em estabelecer diálogo entre a produção interna e o público externo, objetivo que ele ainda não considera totalmente atingido. Além disso, a equipe de Serradas também reuniu esforços para alinhar o que já existia dentro da USP com as técnicas de desenvolvimento de edição de periódicos advindas de fora da Universidade.

A seguir, ele fala sobre as mudanças, a importância do ambiente acadêmico e a recepção do suporte eletrônico entre os leitores.

Houve resistência na adoção de novos formatos?

Ainda existe uma visão de que o meio eletrônico é menos legítimo ou menos interessante que o impresso. Eu acredito que existam preferências individuais. Há os que optam pela experiência de consumir o conteúdo em papel e outros que não abrem mão do on-line.

Agora, uma coisa é certa: se o material não tem qualidade, ele assim será independentemente do suporte. Pode ser que estar em uma ou outra forma de publicação ajude, mas a natureza do trabalho permanecerá inalterada.

Então, essa transferência do impresso para o on-line não prejudicou a reputação das revistas?

De forma alguma. Aliás, acho que, atualmente, uma revista que é publicada somente em formato impresso causa mais estranhamento do que uma que só está disponível na internet.

E não falo sobre o conteúdo ser melhor o pior. A questão é que as pessoas que não comungam da mesma opinião em relação ao papel não se sentirão, digamos, bem atendidas na divulgação.

Mesmo quando tratamos de produção acadêmica, essa mudança fez-se necessária?

A transição para o eletrônico não veio, simplesmente, de uma demanda de mudança de mídia. É óbvio que o advento da internet teve grande contribuição, mas isso aconteceu também devido às transformações nos processos de comunicação científica que exigem maior agilidade na publicação dos resultados de pesquisa.

Há alguns aspectos que influenciaram muito na mudança de paradigma no modus operandi de publicação de periódicos no Brasil: o primeiro é a própria internet, claro. Depois, o projeto SciELO, da FAPESP ‒ uma influência enorme no crescimento e desenvolvimento dos periódicos nos últimos anos.

Quando ele começou, lá em 1997, já apostou no meio on-line com livre acesso (embora esse movimento de acesso livre não estivesse consolidado no mundo). Foi algo bem pioneiro no sentido de pensar em uma política ampla que se valesse do meio digital.

Por fim, o aparecimento de novas tecnologias de código fonte aberto que se disseminaram tanto para os repositórios acadêmicos quanto para as revistas.

Há situações em que o objeto é, sim, um componente importante da leitura, mas isso não é válido para tudo. No ambiente acadêmico, há realidades muitos diferentes, especialmente na Universidade de São Paulo, onde lidamos com todas as áreas do conhecimento.

Quais situações exigem a revista enquanto objeto físico?

Se olharmos, por exemplo, para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo ou mesmo para a Escola de Comunicações e Artes, veremos que, em determinadas situações, existe a necessidade do livro palpável.

É diferente analisar uma fotografia por meio da tela do computador ou, de fato, senti-la, aproximar o olhar dela. Mas, por outro lado, há casos em que o objetivo é apenas o material textual ‒ logo, o suporte não é uma preocupação.

E no que diz respeito ao armazenamento do conteúdo?

Esse também é um problema: o espaço físico disponível para a quantidade de material que é produzido ou adquirido pela Universidade. E, nesse aspecto, a transição para o digital foi uma solução ideal.

A não ser em casos justificados e muito bem embasados, nós não assinamos mais revistas impressas. De modo geral, a busca pelos periódicos em papel decaiu em função da disponibilidade do material eletrônico.

O motivo é simples: pela própria estrutura que as revistas adquiriram ao longo do tempo, não há mais a formação de um monolítico temático na maioria dos casos.

Os artigos passam a ser publicados em diversas subáreas cada vez mais específicas, o que também, considerando o ambiente acadêmico, facilita o trabalho de seleção de bibliografia do professor.

A dinâmica de acesso aos conteúdos já não depende da visita técnica ao acervo da biblioteca. A disponibilidade de informação é muito maior do que aquela que conseguimos oferecer fisicamente.

No que se refere à publicação, qual o maior benefício que estar no ambiente acadêmico pode trazer?

A vantagem de você estar na Universidade é ter espaço para diferentes discursos. A USP permite e não cria nenhum obstáculo para que um determinado grupo publique uma revista somente impressa, se esse for o desejo dela. Então, ele se organiza, mobiliza recursos e faz.

Se quer publicar só on-line, vá em frente. Só em inglês, tudo bem. Só em português, sem problemas. Mas também tem que assumir as consequências da sua opção.

Quando você rema com a maré, é mais fácil superar alguns obstáculos, porque você está dialogando com quem determina como as coisas são. Quando você decide ir contra a correnteza, fica mais difícil. Claro, você conquistará algumas coisas, mas perderá outras.

Falando especificamente sobre o Portal: quais mudanças você considera que foram as mais relevantes nessa última década?

Quando cheguei aqui, em 2010, o Portal de Revistas contava com 58 títulos. Hoje, temos 169. Há, de novo, duas situações que explicam esses números: antigamente, nem todas as revistas faziam parte do Portal, porque este tinha uma política que abrangia apenas os periódicos credenciados no Programa de Apoio às Revistas da USP.

Alteramos isso para que todas as revistas que são editadas oficialmente na Universidade possam participar do Portal, desde que sejam científicas e estejam preocupadas com os padrões inerentes à edição de periódicos. Além disso, também digitalizamos todas as edições retrospectivas. Facilitamos a pesquisa e o contato com a informação.