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Jornal da USP online

As relações entre mídia e ciência

Publicado em 13 maio 2015

O Workshop Comunicação e Pesquisa,promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da USP, em parceria com a Superintendência de Comunicação Social (SCS), reuniu no dia 29 de abril, no auditório da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, cientistas e jornalistas interessados em discutir a divulgação científica nas unidades de ensino e pesquisa da Universidade.

O vice-reitor da USP, Vahan Agopyan, o assessor de gabinete da PRP Hamilton Varela e o superintendente de Comunicação Social da USP, Marcello Rollemberg, abordaram em suas falas iniciais o tema “Mídias USP: promovendo o diálogo entre a ciência e a sociedade”, em que discorreram sobre a importância de dar visibilidade à produção científica da Universidade.

“A divulgação científica é, antes de mais nada, o grande vetor de contato com a sociedade. Os veículos de comunicação têm um papel essencial para amplificar o conhecimento aqui produzido. Não é de nosso interesse que as pesquisas e o trabalho da Universidade fiquem restritos à comunidade interna”, disse Rollemberg.

A Superintendência de Comunicação Social (SCS), um dos órgãos centrais da USP, coordena as diversas mídias da instituição – internet, rádio, TV, revistas e jornal – voltadas a divulgar ao público externo e interno a vida acadêmica e o trabalho de sua comunidade científica. Os veículos de divulgação da SCS são o USP Online – responsável pelo Portal da USP –, a Agência USP de Notícias, a TV USP, a Rádio USP, a revista eletrônica Espaço Aberto, a Revista USP e o Jornal da USP.

Alguns dos mais conhecidos profissionais do jornalismo científico participaram do debate “Experiências em divulgação científica”. Estavam presentes Mônica Teixeira, diretora e apresentadora da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) e responsável pela implantação do núcleo de divulgação científica da USP, Fabrício Marques, editor executivo da revista Pesquisa Fapesp, e Marcelo Leite, repórter especial do jornal Folha de S. Paulo.

O mediador da mesa foi o jornalista Roberto Castro, diretor da Divisão de Mídias Impressas da SCS, que apontou as dificuldades de interação entre pesquisadores e jornalistas das mídias da USP. “O grande objetivo das nossas mídias é divulgar as pesquisas da USP a fim de que elas contribuam até mesmo com políticas públicas”, disse Castro. “É difícil, mas possível, desde que jornalistas e pesquisadores estejam dispostos a aparar arestas, eliminar desconfianças e a trabalhar juntos num objetivo comum.”

Mônica reiterou o papel da pesquisa científica para a sociedade. “A USP é um mundo e produz muita coisa interessante e relevante. Precisamos ter em mente que, ao divulgar esse trabalho, as estrelas têm que ser os docentes e o que os docentes sabem.” Para exemplificar sua abordagem, Mônica mostrou algumas pesquisas produzidas por cientistas da USP, recuperadas de uma busca que fez na página da Biblioteca Virtual, do site da Fapesp.

O público jovem merece atenção especial, disse Mônica. “Uma tarefa da divulgação científica deve ser aumentar o entendimento de quem vai entrar na USP, a respeito do que é a USP. Esse público, que é do ensino médio, precisa não só saber mais sobre a Universidade, mas também ver a USP de uma forma desmistificada. Precisamos fazer a USP chegar mais perto desse público, porque acredito que muita gente capaz sequer tenta fazer o vestibular para entrar na USP”, disse.

A jornalista atuará em um núcleo de comunicação para implementar o Programa de Educação e Divulgação Científica da USP. “Vamos alinhar ideias, articular o que já existe e produzir coisas novas, principalmente a partir dos Cepids (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão). Vamos reunir essas informações num certo lugar na Internet”, disse. Os Cepids foram pensados para fomentar a pesquisa em áreas estratégicas do conhecimento. Funcionam com financiamento da Fapesp e das instituições que sediam esses centros. A USP coordena 11 dos 17 Cepids criados no Estado de São Paulo.

“Esperamos que o núcleo de divulgação científica que em breve teremos na Universidade promova de fato a interação da sociedade com a Universidade e a comunicação da USP, auxiliando a cumprirmos o papel histórico do jornalismo como mediador da sociedade”, disse o superintendente Marcello Rollemberg a respeito do núcleo de comunicação.

O jornalista Fabrício Marques, editor executivo da revista Pesquisa Fapesp, veículo mensal de divulgação científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, expôs a linha editorial que norteia o processo de produção de sua equipe e alguns critérios para a escolha de pautas.

“Claro que o fato de o projeto ser financiado pela Fapesp é um dos critérios para definir matérias. Mas também nos valemos de informações como, por exemplo, se o trabalho já foi veiculado em alguma publicação científica. O próprio relacionamento com os pesquisadores, o feedback que temos deles, também pode ser fonte de pautas”, disse o editor.

A relação da revista com os pesquisadores é “muito próxima”, segundo o editor. “Eles gostam muito da revista, confiam no nosso trabalho e isso facilita muito. Não que isso torne o trabalho menos complexo. Ao contrário, pois temos que transformar uma informação cifrada, bastante difícil para o público leigo, em algo minimamente inteligível. E a gente se esforça muito para isso”, disse.

Mesmo com a credibilidade construída ao longo de sua história, a revista também enfrenta dificuldades na edição. “A matéria passa por uma revisão do pesquisador antes de ser publicada e isso ajuda bastante, porque evita erros. Mas algumas vezes não é possível aprovar algumas linguagens muito específicas ou terminologias que o pesquisador insiste em usar”, disse Marques.

Marcelo Leite, da Folha de S. Paulo, falou especialmente sobre o portal e a distribuição de notícias nos sites da USP. Reiterou as observações que fez em novembro do ano passado, quanto participou do debate “A USP e os meios de comunicação”, na sala do Conselho Universitário, durante as comemorações dos 80 anos da USP. “A hierarquização de notícias no site da USP me parece aleatória e, portanto, não serve de fonte para jornalistas que queiram encontrar alguma notícia para divulgar ciência”, disse Leite.

Exemplos de sucesso – O professor Marcelo Zuffo, do Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas (Citi) da Escola Politécnica (Poli) da USP, participou da “Dinâmica entre pesquisadores e jornalistas das Mídias USP”, mediado pelo jornalista Antonio Carlos Quinto, editor da Agência USP de Notícias.

Além de Zuffo, a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e o professor Ernane Xavier da Costa, do Laboratório de Física Aplicada e Computacional (Lafac) da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, também mostraram matérias que ganharam repercussão nacional e internacional.

“Quando o Quinto me liga perguntando se tem alguma novidade, tenho pensado muito bem antes de responder que sim. Porque a repercussão da divulgação científica às vezes é tão grande que é preciso pensar bem antes de querer esse tipo de exposição. É preciso coragem”, disse Zuffo.

Os casos levados à plateia mostraram como a divulgação nas mídias da USP canalizaram retornos que permitiram a evolução e novos encaminhamentos para as pesquisas citadas. “Eu coordeno um laboratório, o LEER, e um projeto que tem dado resultados desde o meu doutorado, que é o Arqshoah (http://www.arqshoah.com.br/), em que deposito minhas pesquisas e as disponibilizo para consulta pública. O meu contato com as mídias USP vem acontecendo em diferentes momentos e posso garantir que muitos dos resultados conquistados em termos de informação, formação e também prevenção, eu devo às notícias publicadas nessas mídias”, disse Maria Luiza.

Entre os exemplos, a professora citou a pesquisa sobre o Preventório Santa Terezinha, que mantinha filhos de pais com hanseníase. “Assim como outros espaços de exclusão, havia grandes dificuldades de acesso aos documentos e não havia identificação de nomes. Após a publicação da matéria, uma das crianças que estiveram nessa instituição, agora adulta, nos procurou e nos trouxe uma história reveladora sobre o tratamento dado àquelas crianças. O depoimento entrou como anexo importantíssimo à pesquisa de Cláudia Cristina dos Santos”, contou a docente.

O professor Ernane Costa mostrou diversas matérias que trouxeram impactos nas pesquisas e nas carreiras dos próprios pesquisadores. “Desse contato com a Agência USP percebi que o trabalho de divulgar ciência é interdisciplinar. E entre interdisciplinaridade e picaretagem existe uma linha muito tênue. Daí a importância do profissionalismo para mostrar o trabalho de formiguinha do pesquisador”, disse o professor da FZEA.

Para Antonio Carlos Quinto, os depoimentos sinalizam a trajetória construída ao longo de 20 anos da Agência USP de Notícias – criada em 1995 –, que, atualmente, através dos boletins que produz, chega a milhares de redações de mídias e a receptores que se cadastram no seu site (www.usp.br/agenciausp).

Os casos emblemáticos levados ao workshop ficaram famosos, mas não são mais importantes que outras pesquisas já divulgadas na Agência USP de Notícias, enfatizou Quinto. Para dar uma amostra do que tem sido feito, o jornalista convidou os presentes a assistir ao vídeo institucional produzido para comemorar os 20 anos da agência. Com dezenas de depoimentos, o material está disponível no link https://www.youtube.com/watch?v=ZZfAHaGTVdg&feature=youtu.be.

“O relacionamento da Agência USP de Notícias com os pesquisadores foi construído de forma muito positiva. Trabalhamos de maneira parecida à da revista Pesquisa Fapesp, pois, antes de ser veiculada, a matéria é verificada pelo próprio pesquisador. E reforço que a estrela desse trabalho é mesmo o pesquisador. Ele dedica anos de estudo a um tema e não é um jornalista que vai deturpar esse trabalho”, disse Quinto.

A plateia fez perguntas, críticas e elogios e serviu de contraponto aos debates. Boa parte dos pesquisadores apresentou dúvidas sobre como conseguir divulgação de seu trabalho. “Pega o resumo, ou o texto de sua tese ou dissertação, relatórios, fotos, o que você tiver e envia para o Quinto. Ele saberá tratar essa informação e, pela minha experiência altamente positiva, posso dizer que tratará de forma muito responsável”, finalizou Zuffo.

Impressões sobre o encontro

Abaixo, participantes do Workshop Comunicação e Pesquisa dão suas impressões sobre o encontro.

“Gostei muito do evento. Minha sugestão para o próximo workshop é que o espaço para discussão seja ampliado. O tema da divulgação científica necessita de troca de informações para que seja possível uma mudança efetiva na realidade da difusão de conhecimentos acadêmicos” (Gabriel Monteiro, biólogo).

“A iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa e da SCS foi muito positiva. É extremamente necessário discutir os caminhos da relação mídia e pesquisa” (Simony dos Anjos, gestora de projetos do Núcleo de Estudos da Violência da USP).

“Iniciativas como esta sempre são oportunas. Provocam o debate, tiram-nos da zona de conforto e nos fazem avaliar o trabalho que realizamos dentro de um contexto mais amplo” (Fabiano Pereira, da Assessoria de Comunicação da TV USP, em Piracicaba).

“O workshop contribuiu para vermos que poucos pesquisadores sabem como funcionam as mídias da SCS. Atribuo isso à complexidade, à diversidade de áreas e, principalmente, ao tamanho da Universidade” (Rosemeire Talamone, jornalista da USP de Ribeirão Preto).

“Esta iniciativa é excelente. Através da informação sobre as pesquisas, a Universidade poderá avançar ainda mais no processo de transformação da sociedade” (Werner Souza Martins, doutorando da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP).

“Essa discussão permite o amadurecimento de uma visão mais coesa e estruturada para que a USP se comunique cada vez melhor internamente e também com a sociedade em geral” (Michel Sitnik, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP).

“Muito positiva a iniciativa de aproximar a difícil relação entre o comunicador e o pesquisador, que, afinal, possuem preocupações e rotinas muito diferentes” (Marcellus William James, da Assessoria de Comunicação da Faculdade de Saúde Pública da USP).