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As reinfecções e o SARS-CoV2

Publicado em 11 novembro 2020

No fim de agosto, quando a Covid-19 já havia atingido 25 milhões de pessoas pelo mundo, cientistas de Hong Kong anunciaram o primeiro caso documentado de reinfecção pelo novo coronavírus. No estudo publicado no periódico Clinical Infectious Diseases, cientistas detalharam a história de um homem de 33 anos que testou positivo em 15 de agosto para Covid-19 quatro meses e meio depois de ter sido diagnosticado pela primeira vez.

A reinfecção só foi comprovada porque os vírus coletados no segundo exame positivo foram comparados geneticamente com os primeiros que o paciente contraiu em abril – e eram diferentes. Essa observação eliminou a suspeita de que o novo resultado positivo fosse causado por vírus que poderiam estar inativos no corpo do paciente após a primeira infecção.
Poucas semanas antes, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) haviam relatado que uma técnica de enfermagem de 24 anos testara positivo para o vírus duas vezes em um intervalo de 50 dias – a primeira em meados de maio e a segunda no fim de junho. Nesse caso, não foi possível fazer a análise genômica porque o material colhido do nariz havia sido descartado.

Nos últimos meses, começaram a surgir notícias sobre pacientes reinfectados pelo Sars-CoV-2, gerando preocupação na população e acendendo o sinal de alerta nas autoridades e na comunidade científica. A possibilidade de reinfecção poderia sugerir que as pessoas acometidas pela doença não desenvolveriam imunidade contra ela ou que essa imunidade teria prazo de validade. Além disso, trouxe mais um elemento para as discussões sobre a eficácia das medidas de isolamento social e as vacinas em desenvolvimento para combater o novo coronavírus.

Passados dois meses do caso de reinfecção em Hong Kong, o número de infectados pela Covid-19 quase dobrou – já são 45 milhões de casos no mundo – e os pacientes reinfectados confirmados de que se tem notícia mundo afora não chegam a meia dúzia. Os casos suspeitos estão na casa de centenas. Houve registros documentados também na Holanda, no Equador, na Bélgica e nos Estados Unidos. Neste último, um paciente de 25 anos foi acometido duas vezes pela Covid-19 em um intervalo considerado curto para doenças respiratórias causadas por vírus: 48 dias entre o primeiro e o segundo contágio.

O caso tornou-se conhecido ao ser divulgado no periódico The Lancet. Na segunda vez em que foi infectado, o paciente apresentou sintomas mais severos, precisando de auxílio para respirar. O mesmo aconteceu nas reinfecções holandesa – em que a paciente, fragilizada por uma quimioterapia, morreu – e equatoriana.

Especialistas afirmam que o mais provável seria que os casos de reinfeção fossem associados a quadros assintomáticos ou com sintomas mais amenos do que na primeira infecção. Dessa forma, sobreviver ao primeiro ataque do Sars-CoV-2 seria garantia de tornar o sistema imune capaz de conter os danos da Covid-19 de maneira permanente. A ocorrência de casos reincidentes mais severos aponta para outras hipóteses: a exposição a uma carga viral baixa no primeiro contágio poderia gerar uma resposta imune fraca, incapaz de barrar uma nova infecção. Outra possibilidade seria a de que a exposição a uma carga viral maior na reinfecção provocaria sintomas mais severos.

No Brasil, pelo menos 93 casos de possíveis reinfecções por Covid-19 estavam sendo estudados no fim de outubro, segundo levantamento divulgado em reportagem da CNN Brasil. Vinte e oito desses casos são acompanhados pelo infectologista Max Igor Lopes, que coordena um ambulatório dedicado exclusivamente a suspeitas de reinfecção no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), em São Paulo. A equipe tenta descobrir como se dão as reinfecções e quais informações elas podem oferecer para melhor compreensão do contágio, do controle e até do potencial das vacinas contra a Covid-19.

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Fonte: Revista FAPESP