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As receitas do livro da vida

Publicado em 19 fevereiro 2001

Por CRISTIANE SEGATTO
"Trezentos genes, num universo de 30 mil, separam o homem do camundongo". Assim, dita de chofre, a informação dos cientistas que decifraram a essência biológica do ser humano é desconcertante. Os genes são tijolos químicos dentro das células que contêm instruções sobre as características de cada indivíduo e o funcionamento do organismo. O achado significa que a receita usada pela natureza para criar o homem teria quase a mesma quantidade de ingredientes necessários para construir o rato. No dia 12, os especialistas apresentaram os resultados do Projeto Genoma Humano, esforço internacional para determinar a seqüência das letras químicas que regulam a vida. Surpreenderam platéias em anúncios simultâneos realizados em Washington, Londres, Paris, Berlim, Tóquio e Pequim. A tarefa monumental consumiu uma década de trabalho de milhares de pesquisadores. O que eles fizeram equivale a pôr em ordem todas as palavras de um livro defeituoso, cheio de páginas embaralhadas. O projeto recebeu contribuições específicas de cientistas de todo o mundo, inclusive informações do Projeto Genoma Câncer, desenvolvido em São Paulo. A conquista promete revolucionar a medicina nas próximas décadas. A descoberta de genes responsáveis por 800 enfermidades, como o mal de Alzheimer, a doença de Parkinson, a esquizofrenia e o glaucoma, permite o desenvolvimento de testes genéticos de diagnóstico. Nos Estados Unidos, uma gota de sangue já é capaz de indicar a propensão a certas moléstias mesmo em pessoas saudáveis. A produção de medicamentos terá um novo paradigma. Atualmente, os remédios atacam cerca de 500 alvos no organismo. Com base no Projeto Genoma Humano, os cientistas deverão identificar milhares de novos destinatários para as drogas. O estudo também abre novas perspectivas para terapias genéticas - promessas de cura por meio da alteração de genes defeituosos. A descoberta da seqüência do DNA humano foi feita por dois grupos rivais. De um lado, há a equipe do consórcio público internacional, liderada pelo cientista americano Francis Collins. De outro, o pesquisador Craig Venter, dissidente do núcleo original e fundador da empresa Celera. As conclusões golpeiam as teorias deterministas que atribuem todas as mazelas humanas à herança dos genes. "Nossa complexidade emergiu de outras fontes, de nossa rica interação com o planeta", diz Collins. "O tamanho do código genético em si é pouco importante", afirma o bioquímico Marcelo Valle de Sousa, do Centro Brasileiro de Serviços e Pesquisas em Proteínas, da Universidade de Brasília. O que faz do homem um ser vivo capaz de chegar à Lua, apesar dos poucos genes de vantagem em relação a outros seres, é a riqueza de combinações entre as proteínas que o organismo humano produz. Os pesquisadores partem agora para o estudo dessas proteínas, fabricadas por ordem dos genes. Querem descobrir suas funções e as incontáveis combinações. "Os últimos dez anos foram os do genoma; os próximos 100 serão os das proteínas", diz Sousa. As palavras do livro da vida estão ordenadas, mas ainda não é possível compreender o sentido exato delas. "Temos de acabar com a idéia de que falta pouco para entendermos o papel dos genes". Nenhum dos dois grupos conseguiu identificar todos os genes humanos, como haviam planejado. Nos artigos publicados pelas duas principais revistas científicas do mundo, a britânica Nature e a americana Science, os pesquisadores saíram pela tangente. Estimam que o homem possua entre 26 mil e 40 mil genes. É pouco, perto dos 100 mil que esperavam encontrar. Para criar um verme, a natureza precisa de 19 mil genes. "Os artigos provam que os autores não têm idéia de quantos genes compõem o corpo humano; por enquanto, só lhes resta especular", diz o bioquímico Andrew Simpson, do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo. No meio do caminho, Venter e Collins perceberam que as ferramentas não diferenciavam os genes de outras estruturas semelhantes. Chegaram a um mapa imperfeito numa área em que só havia escuridão. O geneticista Sérgio Penna, da Universidade Federal de Minas Gerais, usa uma metáfora com os bandeirantes paulistas para explicar o significado da descoberta: "Recebemos um mapa com a localização de pedras preciosas, mas temos dificuldade para distinguir esmeraldas de turmalinas". A análise das proteínas levará à produção de medicamentos mais eficientes e personalizados. As indústrias começam a procurar moléculas capazes de acoplar-se exatamente ao formato das proteínas e bloquear doenças. A oferta de remédios poderá variar de pessoa para pessoa, de acordo com o metabolismo de cada uma. O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos e o Instituto Ludwig, de São Paulo, divisaram um atalho. Em vez de buscar a seqüência completa do DNA, estrutura celular em forma de hélice que abriga o código genético, analisam apenas o RNA mensageiro, elemento que possui informações para a síntese de proteínas. Quando encontram tais estruturas sabem que há um gene por perto. Dessa forma, o Projeto Genoma Câncer desenvolvido no Brasil localizou 1 milhão de fragmentos de genes, um terço do trabalho realizado no mundo sobre a doença. O esforço permite criar testes para detectar a propensão ao câncer hereditário. Atualmente, são conhecidas 50 alterações em genes relacionados à doença. Ainda há muito o que fazer. Com 61 páginas, o principal artigo publicado pela equipe de Francis Collins na Nature termina com uma frase do poeta americano T.S. Eliot, morto em 1965: "O final de toda nossa exploração será chegar aonde começamos e conhecer esse lugar pela primeira vez". Revela o espírito do trabalho sem fim que os aguarda. A HISTÓRIA DO DESAFIO 1990 Tem início o Projeto Genoma Humano, financiado pelos EUA em colaboração com cinco países 1992 O biólogo Craig Venter desliga-se do projeto internacional e cria um centro paralelo de pesquisas 1993 O cientista Francis Collins, da Universidade de Michigan, é nomeado diretor do consórcio internacional 1998 Venter funda a empresa Celera. Promete seqüenciar todo o genoma humano antes do grupo oficial 2000 Venter e Collins apresentam um rascunho do genoma humano 2001 A primeira análise do código genético humano é revelada pelos grupos rivais simultaneamente