Notícia

Jornal do Brasil

As parabólicas do ministro Paulo Renato

Publicado em 28 março 1996

Por HAMILTON WERNECK*
Décadas atrás, o comunicador Marshall Mac Luhan preconizava o surgimento da aldeia global. As escolas usavam a tecnologia do cuspe e do giz. A educação a distância aprimorava países desenvolvidos e o Brasil consumia a energia dos educadores nas aulas exclusivamente verbalizadas. Educação a distância era considerada entre nós como alguma coisa que não tinha a grife da competência. Saber, por correspondência, escapando às armadilhas reprovadoras do sistema escolar, não conferia aquele diploma esperado pela sociedade tipicamente excludente. A escola brasileira, no entanto, entra em contato com a eletrônica e começa a superar a era da salivação e do simples uso do invento de Guttemberg, através das antenas parabólicas invasoras do sagrado espaço pedagógico, onde somente a viva voz tinha sua cátedra. O ministro acredita na educação a distância e suplementa a sua crença na medida em que promete atualizar o corpo docente através de programas de televisão, via satélite, para a maioria das escolas brasileiras. Um investimento de vulto criador de impacto no meio conservador educacional não muito acostumado com estas otimizações de sistemas promotores de mudanças. Diante da ousadia do investimento, as opiniões se multiplicam, surgindo defensores e opositores, apesar de todos defenderem a melhoria da educação em todo o Brasil, a começar pela retomada da dignidade do professor. Mas, diante das parabólicas do ministro da Educação, surge o medo da perda do emprego, da substituição do professor pelo sistema de teleducação e da uniformização da opinião dos docentes numa linha filosófica de interesse do próprio governo. Mesmo louvando os questiona-, mentos advindos de consciências mais críticas, creio estar o Ministério interessado na utilização de meios modernos, rápidos e eficazes para, melhorar a qualidade do ensino. É evidente que muitas aulas via satélite usarão recursos didáticos acima da capacidade de escolas, professores e até faculdades de educação. "Se, de um lado, isto pode colocar em xeque o magistério, por outro." será um excelente meio instigador de mudanças de aprimoramento, sobretudo quando estas aulas tiverem como objetivo ensinar a ensinar. As parabólicas poderão melhorar professores e alunos. O medo decorrente da educação a distância reside ainda em outra vertente ligada ao desemprego provocado pela máquina. Quando se vê a telinha invasora em ação, pode surgir na cabeça do professor a idéia de ser substituído. Mesmo que a dúvida persista por algum tempo, é importante salientar uma característica adormecida entre os profissionais da educação: a sua função mediadora. Qualquer método, qualquer instrumento vai requerer a presença humana do professor para continuar o trabalho propriamente dito da educação, que supõe a interação entre educador e educando. Os meios visuais e eletrônicos são instrumentos a serviço da educação e não descartam a presença do educador, hoje, numa concepção moderna, muito mais mediador que professor. Se tivéssemos de tratar o problema somente na ótica do ensino, poderíamos ensinar através da televisão. Mas a função da escola é mais ampla e a relação dialética entre sujeito e objeto numa visão de construção de Vigotsky exige a presença constante do mediador. O professor adequado a esta transformação de final de século XX precisa passar da postura daquele que ensina para a postura daquele que facilita as relações entre o conhecido e o, desconhecido, o sujeito e o objeto. Se a proposta dó Ministério da Educação fosse a de instituir, através das parabólicas, máquinas de ensinar e condicionar, a minha posição estaria variando entre a dúvida e a condenação. No entanto, estou muito mais convicto de que as parabólicas do senhor ministro serão instrumentos ágeis de aprimoramento de nosso corpo docente, elementos baratos para os professores que necessitam continuar aprendendo, condição para continuar trabalhando. Ser professor e continuar professor dependerá de competência e, na medida do aumento da competência, o profissional terá condições de exigir melhor remuneração e mais dignidade. O ato educador é um ato marcadamente humano, insubstituível por qualquer máquina, e ainda não percebi nas declarações e entrevistas ser o professor Paulo Renato um defensor da fabricação, em série, de brasileiros robotizados. As parabólicas são instrumentos nas mãos de todo educador que ame a transformação e tenha fome e sede de progredir. A complementação da teleaula dependerá sempre do professor que, agora, poderá estar vivendo no interior e saborear os avanços dos grandes centros, antes inacessíveis. *Pedagogo e escritor