Notícia

Jornal da USP

As novas tendências em bionergia

Publicado em 05 outubro 2009

Congregar especialistas que fazem pesquisas na área da bioenergia, desde a obtenção da matéria-prima até o processo e uso final, e que atuam no Planejamento Nacional de Bioenergia foi o objetivo de um simpósio realizado pela Rede Temática Agroenergia e Sustentabilidade da USP no dia 25 de setembro, no auditório Altino Antunes da Faculdade de Medicina Veterinária. Especialistas e empresários do setor proferiram palestras para um público composto por discentes, docentes, pesquisadores e demais representantes da comunidade uspiana.

O professor Antonio Roque Dechen, coordenador da Rede Temática Agroenergia e Sustentabilidade e diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, abriu os trabalhos afirmando ser este um momento profícuo de atividades relacionadas ao tema bioenergia. Em seguida, chamou à mesa Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Única), que apresentou "Tendências e perspectivas do mercado sucroenergético". Jank fez um estudo sobre a evolução e perspectiva do setor sucroenergético brasileiro e abordou os programas socioambientais. "O debate sobre a utilização da cana como principal fonte de bioenergia tem que ser global e envolver a relação com outras culturas, como a soja, por exemplo", defendeu. Além disso, Jank lembrou que o setor vem se debruçando sobre o Protocolo Agroambiental, com o compromisso de terminar com a queima da cana até 2014 e investir intensamente na preservação de matas ciliares. "A cana será a primeira atividade que irá trabalhar com o desafio do desmatamento zero."

Outro ponto apontado pelo presidente da Única foi o zoneamento nacional, que indica a proibição de plantação de cana em biomas sensíveis como a Amazônia e o Pantanal. "A Única criou uma aliança brasileira pelo clima, um grupo formado por 15 principais entidades nacionais ligadas à agricultura, florestas plantadas e bioenergia. Juntas, elas representam 28% da matriz energética do País e contribuem com 16% das exportações totais do .Brasil."

Pontos estratégicos

Em seguida, Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, apresentou "Rede Paulista de Bioenergia". Cruz enfatizou três pontos estratégicos para direcionar o debate internacional e as pesquisas em bioenergia: redução das emissões de gás carbônico (CO2), escassez das fontes de energia não-renováveis e segurança energética. Além disso, destacou que o cenário brasileiro utiliza cerca de 46% da sua energia a partir de fontes renováveis. "O avanço tecnológico permitiu que baixássemos consideravelmente os custos para a produção de combustíveis para um limite inferior ao que se gasta para produzir gasolina", lembrou. O diretor científico da Fapesp defendeu a importância da Rede Temática de Bioenergia USP. "O debate mundial sobre biocombustíveis é pautado hoje por resultados de pesquisas publicadas recentemente em veículos científicos de alta qualidade e esta reunião tem esse compromisso, de fornecer subsídios para essa discussão em nível global."

Em relação à produção científica, Cruz apresentou um quadro positivo quando os temas são cana, etanol e biomassa, mas lembrou dos desafios para a pesquisa em bioenergia no Brasil. "Precisamos trabalhar a produtividade e sustentabilidade, produzindo ciência avançada em todos os níveis da pesquisa." Para isso, Cruz apontou que a Fapesp tem investido na rota científica e tecnológica, fomentando projetos do programa Pesquisa em Políticas Públicas, fortalecendo o Bioen e buscando solidificar o Centro Estadual de Pesquisa, com sede nas três universidades públicas paulistas (USP, Unesp e Unicamp).

Cana-de-açúcar

Após as duas palestras de abertura, que apresentaram o cenário sobre bioenergia, tanto do ponto de vista de mercado quanto das possibilidades de fomento a pesquisas, o que se viu foi uma sequência das mais produtivas de falas de pesquisadores da USP, originários de unidades de ensino como o Instituto de Física de São Carlos, Instituto de Química, Esalq e Escolas de Engenharia de São Carlos e Lorena. Gláucia Souza, do Instituto de Química, falou sobre "Biotecnologia aplicada ao melhoramento da cana-de-açúcar", abordando pesquisas que visam a melhorar o rendimento de determinadas variedades de cana. Gláucia afirmou que o emprego de tecnologias aliado a técnicas de manejo pode aumentar a produtividade. Além disso, as condições climáticas também devem ser consideradas nesse processo. "A plantação tem crescido no sul de Minas, Paraná. Centro e Nordeste, ou seja, tem se expandido para regiões do País onde a qualidade do solo e o clima seco exigem trabalhar o melhoramento adequado ao déficit hídrico." A pesquisadora do Instituto de Química lembrou ainda que houve um pico de publicações de artigos sobre cana em 2001. "Até então a maioria era norte-americana e hoje o Brasil assumiu essa liderança."

Falando sobre "Aplicações dos marcadores moleculares no melhoramento da cana-de-açúcar", Antonio Augusto Franco Garcia, professor do Departamento de Genética da Esalq, fez uma introdução aos estudos de genética e melhoramento da cana a partir da aplicação de marcadores, destacando que existe uma preocupação constante por parte de pesquisadores para que o mapa genético da cana seja cada vez mais detalhado a partir da aplicação de softwares, aliada a abordagens estatísticas. "E essencial ter bons mapas."

Helaine Carrer, docente do Departamento de Ciências Biológicas da Esalq, tocou na questão da "Biotecnologia e eficiência fotossintética da cana-de-açúcar", mostrando uma perspectiva geral sobre o processo de fotossíntese, lembrando que sua eficiência é afetada pela temperatura, intensidade e qualidade da luz e concentração de CO2. Apresentou o potencial energético de variedades de cana que podem, a partir de pesquisas, aumentar sua produtividade.

Helaine lembrou também que, em algumas décadas, a concentração de CO2 no ambiente irá aumentar substancialmente. Em termos de biotecnologia, as áreas de pesquisas se concentram em construção de mapas genéticos utilizando marcadores moleculares, cultura de células e tecidos, e inserção de genes de interesse (transgênicos).

Plantas

Na parte da tarde, o professor do Departamento de Genética da Esalq Mareio de Castro Silva Filho foi o primeiro a se apresentar, com a palestra "Herbivoria em cana-de-açúcar". Sua linha principal de pesquisa é a interação planta-insetos. "A coletividade pode ser desafiada por uma série de estresses (vírus, por exemplo), assim a perda na cana é da ordem de US$ 500 milhões por ano. As pragas broca-da-cana ou lagarta podem atingir cerca de 3 centímetros, migram no caule e completam todo seu ciclo de vida no interior da cana."

Na sequência, Adilson Roberto Gonçalves, da Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP, proferiu a palestra "Obtenção e aplicação de subprodutos na sustentabilidade econômica do etanol de segunda geração". Gonçalves destacou a sustentabilidade econômica da segunda geração do etanol explicando o conceito de biorrefinaria, que são- plantas industriais que podem ser convertidas econômica e ecologicamente em biocombustível e energia.

Também na mesma linha de pesquisas destinadas à obtenção de etanol de segunda geração, Carlos Labate, da Esalq, falou sobre "Potencial das florestas plantadas para produção de biocombustíveis". Labate lembrou que o Brasil é referência mundial em produção de eucalipto e grande parte do etanol de celulose virá da floresta. "Temos uma área total plantada 5,6 milhões de hectares, ou seja, 3,5 milhões com eucalipto e 1,8 com pínus, em florestas nativas protegidas pela própria indústria e empresas que aliam florestas plantadas com nativas", comentou. O professor destacou ainda que as pesquisas e a tecnologia permitiram aumento na produtividade do eucalipto para papel e celulose. "Os programas de melhoramento genético do eucalipto devem focar a seleção de árvores com maior conteúdo de casca. Existe grande variabilidade genética para a composição e estrutura da casca de eucalipto. Ela representa de 10% a 15% de uma árvore de eucalipto", enfatizou Igor Polikarpov, também um dos coordenadores da rede temática e docente do Instituto de Física de São Carlos da USP.

Retomando a questão do mercado de etanol, Marcos Lutz, vice-presidente comercial do Grupo Cosan, apresentou "Mercado mundial de etanol". Lutz iniciou apontando o fato de que a quantidade de pesquisas sobre etanol é o primeiro indicativo de que há muito campo para exploração cia bioenergia. Afirmou que o etanol combustível apresenta produção e demanda crescentes. "Temos muitas informações disponíveis, o que mostra que o etanol de cana é a melhor opção para reduziras emissões de gás carbônico, além do que os programas de mistura de etanol nas principais regiões do mundo podem expandir a demanda ainda mais." Lutz lembrou ainda que o Brasil tem vantagem competitiva sustentável de disponibilidade e custo de terra e que o crescimento da oferta depende também do aumento na produtividade. Outro ponto tocado na palestra foi a questão de certificação. "Para fomentar o mercado global é preciso consenso no processo de certificação, já que temos propostas relativamente parecidas, mas essa proliferação das certificações é contraprodutiva."