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Jornal da Ciência online

As moscas da genética

Publicado em 16 setembro 2019

Em maio deste ano o geneticista José Mariano Amabis, professor aposentado pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), foi avisado de que havia na varanda vermes que matariam os porcos que os comessem. Não matam, assegurou o geneticista em seu sítio em São Bento do Sapucaí, na serra da Mantiqueira, estado de São Paulo. No chão, junto à churrasqueira, lá estava o emaranhado de larvas de cor creme, cada uma com 2 centímetros de comprimento, que se transformariam em moscas da espécie Rhynchosciara papaveroi.

Guardou em uma caixa, saiu procurando mais e encontrou. Além do achado em si, pertinente foi ter acontecido no ano que marca o centenário de Crodowaldo Pavan, um dos pioneiros da genética brasileira que fez sua maior descoberta em uma espécie aparentada: R. angelae, agora conhecida como R. americana. Quando morreu, há 10 anos, as contribuições do pesquisador – que, a partir do DNA de moscas, passam pela institucionalização da pesquisa em genética no país e chegam à divulgação científica – foram tratadas por Pesquisa FAPESP em suplemento especial.

O achado de Pavan – então professor assistente do catedrático André Dreyfus (1897-1952) na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP – foi ainda mais fortuito do que o de Amabis. Ao chutar um tronco caído de bananeira em Praia Grande, litoral paulista, ele achou “um bolo de uns vermes vermelhos bonitos”, como relatou em uma entrevista gravada em 2002 por estudantes de uma disciplina ministrada pelo geneticista João Morgante, hoje professor aposentado do IB-USP dedicado à Comissão Memória do departamento. Voltou ao laboratório e deixou em um canto a sacola com os animais. Quando lembrou de olhar ao microscópio, já eram 23 horas. “Dissequei o verme e vi uma glândula salivar. Vi as células, o núcleo. Esmaguei e vi o maior cromossomo que eu jamais tinha visto, um cromossomo politênico.” São pacotes de DNA cujo material genético é replicado até formar estruturas volumosas, que, tingidas, formam padrões característicos de listras, conhecidas como bandas.

Só depois, consultando o zoólogo Ernest Marcus (1893-1968), Pavan descobriu serem larvas de algum inseto – e não vermes, como tinha pensado. Em 1951 ele e colegas descreveram os grandes cromossomos das larvas de Rhynchosciara. Em 1955, Pavan e sua assistente Marta Breuer (1902-1977) chegaram a conclusões controversas a partir de regiões nesse cromossomo, conhecidas como pufes, com acúmulo de DNA. “Havia um dogma de que a quantidade de DNA não podia variar”, explica Amabis, que foi colega de Pavan. Vale lembrar que a estrutura do DNA foi descrita em 1953. No período anterior já havia a noção de que o material genético, contido nos cromossomos, teria relação com a hereditariedade. “Um grupo da Alemanha estava começando a estudar os cromossomos politênicos em glândulas salivares em mosquitos Chironomus e descreveu os pufes, mas ninguém sabia o que eram”, lembra Amabis. “Achavam que podia ter relação com o funcionamento dos genes.”

Leia na íntegra: Pesquisa Fapesp