Notícia

Jornal da USP

As invenções do brasileiro

Publicado em 27 agosto 2000

Entre todos os seres do planeta o único capaz de se adaptar a diferentes situações, na maioria das vezes antagônicas, como o calor e a seca dos desertos ou o frio e o gelo dos pólos, é o homem. Mas, para conseguir essa façanha, os humanos tiveram que desenvolver uma série de ferramentas de caça, pesca, agricultura, cozinha, guerra e vestuário, além da linguagem oral e escrita, fundamental para a preservação e transmissão dos conhecimentos obtidos para as outras gerações. Foi pensando em mostrar para o público algumas dessas invenções, feitas pela criatividade brasileira desde os primórdios da colonização portuguesa até a atualidade, que a Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI) e a Estação Ciência resolveram inaugurar, em setembro, a mostra "500 Anos da Inventiva no Brasil". "O objetivo da exposição é criar uma viagem através do tempo, mostrando as diferentes faces da criatividade brasileira", explica Luiz Antônio Ricco Nunes, membro do Conselho Diretor da ABPI. "Queremos proporcionar aos visitantes, em um ambiente descontraído, informações históricas de invenções e inventores brasileiros, muitos deles desconhecidos do grande público." Formada por sete módulos, constituídos por painéis com textos informativos, ilustrações e fotos, a exposição tem o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e de sua congênere do Rio de Janeiro (Faperj), Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Petrobrás, Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Sebrae/Instituto Euvaldo Lodi, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Associação Paulista da Propriedade Industrial (Aspi), Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), Sedai, Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe/UFRJ) e o Padetec, laboratório da Universidade Federal do Ceará (UFCE) onde são desenvolvidos alimentos à base de plantas e ossos de peixes. Segundo Suely Avelar, organizadora da mostra, a iniciativa contará, ainda, com um atendimento especial para estudantes, que incluirá jogos, experimentos, contadores de histórias, além da utilização da informática como ferramenta educativa. Blocos temáticos O material utilizado na montagem da exposição foi encontrado através de uma pesquisa feita no Arquivo Nacional, situado no Rio de Janeiro, e em coletâneas de documentos originais de escritórios e empresas de patentes. Você sabia que um padre brasileiro criou a máquina de escrever? E que um brasileiro inventou o peito postiço para homens? E o manequim de vestuário para lojas também é uma invenção nacional? Essas e outras histórias, que têm como pano de fundo nossa criatividade, podem ser vistas por meio dos módulos temáticos que compõem a mostra, os quais apresentarão para o público desde inovações consagradas, como o avião 14 Bis e as vacinas desenvolvidas por Osvaldo Cruz, até invenções de uso cotidiano, cuja autoria ainda é pouco conhecida, como a máquina de matar ratos (de 1898), mictórios públicos pagos ou as válvulas cardíacas feitas com tecidos de corações de bovinos. O primeiro módulo é dedicado aos inventos portugueses que tornaram possíveis as navegações de longo percurso e, em conseqüência, o descobrimento da América e do Brasil. O papel da balestilha, bússola, astrolábio, quadrante, cartas náuticas e naus capitâneas - que viabilizaram a expansão da civilização ocidental européia sobre outros territórios - são alguns dos temas abordados. O segundo tem como temática a cultura indígena e suas invenções, as quais permitiram aos primeiros brasileiros se adaptar ao nosso meio natural. Aqui o visitante entrará em contato com o tipiti, cumatá, apá, borduna, pentes, adereços, jamaxim e arco e flecha, entre outras criações. No terceiro, o destaque fica por conta dos balangandãs de prata criados pelos hábeis artesãos de origem africana, além de sua rica culinária (azeite-de-dendê, feijoada, vatapá, acarajé, xinxim), cultura e religião. O módulo quatro se baseia nas adaptações criadas pelos primeiros colonizadores, apoiadas em técnicas européias de construção e mobiliário consagradas, mas pouco adequadas ao clima e relevo nacionais. Engenhos de cana-de-açúcar, casas de farinha e estradas são aqui analisados. O próximo módulo retrata o contexto de mudanças pelo qual a sociedade brasileira passava na virada do século, com inovações na agricultura (máquinas de beneficiamento do café, peneiras, brunidores, descascadoras) e na arquitetura urbana, pois é nessa época que nossas cidades passam a se tornar, cada vez mais, importantes centros de decisão e da produção de bens de consumo industrializados. O sexto bloco mostra o século 20, período de maior avanço tecnológico da trajetória humana. O avião, seus hangares, o relógio de pulso, a machina fulminante (máquina de exterminar saúvas), a abreugrafia, hormônio de crescimento humano, descoberta da doença de Chagas, entre outras criações, poderão ser vistos. O último módulo aborda inventos criados com o objetivo de permitir um futuro sustentável e com qualidade de vida para a humanidade. Despoluidor do ar movido a vento, plástico biodegradável, autoconstrução para população de baixa renda, tratamento de resíduos hospitalares são algumas das novidades desenvolvidas recentemente por nossos cientistas. A exposição ficará na Estação Ciência até novembro, de onde passará a itinerar, por cerca de dois anos, em centros e museus de ciências de todo o País. "A meta é atrair um grande número de visitantes, entre estudantes, professores e público em geral, contribuindo para o aumento da divulgação e ensino das ciências no Brasil", conclui Suely Avelar. Mais informações: (0xx11) 218-0839, 6192-7704, 9173-3695 ou e-mail mamelia@wm.com.br. Propriedade intelectual A exposição "500 Anos da Inventiva no Brasil" foi criada para fazer parte, como evento paralelo, do "XX Seminário da Propriedade Intelectual", que será realizado nesta segunda e terça-feira, no Hotel Transamérica, em São Paulo. O objetivo da iniciativa é promover a discussão de questões institucionais envolvendo o conjunto de normas de proteção da tecnologia, incluindo temas de grande Interesse para a economia, como o regime jurídico das criações empresariais e terceirizadas. O seminário promoverá um amplo debate sobre problemas polêmicos que envolvem a propriedade intelectual na internet, como a regulamentação dos nomes de domínio e proteção de bancos de dados e de métodos comerciais. Haverá, ainda, espaço para a análise de temas diretamente relacionados com a legislação da propriedade industrial, como a exploração de patentes, a extensão dos direitos sobre a marca e os efeitos da averbação de contratos no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O evento contará com a participação de administradores, advogados e especialistas, incluindo o ex-reitor e professor de Direito da USP Miguel Reale, que falará sobre a responsabilidade civil e criminal ao empresário.