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Exame

As garras da felina

Publicado em 06 setembro 2000

Por Marcos Coronato
Ao decifrar os genes da bactéria Xylella fastidiosa, a rede onsa pôs o Brasil no primeiro time da ciência mundial só falta agora ela partir para o ataque e transformar essa competência em dinheiro A festa foi das boas. Música, gente elegante e muito animada, como quem fecha um ótimo negócio depois de meses de trabalho. Em meio ao zunzunzum, ouvem-se palavras como "parceria estratégica", "capital de risco", "milhões de dólares".... Serão empresários? Executivos de finanças? Tente de novo. Eles são cientistas. De uma área cujo nome brilha em bolsas de valores ao redor do mundo - a biotecnologia. A comemoração foi organizada pela Fapesp a agência de incentivo à pesquisa de São Paulo, e seus parceiros no mapeamento genético de uma bactéria, a Xylella fastidiosa. Vale a pena guardar o nome. Não porque a xilela cause prejuízos de 100 milhões de dólares por ano aos produtores de laranja paulistas, mas sim porque ela levou a ciência brasileira a um lugar nunca antes atingido: a capa da britânica Nature, a mais prestigiada revista científica do mundo. A xilela será referência histórica em um mercado que o Brasil apenas começa a sondar. E foi no processo de bisbilhotar seus genes que se formou no Brasil um verdadeiro esquadrão de elite da genômica, o ramo da biologia que mapeia os genes. A questão agora é: vai dar para ganhar dinheiro com isso? Como dava para perceber na festa da xilela, a diferença entre cientistas e executivos vem diminuindo, e tende a tomar-se, em muitos casos, imperceptível a olho nu - assim como os formatos de proteínas com os quais pesquisadores que estavam na festa quebrarão a cabeça pelos próximos anos (diga-se, com pouquíssimo atraso em relação aos seus pares nos Estados Unidos, na Europa e no Japão). A mudança de postura é a resposta a um fenómeno que marcou o nascimento da Nova Economia: depois de executivos de administração e finanças terem sido obrigados a dominar temas tecnológicos, os cientistas contra-atacam - e começam a dar show de bola quando o assunto é dinheiro. No Brasil, esses novos ventos foram soprados de um lugar inesperado - a Fapesp, uma instituição governamental. A mais genial invenção da agência foi o instituto virtual Onsa (Organization for Nu-cletotidc Scqucncing and Analysis), formado por 65 laboratórios paulistas. Dos cientistas desse esquadrão de elite pode-se esperar, porém, mais que fazer bonito em rodas sociais. Se só uma parcela deles tiver fôlego empreendedor e ambição saudável, já será o suficiente para que surja um setor novinho na indústria brasileira: o de pequenas empresas pesquisadoras de biotecnologia. "Essa área vai fazer, daqui a dois ou três anos, o mesmo barulho que a Internet fez em 99", diz o diretor-geral do Bank-Boston Capital, Alberto Tamer Filho. Eis o que afirma o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez: "Já há capital de risco sondando o setor. Já tivemos contato com três dessas instituições. É o momento para começarem a surgir pequenas empresas no Brasil". É verdade que o modelo que se instalará no país para a pesquisa de ponta na área não precisa, obrigatoriamente, incluir a figura - tão familiar ao mundo da Internet - que é o empreendedor individual, com um plano de negócios embaixo do braço, caçando investimento de porta em porta. "Mas é esse o modelo que interessa", afirma Tamer, do BankBoston. E, de acordo com Paulo Penteado, da consultoria McKinsey, é o modelo que já está dando certo em Minas Gerais. BOLA DIVIDIDA COM A INTERNET Penteado foi responsável por avaliar a formação de um aglomerado de empresas (ou cluster) de biotecnologia em Belo Horizonte. A avaliação foi encomendada pela Fiemg, a federação das indústrias mineiras. "O cientista tem uma boa idéia, cria uma pequena empresa e atrai o capital de risco, que explodiu aqui no Brasil em 99 por causa da Internet, mas não está mais atento só a ela", diz o consultor. O otimismo não é exagerado, pelo que mostra a curva de investimento. Os projetos dessa área no Brasil mal ousavam ter orçamentos de centenas de milhares de dólares até 1997 (ano em que foi lançado o projeto de seqüenciar a xilela). Agora, a Fapesp já incorporou orçamentos de milhões à rotina. Foram 40 milhões de reais em 99 com projetos de seqüenciamento de genes. Dez milhões de dólares serão investidos para sequenciar genes de cânceres comuns no Brasil, em 2000 e 2001, mais 5 milhões para desvendar formatos de moléculas de proteínas até 2005. "Temos de pensar em investimentos na casa de 100 milhões de dólares", diz Perez. Nos Estados Unidos, o capital de risco destinado somente a novos métodos de desenvolver medicamentos quase dobrou desde o ano passado. Os capitalistas de risco, que desembolsaram 12 bilhão de dólares em investimento desse tipo ao longo de 1999, já injetaram mais de 1 bilhão no setor somente no primeiro semestre deste ano. O financiamento total para a indústria da biotecnologia americana chegou a 5.4 bilhões no ano passado. Toda essa expectativa, no entanto, não pode levar ao esquecimento de dois fatos. O primeiro foi o erro cometido quando a biotecnologia teve sua primeira onda de euforia e depressão, sentida nas bolsas de valores, entre 1994 e 1996. Foi o tempo necessário para que se percebesse que o mapeamento genético não traria medicamentos revolucionários de uma hora para outra. A análise de estruturas de proteínas poderá mudar isso nos próximos anos, mas, por enquanto, ele continua valendo. DISPUTA ENTRE IGUAIS Naquela época, o Brasil não tinha como tomar parte da festa nem da ressaca. Bem, o tempo passou. A Fapesp pode se orgulhar de ter sido contratada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para analisar os genes da xilela que ataca videiras na Califórnia e compará-los aos da bactéria paulista. Não é uma prestação de serviço, já que cada lado entrará com 250 000 dólares no projeto, mas foi o suficiente para que o Joint Genome Institute, ligado à Universidade da Califórnia, se sentisse desprestigiado e oferecesse o trabalho de graça. O Departamento de Agricultura declinou da oferta. O outro fato a ser lembrado é se os clientes - as grandes do setor- terão disposição para comprar dessas pequenas empresas. É muito difícil que pequenas companhias façam pesquisa e vendam o resultado ao consumidor final. "O modelo mais viável e normal é a grande empresa fazer contrato com várias pequenas. A aposta não fica dependendo de um único cavalo", diz Guilherme Emrich, presidente da Biobrás, empresa mineira que, por enquanto, é um dos raros casos de sucesso biotecnológico no Brasil. O empresário e cientista vem monitorando cuidadosamente como se desenrolam as coisas em São Paulo. "A Fapesp está liderando o setor no Brasil. E das iniciativas dela que nascerão as pequenas empresas especializadas, que fornecerão para as grandes." Do outro lado do balcão as coisas não estão tão animadas. "Há gente preparada no país, mas o capital em biotecnologia é de altíssimo risco e os trabalhos duram anos", afirma o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Novartis, Branderley Cláudio. A Novartis tenta ter um único fornecedor de cada produto, em escala mundial. Ou seja: qualquer empresário brasileiro que tente vender para a multinacional estará competindo com gente do mundo todo. O execuúvo reconhece, porém, que há histórias de sucesso, como a da americana Chiron, criada em 19% por três professores da Universidade de Stanford que logo ganharam a Novartis como sócia. As grandes podem atrasar o processo de hrotamenio das pequenas também por um método mais direto: contratando os profissionais mais promissores. "Saí da Unicamp porque a Monsanto me ofereceu mais estabilidade e salário duas vezes maior", diz um jovem doutor que trabalhou em uma das equipes coordenadoras do mapeamenio da xilela. Ao deparar com esses obstáculos ao empreendedorismo no setor, Perez, da Fapesp, diz que seria bom que surgisse no Brasil uma Celera, a empresa americana que liderou a corrida para sequenciar o genoma humano e atua agressivamente em pesquisa de base. A solução pode vir da própria Fapesp, que já provou sua agilidade e seu dinamismo. No meio científico, já não é absurdo pensar que o instituto virtual Onsa poderá em breve ganhar um braço comercial - para atacar vorazmente o setor de prestação de serviços internacionais em genômica. De Onsa.org, pode virar Onsa.com.