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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

As fronteiras da xenofobia

Publicado em 08 maio 2012

Com a entrada do Brasil na rota das migrações internacionais e com a reconfiguração dos fluxos migratórios internos, a sociedade brasileira precisará aprender a conviver com essa “nova população”, que pode ser transitória ou não. A avaliação é da professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp, Rosana Baeninger. De acordo com ela, parte dos brasileiros ainda tem uma visão distorcida acerca dos processos migratórios. “Com frequência, essa visão, que tem um forte viés ideológico, tende a reavivar antigos preconceitos e xenofobias, segundo os quais os imigrantes é que seriam os responsáveis pela presença de problemas sociais, como o aumento da pobreza e da violência em uma dada localidade”, adverte.

A fronteira entre a população necessária e a população excedente, conforme a especialista, é muito tênue. “A sociedade local precisa dessa mão de obra extra para suprir as atividades produtivas. Entretanto, se as administrações municipais não estiverem preparadas para receber os fluxos migratórios internos e internacionais, é possível que ocorram problemas. De um lado, esse novo contingente traz impactos para setores como saúde, educação, transporte e moradia. De outro lado, por serem migrações com destino urbano, são mais visíveis – estão na vida cotidiana – e trarão, certamente, o estranhamento; serão ‘essa gente que vem de fora’, o ‘diferente’, o ‘outro’. Assim, se não houver um trabalho para que a sociedade receptora entenda a importância dessa migração, a visão negativa pode ser reafirmada”, reforça Rosana Baeninger.

A docente da Unicamp lembra que outro ponto importante em relação ao acolhimento dos imigrantes internacionais está vinculado à legislação. Embora cada fluxo migratório tenha a sua particularidade, as normas legais precisam abarcar todas as situações. “Nós da academia temos participado de discussões sobre esse tema. Nosso objetivo tem sido o de mostrar aos gestores públicos evidências que contribuam para a formulação de leis e políticas públicas voltadas ao atendimento dos migrantes”, revela. Conforme Rosana Baeninger, os primeiros anos do século XXI mudaram completamente o entendimento que os estudiosos tinham a respeito tanto da migração interna quanto da internacional. “Do ponto de vista da migração interna, por mais que São Paulo continue recebendo um grande volume de pessoas de outras regiões, o Estado já não tem mais a capacidade de retenção que tinha até meados dos anos 90”, afirma.

Atualmente, prossegue a professora do IFCH, São Paulo é o local de onde mais saem pessoas para alimentar o fluxo migratório interno, com intenso fluxo de migração de retorno. O Estado recebe perto de 1 milhão de migrantes por ano, mas envia em torno de 1,2 milhão para outros pontos do país. A Região Metropolitana, de forma muito particular, experimenta uma rotatividade migratória. “Até o final dos anos 90, nós explicávamos as condicionantes da migração interna por meio da desconcentração econômica. Ou seja, Paraná, Minas Gerais e Nordeste passaram a receber novos investimentos, o que promoveu um redirecionamento dos fluxos. A partir do início do século XXI, porém, ocorreu uma mudança fundamental. Embora a migração histórica ainda seja verificada, numa espécie de complementaridade entre Nordeste e Sudeste, ela agora está inserida num processo de reestruturação produtiva. Assim, além da desconcentração econômica, ocorre também a implantação de empreendimentos, via capital internacional, diretamente no Nordeste, que acaba absorvendo parte da mão de obra que viria para São Paulo, notadamente aquela de menor qualificação”, detalha.

Nos dias atuais, continua a especialista, tem se configurado um novo corredor de migração no Brasil, com os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, tendo o Distrito Federal como a principal metrópole de serviços. É para lá que estão se dirigindo contingentes que partem do Maranhão e Piauí, em busca de trabalho tanto nas lavouras de soja quanto nas atividades ligadas ao serviço. “Isso não quer dizer, vale ressaltar, que São Paulo tenha deixado de ser o grande dinamizador dos fluxos de longa distância no país. Se analisarmos São Paulo separadamente, vamos constatar que há de fato uma nova face da migração, vinculada à questão da reestruturação produtiva. O Estado passou a conviver tanto com as migrações internas quanto com as internacionais. É na metrópole paulistana que vão se instalar, a partir do final dos anos 80, os fluxos de migração boliviana e asiática, justamente como parte da circulação do capital. Esse fenômeno também passa a ser verificado em outras metrópoles, como Buenos Aires e Montevidéu, apenas para ficar nos nossos vizinhos”, explica Rosana Baeninger.

A migração de bolivianos e asiáticos para São Paulo, observa a docente da Unicamp, tem uma diferença fundamental em relação ao fenômeno registrado no final do século XIX e início do século XX, quando as primeiras levas de estrangeiros chegaram ao Brasil. Na oportunidade, boa parte dessa nova população veio para trabalhar nas fazendas de café, substituindo a força de trabalho escrava. Agora, os estrangeiros têm como destinos as áreas urbanas. “Dessa forma, mesmo que os volumes sejam menores do que em períodos anteriores, esses imigrantes são muito mais visíveis, como já mencionei. Tomando São Paulo mais uma vez como exemplo, o fluxo recente de bolivianos, peruanos e paraguaios já está se consolidando na Região Metropolitana. Esses estrangeiros chegam aqui para trabalhar em nichos muitos característicos, como o da confecção”.

Os asiáticos, principalmente coreanos e chineses, têm se instalado em São Paulo nos últimos anos para trabalhar, como empreendedores, nos ramos de confecção e comércio, respectivamente. Por causa do já mencionado processo de reestruturação produtiva, pontua Rosana Baeninger, esses imigrantes começam a se espalhar por um corredor constituído por outros municípios. Assim, uma parte tem se instalado no Litoral e outra, na região de Campinas, Limeira e Piracicaba. Um exemplo claro da chegada desses estrangeiros é a presença deles em lojas que vendem miudezas, instaladas nas áreas centrais das cidades. Em Campinas, por exemplo, os asiáticos dominam os pontos de venda dos chamados produtos R$ 1,99. “Essa migração internacional vai conviver com a migração interna nesses locais, visto que muitos nordestinos ainda se dirigem ao interior paulista para trabalhar na colheita da cana e da laranja ou em restaurantes, como garçons”, diz a professora.

Refugiados

Em termos de perspectivas, a docente da Unicamp chama a atenção para o surgimento de um novo fluxo de migrantes internacionais, este composto por refugiados. Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, são os dois principais polos receptores de africanos. A capital paulista também tem acolhido latino-americanos, particularmente colombianos. Ademais, no contexto da crise humanitária, várias empresas têm se dirigido até o Acre, onde vão convocar haitianos para trabalhar na construção civil, na lavoura e na indústria de calçado, esta última em Franca. “Estamos retomando os processos migratórios internacionais no Estado de São Paulo como um todo. E por que os haitianos estão vindo para cá? Mais uma vez, há a questão da reestruturação produtiva, mas há também o redesenho da migração interna. Os nordestinos continuam chegando ao Estado, mas em menor volume e para ficar menos tempo. Parte dessa mão de obra está sendo suprida justamente pelos haitianos”, pormenoriza Rosana Baeninger.

Estas e outras questões relacionadas à migração estão sendo objeto de estudos tanto na Unicamp quanto no âmbito do Observatório das Migrações em São Paulo, que constitui um projeto temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Coordenada por Rosana, a pesquisa reúne pesquisadores de diversas universidades do Estado (Unesp, UFScar, Unifesp, Anhembi-Morumbi) e tem como objetivo resgatar a trajetória das migrações internas e internacionais em território paulista, bem como a suas implicações passadas, contemporâneas e futuras para a formação social paulista no período que compreende o final do século XIX até a primeira década do século 21 (1880-2010), avançando em anos subsequentes. Entre outros docentes/pesquisadores, participam do projeto: Cláudio Salvatore Dedecca, Maria Silvia Casagrande Beozzo Bassanezi, Oswaldo Mário Serra Truzzi, Sênia Maria Bastos, Maria do Rosário Rolfsen Salles, Odair da Cruz Paiva, Paulo Eduardo Teixeira, Álvaro de Oliveira D´Antona, Fernando Antonio Lourenço, Lili Kawamura, Lilia Teresinha Montali, Maria Fátima Chaves e Marta Maria do Amaral Azevedo.

 “Contamos com 16 pesquisadores e 25 bolsistas de pós-graduação de diferentes áreas do conhecimento, que desenvolvem 16 estudos temáticos. Embora o projeto esteja somente no seu terceiro ano de atividade, nós já publicamos 27 artigos em revistas nacionais e internacionais, participamos de cerca de 100 congressos e publicamos dois livros”, relaciona a docente da Unicamp.