Notícia

Agência Estado

As fascinantes zombarias de um poeta medieval

Publicado em 01 abril 2001

Por Por Lênia Marcia Mongelli
A poesia de Ibn Quzman de Córdova, poeta que viveu na Andaluzia dominada pelos muçulmanos, começa pela valorização de um modo de falar desacreditado pelos governantes e é uma forma de rebeldia contra o fanatismo geral Ibn Quzman de Córdova (1086-1160) viveu na Andaluzia medieval, sendo autor de um célebre Cancioneiro, muito conhecido, ao tempo, em terras da Síria, Palestina e Iraque, cujo manuscrito restante é cópia feita na cidade palestina de Safad, quase um século após a morte do poeta. Para quem está familiarizado com a situação histórica do sul da Espanha durante a Baixa Idade Média, quando toda a Andaluzia esteve sob o domínio muçulmano, entende as dificuldades para lidar com um texto que mescla Oriente e Ocidente, traços lingüísticos árabes e ibéricos, visão de mundos originalmente díspares. Michel Sleiman domina a primeira condição para ler bem Quzman: é falante e professor de árabe, atento a pormenores e nuanças lingüístico-fonológicas próprios do leitor sensível. O resultado é um livro que permite acompanhar a decomposição da linguagem em seus fundamentos sociais. O zelo amoroso de Michel por Quzman levou-o a intermináveis discussões de ordem lingüística, no esforço de precisar a solução preferida para a tradução, forçando-o a dar inúmeras explicações muitas vezes dispensáveis. Era preferível incursionar pelos temas coetâneos que Quzman ironizou, fazendo dos poemas testemunhos importantes de um período conturbadíssimo da realidade histórica peninsular. A ressalva não desmerece a obra, bem estruturada e girando à volta de três zejéis de Ibn Quzman, considerados pequenas obras-primas pelos principais críticos do Cancioneiro. O cuidado de Michel começa por apresentar os poemas em quatro versões: em fac-símile do manuscrito; transcritos em caracteres árabes atuais; em transliteração para o árabe-andaluz e em tradução para o português. As adaptações necessárias a cada uma das vertentes vêm acompanhadas de minuciosas notas explicativas, que refazem quase passo a passo o percurso entre a língua de origem e a língua de chegada, o português. A fidelidade ao original não oculta, nem disfarça, as interferências do tradutor. É tal seu empenho em reconstruir efeitos sobretudo sonoros - porque essa é a identidade poética do Cancioneiro - que os poemas são agradabilíssimos de se ler. É por essa via, de relações íntimas entre som e sentido, que se descortina a maestria de Quzman em subverter temas tradicionais como o panegírico, o amor (cortês?) e a petição, em poemas de burla, de chiste, irônicos, em que o amante acaba sobressaindo mais que o amado - recurso para enaltecer o próprio poeta, à cavaleiro da maioria das situações. Sirva de exemplo o uso que o andaluz faz do diminutivo no conhecido zejel número 10, "Liminha, a escrava que virou estrela", e que Michel, na tradução, preferiu indicar por im, em lugar de inha ou inho ("Limim", "estrelim", "feixim"), referendado pela tradição do regionalismo rosiano ("Diadorim"). Poética árabe A leitura de Ibn Quzman não satisfaz apenas a algum gosto pessoal de travar contato com a poética árabe. Ao especialista em trovadorismo medieval é que o Cancioneiro oferece prato cheio, porque abre caminho inclusive para uma das "teses" sobre a gênese daquele lirismo, que teria nas karjas árabes antecedente poderoso. E o que são essas karjas? Há três gêneros líricos importantes na língua árabe: a qasida, poema estíquio e monórrimo, o modelo clássico por excelência; a muwaxxaha e o zejel, estróficos e polirrímicos (portanto, "avançados" em relação ao primeiro), diferem entre si porque este trabalha com o árabe mais popular, de feição oral, enquanto aquela, também clássica, tem a novidade de trazer acoplada à última estrofe as karjas (= saída) em língua "romance" - falar local à margem da língua do Alcorão. Uma espécie de arremate do texto. Datadas aproximadamente do século 11, as karjas eram produto de um povo bilíngüe e podiam ter inspirado os trovadores. O grande feito de Quzman é ter elevado o zejel à categoria dos textos clássicos, buscando para os termos "romances" a mesma elegância das suras do Alcorão. O mérito não é pequeno, considerando-se que o andaluz viveu na Córdova almorávida, povo de origem berbere saído do deserto do Saara e que, favorecido pela anterior pulverização do reino em Taifas, dominou o sudoeste peninsular com seus propósitos ortodoxamente moralizantes de regenerar um Islão herético. Talvez as zombarias de Ibn Quzman, que começam pela valorização de um modo de falar desacreditado pelos governantes, sejam uma forma de rebeldia contra o fanatismo geral. O curioso é que Michel Sleiman conseguiu reter, em português, essa pujante atmosfera de corajosa originalidade. A POESIA ÁRABE-ANDALUZA, de Michel Sleiman. Perspectiva/Fapesp, 239 págs., R$ 20,00. Lênia Márcia Mongelli é crítica literária, ensaísta, professora titular da USP