Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

As estrelas nascem, crescem e morrem

Publicado em 25 dezembro 2005

Por Suzana Fonseca, da Sucursal

Entrevista: Elysandra Figueiredo, astrônoma

Quando Jesus nasceu, há 2.005 anos, uma estrela guiou os três reis magos até a cidade de Belém, na região da Judéia. Estudiosos das estrelas, eles seguiram o brilho de um astro para chegar à manjedoura onde estava o filho recém-nascido de Maria e José. Séculos depois, há quem faça do "olhar estrelas" uma profissão. Só que, agora, com equipamentos sofisticados, cujo alcance vai além do olhar humano.
Recentemente, a descoberta de um fenômeno celeste, o mais distante já registrado, colocou dois brasileiros no foco da mídia: o casal Elysandra Figueredo e Eduardo Cypriano. Ambos se encontravam no Chile, trabalhando no Telescópio de Pesquisa Astrofísica do Sul (Soar, pela sigla em inglês).
Astrônoma formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Guaratinguetá, Elysandra nasceu em Santos, em 1973. Com um ano de vida, foi para Sorocaba, no Interior do Estado. Aos 11 anos, retornou com a família para São Vicente, onde estudou e só saiu aos 21, para cursar a faculdade. Atualmente, ela está na Cidade, onde ficará até 15 de janeiro.
De origem humilde, Elysandra gosta de ressaltar que sempre estudou em escolas públicas, como o Grupão. A adolescência na Baixada Santista lhe rendeu boas recordações. Foi vocalista de uma banda de rock alternativo, a Speed Whale, e até participou de um concurso da Garota AT. ''Fiquei em segundo lugar'', lembra. ''Tive uma infância e adolescência bem agitadas e que me proporcionam inúmeras boas recordações de Santos e São Vicente'', completa.
No Chile, no último dia 4 de setembro, ela e o marido conseguiram detectar indícios de uma explosão estelar que ocorreu há 13 bilhões de anos-luz - a mais antiga e distante da Terra já captada. Só para entender, a expressão anos-luz significa a distância percorrida pela luz no período de um ano.
''Essa foi a explosão mais próxima da origem do Universo'', ressalta a astrônoma, que prefere estudar o nascimento, e não a morte das estrelas. Aliás, esses pontos de luz que ficam no céu e já guiaram reis e plebeus, poetas e pobres mortais também são finitos. Em entrevista para A Tribuna, Elysandra revela que ''as estrelas nascem, crescem e morrem''.

A Tribuna — Como surgiu o interesse pela astronomia?
Elysandra — Quando estava estudando para o vestibular comecei a ter mais contato com a física e me apaixonei. As leis da gravitação e todo o glamour vinculado com a astronomia não demoraram em chamar minha atenção. Durante a faculdade de física tive a oportunidade de trabalhar com outras áreas, como mecânica quântica e a física de partículas elementares mas, no último ano de faculdade, fiz um estágio de quatro meses na Espanha, no Instituto de Astrofísica das Ilhas Canárias, um dos maiores centros de astronomia e astrofísica do mundo. Quando voltei, não tinha a menor dúvida do que iria fazer daí em diante. Chegando ao Brasil terminei a faculdade de física e fui direto para o Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da Universidade de São Paulo (USP) para fazer mestrado e doutorado sob orientação do doutor Augusto Damineli.

AT — Quando você saiu de São Vicente?
Elysandra — Saí de São Vicente com 21 anos para morar na moradia estudantil da faculdade. Quando terminei a faculdade voltei. Ia e voltava todos os dias da USP, onde iniciei o mestrado. Costumava ir e voltar de ônibus fretado. Quando me casei, mudei definitivamente para São Paulo. Mas minha família continua em São Vicente, mãe, avó, irmã, tios, primos. Venho para São Vicente com muita frequência, final, essa é a minha cidade.

AT — Quanto tempo você ficou no Chile?
Elysandra — Acabei de voltar para São Vicente. Minha estadia foi de dois anos no Chile. No primeiro ano, trabalhei para o CTIO (Cerro Tololo Interamerican Observatory) na cidade de La Serena em colaboração com o doutor Robert Blum. No último ano, fui contratada pelo telescópio Soar (Southern Astrophysical Research Telescope) para trabalhar com o instrumento que opera nos comprimentos de onda eletromagnética do infravermelho, Osiris. Esse foi o instrumento através do qual o GRB (Gamma Ray Burst - explosão de raios gama produzida pela morte de uma estrela de alta massa) foi observado.

AT — Seu marido é paulistano? Como vocês se conheceram?
Elysandra — Sim, ele é nascido e criado em São Paulo. Nos conhecemos no IAG. Logo que cheguei para fazer mestrado na USP me colocaram na mesma sala que ele, que estava iniciando o doutorado. Desde então, estamos juntos até hoje. Começamos a namorar em São Vicente, quando o levei para se deslumbrar com a vista do Terraço, na Ilha Porchat.

AT — Conte-nos sobre o dia em que foi detectada a explosão.
Elysandra — Foi um dia normal de trabalho. O Edu estava escalado para trabalhar durante a noite e observar com o instrumento Osiris. Ele estava fazendo os trabalhos de rotina quando foi interrompido pelo grupo de pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte (UNC - Estados Unidos) que o notificou de que o telescópio espacial Swift da NASA havia detectado uma provável explosão. O Soar foi o terceiro telescópio a ser apontado na direção do GRB, mas o primeiro a detectar e confirmar que o vestígio detectado pelo Swift era realmente um GRB. Desde esse momento foi uma tremenda emoção e correria para transformar os dados fornecidos pelo Osiris acoplado ao telescópio Soar em informações astronômicas úteis e compreensíveis. E foi nesse ponto que começou o meu trabalho. Trabalhei uma semana com o pessoal da UNC para produzir resultados compreensíveis e para tirar todas as informações possíveis dessa explosão, incluindo a distância! Que para a surpresa e alegria geral, foi confirmada como sendo a mais distante até então detectada! Foi uma enorme corrida contra o tempo, mas no final deu tudo certo.

AT — A quem cabe o mérito da descoberta?
Elysandra — É importante ressaltar que o mérito da descoberta científica é principalmente do pessoal da UNC. Nosso papel foi colocar o telescópio e os instrumentos para funcionarem na hora certa e de forma eficiente. Foi um telescópio parcialmente brasileiro operado por brasileiros e isso foi realmente emocionante. Essa foi a primeira grande descoberta do Soar e desse telescópio certamente sairão inúmeras surpresas. O Soar foi construído em colaboração com outros países e a parte do Brasil é de aproximadamente 30%.

AT — Como ficou sua vida depois da descoberta?
Elysandra — As primeiras duas semanas foram bastante corridas, tínhamos que passar essa informação para toda a população brasileira, que de certa forma faz parte desse projeto, já que cada cidadão contribui com seus impostos, e é daí que sai nosso salário e todo o dinheiro para a construção do telescópio. Tínhamos um compromisso com o povo brasileiro e tentamos divulgar da melhor forma possível, dando assistência aos jornalistas e também ao público em geral que nos escrevia e-mails perguntando desde detalhes da observação até qual o procedimento para se tornar um astrônomo. Eu e o Edu nos dividimos e respondemos todos os e-mails com o maior prazer. (Disponibilizo meu e-mail para qualquer dúvida que as pessoas venham a ter: efigueredo@ ctio.noao.edu) Depois de duas semanas, as coisas se acalmaram e voltamos com a nossa vidinha de trabalho normal. Eu terminei de escrever a minha tese de doutorado e continuei com minha rotina de trabalho com o telescópio.

AT — Qual a importância dessa descoberta para a ciência?
Elysandra — Olhar para regiões mais distantes do céu é o mesmo que ter informações sobre o passado do nosso universo, isso porque a luz demora um certo tempo para percorrer uma dada distância. É daí que vem o termo 'GRB mais velho do universo'. Isso quer dizer que quanto mais longe conseguimos avançar com a ajuda dessa nova geração de telescópios, mais próximos estaremos do entendimento do passado do universo, da sua infância e origem e, como consequência, a origem da vida. O aspecto que mais chama a atenção, no caso específico desse surto de raios gamas, é a imensa energia gerada por essa explosão em particular, muito maior do que costumam ter os surtos de raios gama, o que tornou possível que nós o víssemos a aproximadamente 13 bilhões de anos-luz de distância. Isso aponta que a estrela que originou essa explosão deve ter propriedades físicas e composição química diferentes das estrelas que conhecemos, mais próximas a nós.

AT — E para você?
Elysandra — O mais interessante de tudo é que esse foi um processo bastante emocionante para mim e para o Eduardo. Nós estivemos em contato com os outros astrônomos da UNC, ajudando no que era possível e contribuindo com o que podíamos, sem poupar esforços. Uma tarefa importante e na qual pudemos ajudar muito foi no processamento dos dados produzidos pelo Soar. Isso possibilitou uma rápida percepção da grandeza do resultado. No meu ponto de vista, essa experiência está sendo muito gratificante, pois estou recém-terminando meu doutorado e tive a grande oportunidade e sorte de poder participar de um projeto dessa magnitude.

AT — Como era a sua rotina de trabalho?
Elysandra — Minha rotina era idêntica a de todo trabalhador. Procurava trabalhar oito horas por dia e o restante me dedicar a outras coisas, como cuidar da casa, família e fazer esportes. Na maior parte dos dias trabalhava em um escritório com meu computador. Nas ocasiões em que tínhamos que observar, a rotina mudava um pouco, pois além de termos que trocar o dia pela noite, tínhamos que viajar até os telescópios, que devem ser construídos em locais secos e acima da camada de inversão onde as nuvens se formam. Todos os grandes telescópios hoje em dia são operados via computador e a partir de uma sala de controle.

AT — O Soar também?
Elysandra — No caso do Soar, a mais nova geração de telescópios, as observações podem ser feitas a partir de uma sala de observação remota, o que significa que o astrônomo não precisa mais subir até a montanha para observar, podendo fazer isso da sua própria sala de trabalho na cidade, ou até de outros países. Isso diminui consideravelmente os custos de observações. O Soar foi projetado para poder ser operado desde o Brasil, futuramente, de forma que um astrônomo não necessitará viajar até o Chile para fazer suas observações.

AT — Quais são seus planos para o futuro?
Elysandra — O futuro de todo astrônomo é se filiar a uma universidade como professor, para dar aulas no curso de física e manter suas atividades de pesquisa científica. Enquanto não surge uma oportunidade, posso manter meus trabalhos de pesquisas= a partir de bolsas de pós-doutoramento que são oferecidas pelas agências financiadoras, como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o CNPq. Essas agências pagam uma bolsa para que você desenvolva um trabalho de investigação científica vinculado a uma universidade.

AT — Que avaliação você faz da ciência desenvolvida hoje no Brasil?
Elysandra — A ciência desenvolvida no Brasil está avançando a passos largos. Cada dia mais estamos nos aproximando de uma situação que pode ser considerada competitiva com os outros países, mas ainda falta muito para chegar a fazer astronomia de fronteira. Somente nesses últimos anos começamos a ter acesso aos grandes telescópios e nossa parcela é bastante pequena. Com o Soar chegaremos um pouco mais próximo. Vejo um esforço tremendo dos cientistas brasileiros na tentativa de colocar o Brasil em uma posição competitiva, aproveitando cada oportunidade e fazendo ciência em situações extremas, tirando leite de pedra. Cada ano que passa, a proporção de cientistas aumenta, mas falta financiamento, falta emprego e faltam oportunidades para muitos seguirem adiante. Trabalhar para o sistema privado é muito mais vantajoso em termos financeiros e, com isso, a ciência acaba perdendo vários membros valiosos, simplesmente porque não oferecerem possibilidades de crescimento.

AT — Faltam investimentos?
Elysandra — Acho que o principal problema, atualmente, é falta de emprego e oportunidades. Falta de bolsas para quem está iniciando na carreira e que precisa de um salário para se manter estudando e trabalhando para a ciência. Alem disso, para chegar à fronteira, precisamos participar dos projetos de fronteira e, para isso, precisamos de muito mais dinheiro do que até hoje foi investido. No entanto, quando
pensamos que em nosso País ainda existe uma quantidade absurda de gente passando fome nas ruas, fica difícil definir prioridades.

AT — A ciência ainda é vista como coisa de maluco ou esse é um mercado promissor para os jovens que ainda não definiram suas carreiras?
Elysandra — Acho que essa imagem de que todo cientista é maluco é criado pelo mistério envolvido no ato de fazer ciência. As pessoas não entendem o que fazemos e por isso acham que são coisas extremamente difíceis e para gênios malucos. Isso é culpa dos próprios cientistas que evitam 'perder tempo' explicando o que fazem para a população. De fato, a divulgação científica é vista, na maioria das vezes, como uma atividade secundária e de menor importância. Mas qual é o dever de um cientista? Para que serve continuar investigando coisas que a sociedade não entende o porquê? É importante que o povo, que paga nosso salário através dos impostos, saiba que estamos trabalhando para ele e que, quando tiver dúvidas, estamos aqui para tirá-las. Estamos longe de saber tudo sobre o universo e a vida, às vezes temos mais dúvidas do que respostas, mas devemos divulgar o que já sabemos e o que temos que fazer para seguir adiante.