Notícia

Altamiro Borges

As crises contemporâneas e o papel da mídia

Publicado em 01 agosto 2018

"Não [queremos] simplesmente a produção em série daquilo que simplesmente alimente grandes vendas, os hits, as faixas de sucesso, aquilo que simplesmente é o consumo, que eu quero porque todo mundo está pedindo e eu simplesmente sou o eco de um rebanho. Nós merecemos não ser tratados como rebanho. Não merecemos e não queremos ser massa, porque esse é um conceito fascista".

(José Américo Mota Pessanha)

Vivemos agora na “Idade Mídia”, com os meios de comunicação constituindo-se em ordenadores das práticas culturais. Corações e mentes estão povoados por imagens e sons inoculados pela televisão. Para se compreender as atuais realidades sensíveis é preciso atentar para os imaginários urbanos produzidos pelas tecnologias.

Estamos inseridos num momento histórico em que a cultura milenar desembocou numa crise sem precedentes, num beco sem saída. Com raízes no Renascimento e no Iluminismo e, indo mais longe, no pensamento helênico e helenístico, o projeto cognitivo da modernidade pretende a universalidade: ampliar os direitos, ampliar a cidadania cultural, ampliar a educação, enfim, pretende “iluminar” o mundo com as conquistas da humanidade do Ocidente. Essa pretensão de globalidade esbarra nas culturas locais, mas nunca é demais lembrar: o que é bom para europeus ou americanos, nem sempre é bom para os “outros” povos.

A crise paradigmática atual da “Civilização Ocidental” se espalha pelo mundo, e apresenta alguns pontos cruciais para reflexão. Essa crise sem precedentes em escala mundial faz pensar sobre as grandes transformações na cultura planetária; as devastações ecológicas - mental, ambiental e social (Guattari, s/d) levam à desagregação social e ao solapamento de valores antes enraizados.

Os deslocamentos migratórios de grandes ondas humanas, não só dentro de seus próprios países mas generalizados, propiciam uma interpenetração cultural que leva consigo inúmeros conflitos relacionados à sobrevivência, à política e à cultura dentro de um mesmo território: o racismo encontra nesses espaços um lugar fértil para seu crescimento, assim como as ideologias totalitárias.

O velho capital continua manco, tentando com suas "fórmulas mágicas" resolver os estragos causados pelo próprio modelo econômico. A nova ordem mundial já nasceu velha. Junta-se a isso que o Welfare State se transformou num "Warfare" State, cada vez mais solapando as políticas sociais. Como diz Francisco de Oliveira (2000: 78), o estado atual de coisas promove a “anulação da fala”, fazendo da ação política um “zero à esquerda”.

As grandes narrativas tradicionais e políticas passam por um período de crise profunda, já que nenhuma pode responder aos dilemas atuais da humanidade. Cristianismo, Islamismo e Judaísmo, Liberalismo, Comunismo “Real” e Capitalismo, são narrativas que estão sendo repensadas em seus fundamentos e práticas. Por exemplo, critica-se o fundamentalismo religioso oriental, mas não se pode esquecer que é o Fundamentalismo de Mercado, naturalizado como verdade, que promove essa crítica “cultural”.

No entanto, essa “encrenca” global se encaminha para um ponto até agora visto como “indeterminado”: as soluções apresentadas não podem ser globais e nem localizadas, e também não se expressam mais pelo jargão “Pensar global e agir local” o qual já não produz mais efeito, pois virou só mais uma fórmula.

Há uma globalização cultural disseminada pelos meios de comunicação principalmente pelas mídias eletrônicas audiovisuais. A imagem hoje é um filão que está sendo explorado pelo Capital não só porque traz lucros, mas junto com isso a "dominação cultural". Por isso a França e a Comunidade Européia não aceitaram que se incluísse nos acordos comerciais do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) o item referente ao Audiovisual, pois desse modo Hollywood iria ampliar sua influência na Europa e no mundo.

Eugênio Bucci (2008:34) afirma “... o que não aparece na TV não acontece de fato”, frase que resume muito de nossa condição midiática contemporânea, pois qualquer “ação provocadora” assimilada pela TV perde a sua carga revolucionária.

A mídia, dentro desse contexto de crise planetária, necessita de uma reavaliação profunda e radical. Sabe-se muito bem que as imagens jogam um papel fundamental na implantação de modelos econômicos sobre territórios entendidos pelos “conquistadores” de imagens como tabula rasa. Observe-se que a palavra Mídia tem um curioso parentesco sonoro com Midas, o deus que transformava tudo em ouro. Antes tempo era dinheiro, hoje a imagem faz dinheiro.

A mídia se constitui em agente da maior importância para a disseminação de cultura e que, democratizada, pode vir a ser um grande fator de recomposição e de expressão de culturas, valores e estéticas locais. O caso da Índia em relação a este aspecto, é exemplar. Lá a produção visual é amplamente disseminada, o que faz com que os cidadãos produzam seus próprios filmes e imagens. A cultura dos meios de comunicação de massa, para que reflita a cultura local, deve ser menos massa e mais gente. Então as mudanças devem levar ao entrelaçamento das culturas humanas, abrindo possibilidades de transformação cultural através do uso radicalmente democrático dos meios de criação e produção de imagens e sons.

A televisão no Brasil pode exercer funções básicas para a dinamização cultural local. É preciso reforçar a ação dos Fóruns de Democratização da Comunicação que tanto lutam para a elaboração de uma “lei da informação democrática". Este projeto diz respeito exatamente à democratização da mídia no Brasil. Também é necessário pensar na socialização das novas mídias digitais que são elementos importantes na produção e divulgação de culturas.

Há a história de uma aldeia africana que fala de um vendedor que pretendia comercializar a TV naquele local e a recusa dos moradores que já tinham o “narrador” da tribo que os conheciam, e a televisão não os podia conhecer. Essa história nos indica que deve haver um esforço para que a mídia veicule as falas dos “narradores locais” - esse seria um bom sinal de democracia cultural: começar por aí pode levar a uma democracia radical no Brasil.

O que está em jogo agora não é só ideologia partidária, queremos pão, palavras, imagens, poesia, enfim, queremos expressar a nossa vida cultural tanto no nível pessoal como no coletivo, sem as amarras ideológicas do mercado e do partido, já que essas dimensões ideológicas não devem ser o único arcabouço que explique e crie realidades de consumo. Enfim, é preciso reavaliar a dimensão da produção cultural nos contextos “sensíveis” de sua criação.

No Brasil, para reatar os laços da universalidade e da cultura local, precisamos passar por uma refundação das práticas sociais ligadas aos meios de comunicação de massa, dando a emissoras de rádio e TV um caráter democrático, mas também operando com comunicação comunitária que contemple os desejos e anseios das populações “apartadas” do campo cultural. Um exemplo triste aconteceu nos anos 1990, num bairro de Guarulhos chamado “Cidade Soberana” onde havia uma rádio comunitária numa pequena igreja. Essa emissora foi desativada por motivos desconhecidos. Agora um grupo de jovens “artivistas” está operando com projetos de comunicação popular na região.

Uma palavra sobre a questão da relação da mídia com a sociedade de consumo, em que tudo se torna objeto de desejo da visão e as imagens se transformam em “mercadoria do olhar” (Eugênio Bucci, 2004). Hoje não são consumidos somente alimentos, objetos, coisas, mas também linguagens, símbolos, cultura, e há uma necessidade de ousar e dizer não ao rebaixamento cultural.

Mas não é a forma neoliberal que faz falar, sendo com isso tão autoritária como os totalitarismos do passado? Não seria o estilo neoliberal a forma fundamentalista por excelência? (Zizek, 2003). Na falta de regulação do modelo, a receita que nos é dada não é a do self made man ou “faça você mesmo”? A criatividade atual não seria orientada para as finalidades da venda? Já está constatado que cada momento da história tem inventado sua própria criatividade: esse parece ser o momento que usa a inventividade como atividade voltada para o mercado, a única coisa sólida que existe no ar. Em tempos de “modernidade líquida”, tudo é hiperliquidificado.

Enfim, a linguagem uniformizante da mídia trucida as culturas pessoais e as criatividades coletivas, impondo padrões de consumo. A televisão amplifica fatos, dando-lhes a impressão de onipresença na sociedade. A linguagem midiática exige que falemos e ajamos de modo “equalizado”. Nada de resistências ou inconformismos...

O caminho deve estar aplainado para o “carro capital” passar, de preferência sem sinal fechado, sem controle social e sem nenhuma reclamação. Nossa “era dos extremos” está sendo marcada pela violência econômica, “o horror econômico”, nacionalismos fanáticos, e pelo cinismo individualista. Enfim, em época de turbocapitalismo, o estado do mundo ainda não é favorável à arte e à cultura.

Bibliografia Geral

BUCCI, Eugêncio e KEHL, Maria Rita. Videologias. São Paulo: Boitempo, 2004.

OLIVEIRA, Francisco de; PAOLI, Maria Célia. Os sentidos da democracia. 2 ed. Rio de Janeiro: Vozes/Fapesp, 2000.

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindos ao deserto do Real. Trad. Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2003.

* Artigo publicado no livro Cultura e literatura: diálogos. São Paulo: Ed. Autor, 2008. Texto elaborado por ocasião do III Encontro Intermunicipal de Cultura, “Globalizações e diversidade cultural” (Brasília, 1997).

* Valmir de Souza é Pós-Doutor em Políticas Públicas de Cultura, Doutor em Letras (USP), professor, pesquisador e ensaísta, autor Cultura e literatura: diálogos. São Paulo: Ed. Autor/Funcultura, 2008. Autor de artigos e ensaios sobre literatura, cultura, comunicação, história e artes.