Notícia

Revista Valor Especial

As conquistas da pesquisa brasileira

Publicado em 01 novembro 2020

Por Lauro Veiga Filho

Soluções inovadoras para a segunda geração de etanol celulósico e para o aumento da produtividade de grãos estão entre as práticas da chamada agricultura inteligente

A pesquisa brasileira anda a passos largos na geração de inovações para o agronegócio, numa corrida em que a vantagem ainda é dos grandes grupos multinacionais Em algumas áreas, no entanto, a distância pode estar sendo encurtada. A produção de etanol de segunda geração, conhecido como celulósico, poderá se consolidar mais rápido que o esperado, transformando o Brasil em protagonista no mercado global de biocombustíveis, diz Mário Murakami, diretor científico do Laboratório Nacional de renováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (LNBR/CNPEM)

Imaginava-se que o desenvolvimento de uma tenologia nacional para a produção de enzimas com capacidade para “ descontruir ” a biomassa lignocelulósica, tornando-a disponível para a produção de açúcares simples, não seria possível em menos de uma década. Mas a equipe de pesquisadores comandada por Murakami e pelo diretor executivo do LNBR, Eduardo Couto e Silva, conseguiu o feito em dois anos e meio, façanha reconhecida pela revista “ Nature Chemical Biology ”.

A rota escolhida pelos pesquisadores brasileiros, diz Murakami, tomou emprestada a técnica de edição genética que levou as cientistas Emmanuelle Charpenter, do Instituto Max Planck, da Alemanha, e Jennifer Doudna, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, a compartilhar o Prêmio Nobel de Química neste ano, conhecida pela sigla CRISPR/Cas9. “Conseguimos alterar geneticamente o metabolismo de uma cepa do fungo tricoderma ree sei para a produção de um coquetel de enzimas a partir do melaço de cana. Nossa proposta sempre foi desenvolver uma tecnologia nacional competitiva, pensando nas singularidades do setor usineiro ”, afirma Murakami

A nova plataforma deverá estar no mercado nos próximos dois anos. Atualmente, as usinas utilizam enzimas importadas para transformar palha e bagaço de cana em açúcares utilizados no processamento do etanol.

A tecnologia é dominada por empresas europeias e pode representar metade do custo de produção do etanol celulósico, induzindo o pagamento de royalties. O pesquisador atribui os resultados ainda ao ecossistema de inovação instalado em tomo do CNPEM, que estimulou o desenvolvimento de uma “tecnologia tão disruptiva em curto espaço de tempo”. Numa estimativa, a segunda geração de etanol pocle acrescentar 15 bilhões de litros à produção brasileira, o que significaria aumentar em 42% a produção da safra 2019-2020, de 35,6 bilhões de litros.

A mesma técnica de edição genômica foi adotada por pesquisadores do Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC), da Unicamp, para chegar à proteina responsável pelo controle da resposta do milho a eventos climáticos severos, como a seca, e aciona mecanismos de defesa da planta contra pragas. Com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), diz Paulo Arruda, professor do lnstituto de Biologia (1B) da Unicamp e coordenador do GCCRC, a proteína foi descoberta entre outras mais de 30 mil que regulam o metabolismo de plantas. Sob condições normais, a proteina evita que os genes cle resposta ao estresse entrem em ação. “ Quando ocorre uma seca ou um ataque por patógenos, os níveis da proteina são diminuídos e o milho desencadeia à resposta necessária para controlar os efeitos da seca, do calor ou do ataque de patógenos ”, afirma Arruda, A planta editada pela pesquisa inibe a expressao daqueles genes, apresentando uma resposta mais rápida a situações de estresse hídrico.

O passo seguinte será reproduzir as plantas com a proteina modificada e realizar testes a campo para referendar a tecnologia, que será ainda submetida à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CINBio). No mercado há 12 anos, a brasileira Solinftec, seciada em Araçatuba (SP), adotou recursos de inteligência artificial aplicada ao campo para desenvolver seu recém-lançado monitor de produtividade, algoritmo inteligente que opera como um software e consegue oferecer aos produtores uma leitura acurada do volume de cana colhido linha a linha. A ferramenta, diz Guilherme Guiné, diretor de desenvolvimento de produtos da empresa, não exige a instalação de qualquer tipo de hardware na colhedora, dispensa a calibração manual e é compatível com equipamentos de todas as marcas no mercado. O monitor consegue capturar dados de toda a operação a cada sete metros, média aferida a campo, conforme Guiné, o que se compara com 25 hectares nas plataformas de agricultura inteligente comumente utilizadas pela agricultura. Os dados descarregados em nuvem são analisados e consolidados pela plataforma de inteligência artificial Alice, também desenvolvida pela Solinftec.

O sistema emprega técnica de machine learning para encontrar a melhor forma de representar a variação da produtividade no campo e facilitar a tomada de decisões pelo produtor, afirma Guiné. O monitor opera em 162 usinas no Brasil, instalado em mais de 1,1 mil colhedoras, que respondem pela produção de 130 milhoes de toneladas de cana. Nos Estados Unidos, a solução está instalada na US Sugar, da Flórida, um dos maiores produtores cle cana do país. Em julho deste ano, diz Almir Araújo, diretor de digital, novos modelos de negócio e excelência comercial da Basf na América Latina, a empresa anunciou a instalação de um centro de projetos para o desenvolvimento de soluções inteligentes nas áreas de plantio e fertilização, numa parceria envolvendo o xarvio, marca de agricultura digital da companhia, e a Bosch. Segundo ele, a primeira tecnologia desenvolvida a partir dessa parceria será o SmartSpraver, voltado para a pulverização inteligente, com sensor de detecção de plantas daninhas na barra do pulverizador. “ A máquina realizará a leitura da área com a aplicação imediata de herbicida somente onde for necessário. Também em desenvolvimento, a ferramenta Smart Seeder vai gerar mapas de plantio a taxas variáveis, identificando o potencial produtivo de cada talhão na lavoura para determinar o volume de sementes a ser semeado. As duas tecnologias, em fase de testes, deverão chegar ao mercado nos próximos anos.

Em agosto, a Basf lançou comercialmente o Xarvio FieldManager, que agrega recursos para o mapeamento digital de plantas daninhas. Já adotada por produtores de Goiás, Mato Grosso e Bahia, a ferramenta trouxe recdução média de 61% no uso de recursos para controle de plantas invasoras, destaca Araújo.

Até a safra 2021/2022, a Bayer deverá colocar no mercado brasileiro quatro novas variedades de grãos, incluindo duas linhas de sementes de milho e uma de algodao, previstas para a safra em curso. Em fase de testes, a soja Intacta 2Xtend deverá ser lançada no próximo ano agrícola, diz Geraldo Berger, lider de assuntos regulatórios da Bayer para a América Latina. Resistente a herbicidas como o Dicamba, a segunda geração da soja Intacta agrega novas proteinas para mantera eficácia e ampliar o espectro de controle de pragas.

Às duas novas variedades de milho incorporam, respectivamente, quatro e cinco eventos distintos com o objetivo de reforçar o combate a ervas daninhas e minimizar o desenvolvimento de resistência na população de pragas. À nova tecnologia desenvolvida para o algodão permite o controle do complexo de lagartas do gênero Spodopteras. Ainda sem previsão de lançamento no Brasil, a Bayer colocou à disposição de produtores do México sua linha de milho de baxa estatura, que ganhou o nome de Vitala. “ A novidade vai causar uma transformação no cultivo do milho, trazendo maior estabilidade para a produção. As plantas variam de 1,5a 1,8 metro de altura, diante de 2,5 metros hoje, com menor distância entre os nós, o que evita o tombamento em caso de intempéries climáticas e melhora a produtividade ”, afirma Berger.

Na área de agricultura digital, a Climate FieldView, subsidiária da Bayer, planeja acelerar a aplicação no campo de suas soluções inteligentes a partir de um novo modelo de negócios.Segundo Abdalah Novaes, lider de negócios da empresa para a América Latina, a FieldView desenhou um modelo de precificação de seus serviços com base em resultados, envolvendo inicialmente 300 produtores num projeto-piloto. A Bayer vai dividir os riscos com os produtores, assumindo parte dos custos caso as soluções não tragam os resultados esperados.

Lançada em 2018, a plataforma digital da FieldView conecta mais de 20 mil plantadeiras e colheitadeiras no Brasil e tem potencial, segundo Novaes, para cobrir em torno de 40 milhoes de hectares de lavouras que incorporam equipamentos e estrutura compatíveis com o sistema da empresa. O FiedldView Drive, dispositivo instalado nas máquinas e responsável pela captura dos dados a campo e por sua transmissão para a nuvem, já fez o upload acima de 30 milhões de horas de dados.

Augusto Adami, vice-presidente de nutrição e saúde animal da DSM América Latina, afirma que estudo recente conduzido pela Unesp mostrou que, em ambientes tropicais, à exemplo do Brasil e do México, a aplicação de Bova er, aditivo alimentar desenvolvido pela empresa, pode reduzir as emissoes de metano por bovinos em até 54% O produto está em fase final de registro e deverá estar disponível para venda na América Latina em 2021. Globalmente, a DSM destina 5% de seu faturamento para pesquisa, desenvolvimento e inovação e mobiliza uma equipe de 726 especialistas em todo o mundo, dos quais 40 nos três centros de inovação instalados em Campinas (SP), Mairinque (SP) e Rio Brilhante (MS). Em 2019, segundo Adami, as vendas de produtos inovadores cresceram 13% ante 2018 e representaram 21% das vendas totais.