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Diário de Pernambuco

As conexões genéticas da epilepsia

Publicado em 27 outubro 2010

Por Carlos Tavares

Ainda existem no meio científico que estuda o jogo molecular da epilepsia muitas controvérsias em relação ao papel que genes como o interleucina 1-Beta, entre outros, exercem no processo de inflamação das epilepsias e de lesões no hipocampo. No entanto, trabalhos de pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp lançam novas luzes nessas análises. Eles receberam este ano o International Scholarship Award, no Congresso Americano de Neurologia, no Canadá, concedido anualmente pela Academia Norte-Americana de Neurologia (AAN), uma das mais importantes honrarias científicas, por rastrearem novas perspectivas de tratamento e cura da doença. Pesou para um dos prêmios o fato de estudos revelarem a participação do interleucina 1-B (IL-1B) na epilepsia do lobo temporal mesial (ELTM) associada à esclerose hipocampal.

Os três trabalhos se destacaram em meio a centenas de outros apresentados por jovens cientistas de vários países. As pesquisas foram desenvolvidas emdepartamentos diferentes da Unicamp, mas todas são vinculadas ao Laboratório de Neuroimagem da FCM e fazem parte do Projeto de Cooperação Interinstitucional de Apoio a Pesquisas sobre o Cérebro (Cinapce), da Fapesp.

Renato Oliveira Santos, um dos premiados, estudou o gene IL-1B e mostrou como ele contribui para a ELTM com atrofia do hipocampo, tipo mais comum da doença e considerado a sua forma mais agressiva, em adultos. "Nós estamos procurando um gene relacionado à esclerose hipocampal e um deles já sabemos que é a interleucina 1-Beta", explica o biólogo, que faz mestrado em genética sob a orientação de Cláudia Vianna Maurer-Morelli, doutora em genética e que recebeu o mesmo prêmio da AAN, em 2007.

Investigação - Segundo a geneticista que coordena o grupo, as conclusões da pesquisa nesta etapa foram alcançadas usando-se a estratégia das associações de genes com doenças. "Essa estratégia é conhecida também como caso/controle. Comparamos um grupo de pessoas sem epilepsia com pacientes e usamos marcadores genéticos conhecidos como nucleotídeos de polimorfismo único, que todos temos espalhados em nosso genoma", descreve Cláudia. "Em seguida, fizemos análises estatísticas e demonstramos, de forma muito clara, que realmente existe uma associação desse gene com a epilepsia do lobo temporal mesial associada à atrofia do hipocampo", completa.

As ligações entre as pesquisas do grupo de genética com as de neuroimagem ocorrem exatamente por causa da participação de fatores genéticos na atrofia hipocampal, entre outros aspectos das investigações, explica o neurocientista Fernando Cendes, que está à frente do Laboratório de Neuroimagem da Unicamp, ele próprio um veterano de prêmios internacionais na área.

"A ressonância magnética é usada para identificar e quantificar alterações em pessoas que, quando concordam em participar do estudo, doam uma amostra de sangue, de onde é extraído o DNA para identificação dos genes que podem causar esse defeito (atrofia)", esclarece o pesquisador. Segundo ele, outros processamentos mais sofisticados - como o sequenciamento de alto alcance - são feitos no laboratório para detectar alterações invisíveis a olho nu.

Planejamento - O laboratório de neuroimagem exerce um papel fundamental nessas pesquisas, segundo o diretor, desenvolvendo e aprimorando meios para identificar alterações cerebrais - ou de outras enfermidades - que causam epilepsia refratária, aquela que não responde às terapias com medicamentos. "Com isso, nós ajudamos no planejamento cirúrgico e é por meio dessas investigações com imagens que poderemos predizer qual será o sucesso dessa operação", observa Cendes.

O mais importante para ele é que as pesquisas com genes para identificar a participação de alguns deles nas várias formas de epilepsia colocam os pesquisadores diante de novas abordagens, que podem esclarecer melhor o que causa crises epilépticas e de que forma o tratamento poderá representar a cura da enfermidade.

"Há um vasto campo de pesquisa pela frente, mas a identificação dos genes torna possível avaliar outros mecanismos da doença", diz o neurologista, que estuda as várias formas de epilepsia desde o começo da década de 1990. Cendes, aliás, foi o primeiro no mundo a demonstrar que uma herança genética pode ser uma das causas da doença. Ele mapeou e acompanhou por mais de 20 anos famílias do interior de São Paulo. Esse foi um dos trabalhos que lhe rendeu uma das honrarias de distinção da AAN - a demonstração do vínculo hereditário.

Próximos passos - Cláudia Morelli afirma que os trabalhos com o grupo de jovens premiados da Unicamp prosseguem na busca da variante de sequência do gene IL-1B, supostamente relacionada à epilepsia. "Devemos sequenciar o gene da interleucina em busca dessa variante. Também há outras possibilidades, como os estudos de função da interleucina 1-Beta na epilepsia e que são importantes para caracterizar o real papel desse gene na doença", explica a geneticista. Ela afirma também que, a partir de uma visão integrada de estudos estruturais e de função do gene na epilepsia, será possível obter um maior conhecimento sobre os mecanismos celulares da interleucina e as lesões vistas na doença. "Esse conjunto de informações poderá no futuro propiciar ações que visem minimizar os danos causados pelo mal", diz.

Em Brasília, o neurologista Ricardo Teixeira, que fez parte, por 10 anos, do mesmo grupo de pesquisa da Unicamp, confia nos resultados das análises. "Com o tempo, essas pesquisas que estão sendo feitas na Unicamp e em outras intituições poderão nos mostrar os componentes genéticos para que se possa prevenir a esclerose do lobo temporal, por exemplo", deduz o médico.