Notícia

Gazeta de Piracicaba

Árvores de todos

Publicado em 10 fevereiro 2019

As árvores, muitas vezes, são vistas como causas de problemas para muitas pessoas que vivem nas cidades, apesar dos inúmeros benefícios e serviços prestados. Essas questões se agravam com a expansão urbana, o que torna mais difícil a tarefa de gerenciamento do patrimônio arbóreo.

Tal situação pode ser observada em São Paulo, a maior metrópole brasileira. Em 2018, os problemas com árvores, como podas e retiradas, lideraram as queixas da população na Ouvidoria da Controladoria Geral da Prefeitura de São Paulo e cresceram em 39%, emcomparação com 2017. Foram 3.240 protocolos registrados entre janeiro e dezembro do ano passado, diante de 2.455 reclamações em 2017, ultrapassando a pavimentação das ruas, outro grande motivo de preocupação dos munícipes, com mais de 2 mil solicitações de reparos. Normalmente, acidentes com árvores aumentam nos períodos mais chuvosos e na ocorrência de ventos fortes.

Em janeiro de 2017, São Paulo registrou a queda de 833 exemplares, ou seja, 26 por dia. Dessa forma, não é sem razão que esse problema tire o sono dos paulistanos, pois a queda de árvores, muitas vezes, traz sérias consequências para o cotidiano da cidade, como acidentes com pessoas, danos às propriedades, obstruções nas vias públicas, além de outros transtornos, como a interrupção de serviços essenciais, principalmente de energia elétrica. A Prefeitura de São Paulo - responsável pela gestão das árvores - se defende como pode, afirmando que os serviços de poda são "um problema histórico da cidade", e que está aumentando o número de funcionários para realizar tais serviços.

Atualmente, a municipalidade dispõe de 65 equipes de manejo arbóreo em atividade nas diversas subprefeituras, mas o descontentamento da população persiste e as queixas se avolumam nos canais competentes. Essa situação não é privilégio dos paulistanos. Moradores de outros centros urbanos brasileiros enfrentam problemas semelhantes com a arborização pública. "É preciso que as prefeituras se conscientizem da necessidade de investir nessa área de vital importância para melhorar a qualidade do ambiente e, em consequência, o bem-estar dos cidadãos", afirma Marcelo Machado Leão, Phd., diretor da Propark Paisagismo e Ambiente Ltda., e pesquisador do Programa Inovativo da Pequena Empresa (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo ele, que vem estudando o assunto há vários anos, com a crescente expansão urbana, torna-se praticamente impossível administrar com eficiência o patrimônio arbóreo de uma cidade, a não ser que se promova a modernização do sistema de gestão. Nesse sentido, o principal instrumento é a elaboração de um plano municipal de arborização, que contemple os todos os aspectos necessários para nortear as decisões dos técnicos relativas às árvores. Para o especialista, é preciso conhecer com profundidade a situação de cada local. E no caso de cidades médias e de metrópoles, esse trabalho pode ser facilitado com o emprego de novas tecnologias.

Elaboração de inventário da vegetação arbórea "O georreferenciamento, a partir da extração e interpretação de imagens de satélites, pode auxiliar na elaboração de inventário da vegetação arbórea existente na malha urbana do município", explica Marcelo. A partir daí, é possível elaborar mapas temáticos da cobertura arbórea da cidade, identificando o número estimado de árvores existentes nas ruas, avenidas e rotatórias, e efetuando- se a determinação e a classificação das árvores no espaço urbano (sistema viário, parques, praças, equipamentos urbanos, áreas particulares e áreas legalmente protegidas). Após a análise por sensoriamento remoto, torna-se necessária a realização de avaliações de campo, que podem ser efetuadas por parcelas, apoiadas em delineamentos estatísticos. Dessa forma, torna-se possível determinar as espécies predominantes no espaço urbano.

Caso existam problemas, como, por exemplo, árvores com riscos de queda, presença de plantas exóticas invasoras, baixa diversidade de espécies, conflitos com as redes aéreas, principalmente de energia elétrica, ou, ainda, quando ocorrem práticas inadequadas de manejo (como podas drásticas), é possível corrigi-los ou minimizá-los. No trabalho de planejamento, efetua-se ainda a análise da ocorrência de pragas e doenças que podem enfraquecer as árvores, levando-as à queda com riscos de acidentes e o seu convívio com os equipamentos urbanos, possibilitando, inclusive, a perfeita mobilidade de pedestres, entre muitos outros aspectos. De posse da análise do diagnóstico da situação da cidade em relação à arborização, é possível determinar as áreas destinadas à manutenção do patrimônio existente, recomendando as ações mais adequadas. Pode-se também planejar as áreas destinadas à expansão, com o plantio de novas mudas, para expandir os benefícios e serviços prestados pelas árvores para zonas mais carentes. O Plano de Arborização Urbana também determina as espécies arbóreas mais adequadas para cultivo, de acordo com as condições edafoclimáticas do local e estabelece as normas agronômicas para o seu perfeito desenvolvimento. Trata-se de plantar a "árvore certa no lugar certo". Dessa forma, os problemas com árvores tendem a diminuir com o tempo, possibilitando que as prefeituras possam atender às demandas e expectativas da população de forma mais rápida e eficiente. Programas complementares, como a estruturação de viveiros municipais, o processamento e o emprego de resíduos de poda, também são contemplados no documento. Todo esse trabalho precisa contar com a efetiva participação da comunidade, conscientizada das importantes funções exercidas pelas árvores na melhoria da qualidade de vida. "Os cidadãos precisam se tornar verdadeiros aliados no desafio de conservar o importante patrimônio verde, evitando que ocorram transtornos na vida da cidade", completa o Prof. Marcelo Leão.