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ARTIGO - Sérgio Mascarenhas (1928-2021): Ciência e Patriotismo (1 notícias)

Publicado em 27 de julho de 2021

Por Andrés Eugui

José Honório Rodrigues, um dos mais qualificados historiadores brasileiros, em um dos seus mais importantes livros, escreveu: “o enredo da História do Brasil é a luta pela vitória da maioria contra os abusos, os desmandos, o impatriotismo da minoria dominante”. Esta constatação, que não é resultado de mera opinião, é mais atual do que nunca.

Ultrapassada, verdadeiro clichê, seria a afirmação contrária. Quem nunca se deparou, até mesmo nos círculos pretensamente mais qualificados, com frases como estas: “os brasileiros têm o governo que merecem”, “isto só acontece aqui”, “saímos da barbárie e estamos na pós-modernidade sem passar pela modernidade”?

No melhor dos casos, estas distorções são mais reações de natureza psicológica do que de atenta consciência da própria história brasileira. Reações oriundas das versões que, ao longo do tempo, foram se cristalizando até adquirirem status de objetividade. Ora o ufanismo patrioteiro, ora o complexo de inferioridade neocolonial do ‘povo fracassado’, que nunca supera sua condição de subdesenvolvimento. A farsa do progressismo cosmopolita, que pensa o Brasil a partir da última novidade intelectual originada em outras latitudes, ou o entreguismo travestido de orgulho nacional.

E onde está o povo brasileiro? Categoria que, na cabeça de muitos, é uma mera abstração. Honório Rodrigues respondeu a esta pergunta de forma contundente: “(...) o povo brasileiro é uma vítima, um derrotado no processo histórico brasileiro”.

Toda vítima tem o seu algoz. O povo brasileiro tem muitos. A falsificação da história pátria esconde a responsabilidade desses algozes. Essa ‘minoria dominante’ que, segundo Honório Rodrigues, nunca viu na maioria dominada “(...) uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo - Jeca Tatu -, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer e ele lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”.

No entanto, há os que fizeram do seu percurso vital não apenas uma luta pela excelência científica, mas que também equacionaram ciência e patriotismo. Um dos exemplos paradigmáticos é o de Sérgio Mascarenhas (1928- 2021), falecido recentemente, aos 93 anos de idade.

Mascarenhas, nascido na cidade do Rio de Janeiro em 1928, graduou-se em Física (1952) e em Química (1951) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Radicado em São Carlos (SP), fundou e dirigiu o Instituto de Física e Química da USP-São Carlos e ajudou na estruturação da Escola de Engenheira da mesma universidade. Foi também o fundador da Embrapa Instrumentação Agropecuária.

No início da década de 1970, foi um dos criadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Bastariam essas realizações para que Mascarenhas ocupasse um lugar de destaque, junto a outros, na história da ciência brasileira. Mas o seu percurso científico foi muito maior. Sua produção científica, em termos quantitativos e qualitativos, impressiona. Não apenas pelas contribuições em áreas específicas - da física de matéria condensada à biocibernética - mas também pela diversidade das mesmas, conformando um todo coerente.

Outra característica de Mascarenhas foi a sua preocupação pelo ensino. Adquiriu, ao longo dos anos, vasta experiência como professor visitante nas melhores universidades do mundo: Princeton, Harvard, Londres, MIT, entre outras. Colaborou com ganhadores de Prêmios Nobel, como o paquistanês Abdus Salam (1926-1996) no Centro Internacional de Física Teórica de Trieste na Itália, assim como com Lars Osanger (1903-1976).

Em relação à colaboração com Osanger, vale a pena darmos voz ao próprio Mascarenhas, pois ilustra muito bem a sua personalidade: “Teve um Prêmio Nobel chamado Lars Onsager, de Yale, um cara maravilhoso, de uma criatividade tremenda, considerado um monstro sagrado, que gostou muito da interpretação que eu dei ao trabalho. Ele tinha uma visão realmente ampla, interdisciplinar e fez umas equações, um modelo que diz o seguinte: tudo o que acontece na vida comum são estados de equilíbrio. E esses estados não levam a muita coisa porque não se tem excitações, flutuações fora do equilíbrio. Ele começou a ver que importante na Física era também o que saía do equilíbrio. Isso vale para muito mais conceitos e situações, claro, mas Onsager conseguiu relacionar quantitativamente, pela primeira vez, efeitos físicos fora do equilíbrio. Daí, apliquei as equações dele para entender quantitativamente aquele efeito que eu descrevera e publiquei numa revista famosa naquele tempo, ‘Il Nuovo Cimento’. As contas que fiz com a equação do Onsager bateram com a parte experimental. E quando Onsager viu o meu trabalho dando base real às equações dele, gostou muito. Quando apresentei o trabalho na Europa, ele foi de uma imensa gentileza. E eu, de repente, me vi sentado à mesa num hotel, na Suíça, explicando as equações de Onsager para Onsager! Nossa Senhora! Só mesmo brasileiro e carioca! Ele, calmo, quietinho, não ficou melindrado. Acabei ficando grande amigo dele”.

Brasileiro e carioca, mas não só. Também um visionário. Adjetivo que é necessário introduzir aos destacarmos duas realizações científicas de Mascarenhas na última fase de sua trajetória científica. A criação de uma tecnologia não invasiva para a medição da pressão intracraniana e a formulação teórica para a implementação de um curso de Engenharia de Sistemas Complexos.

O primeiro feito é explicado melhor do que ninguém pelo próprio Mascarenhas: “(...) eu fiquei doente, pela terceira ou quarta vez, tive uma doença que parecia Parkinson, mas um grande neuro-radiologista e pesquisador da USP de Ribeirão Preto, Antônio Carlos Santos, me disse que na verdade era hidrocefalia de pressão normal, uma doença mais rara e difícil de diagnosticar. Li uns 200 trabalhos sobre esse negócio e resolvi operar em Ribeirão Preto. Operei. Parece que ligaram uma chave para o outro lado. Parou o negócio de andar torto, tontura só um pouquinho, mas saí da depressão que tive, porque mudaram a circuitaria neuronal. Fiz uma cirurgia em que puseram uma válvula e uma cânula de seis centímetros em minha cabeça para jogar o excesso de líquido na cavidade peritoneal. Mas esse sistema é precário. Pode entupir de repente. E aí tenho que correr para a cirurgia, porque se não vou ficar mais demente ou entrar em óbito. Como eu precisava me vingar dessa doença, tratei de conhecer a coisa melhor, fazer pesquisa. E estou há um ano e meio trabalhando nesse negócio. Tive cinco ideias diferentes para medir a pressão intracraniana sem procedimento invasivo no cérebro. Três já estavam patenteadas: uma para a Nasa, outra para IBM e outra para uma Universidade da Lituânia com uma universidade americana lá. Bom, mas ainda sobraram duas, entende? E eu mandando ver. Aí comecei a pensar numa maneira brasileira, cheia de simplicidade, para fazer a medida. Daí me veio a ideia de que se há um aparelho para medir a deformação de uma viga chamado strain gauge (sensor de deformação) seria possível um aparelho para medir a pressão intracraniana por via da deformação que o excesso de líquido produz no crânio. Aí fui na Engenharia, aqui de São Carlos, que é de altíssimo nível, preparei um teste com osso de boi, um medidor, para testar se ele iria ver ou não quando eu deformasse o osso com um peso e se eu poderia ler no instrumento a deformação que fosse equivalente à pressão interna craniana, produzida por líquidos, ou seja, sangue e líquido cefalorraquidiano”. (Como consta em Pesquisa Fapesp. 137: 10-16).

O resultado foi a criação de um artefato tecnológico e também de uma empresa. Mascarenhas foi, como ele mesmo considerava que um cientista tinha que ser, um empreendedor científico. Atenção, não confundir empreendedor científico com cientista empresário ou empresário que patrocina cientistas. São coisas muito diversas, com resultados também diversos. Há a necessidade, como escreveu em um dos seus artigos, “da figura do que denomino ‘empreendedor de ciência-tecnologia e de educação’. Note-se que cuidadosamente me referi não ao cientista-empresário nem ao empresário-cientista, nem ao empresário somente, mas ao empreendedor da ciência e da educação. Em outras palavras, àquelas lideranças, públicas ou privadas, com capacidade organizativa e liderança proativa que permitem avanços rápidos e diferenciados na sociedade, através de inovação, ousadia de objetivos e, sobretudo, formação de novas lideranças. Dentre os falecidos, tenho em mente perfis como os de Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro, na Educação; Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Álvaro Alberto, Joaquim da Costa Ribeiro e Carlos Chagas Filho, na Ciência. Pessoalmente tive a fortuna de trabalhar com Anísio Teixeira e Costa Ribeiro, acompanhando de perto as suas lutas. No âmbito internacional do Terceiro Mundo, cito a figura de Abdus Salam - Prêmio Nobel de Física - oriundo do Paquistão e com quem tive também a honra de trabalhar no hoje denominado Abdus Salam International Center for Theoretical Physics, em Trieste, verdadeiro estadista da ciência mundial e grande empreendedor da ciência e educação...”.

A formulação das bases teóricas para um curso de Engenharia de Sistemas Complexos foi, como exposto acima, outra das realizações de Mascarenhas. Em artigo seminal - em coautoria com o professor José Roberto Castilho Piqueira, da Escola Politécnica da USP - colocou em perspectiva teórica não apenas as razões, mas também a maneira de como fazê-lo.

Hoje, o Brasil não pode mais prescindir de formar engenheiros que pensem a partir da complexidade. É um déficit que se não for sanado, postergará o nosso desenvolvimento como nação. De nada servirá falarmos do patriotismo de um Mascarenhas sem continuar o seu legado. Muito do desenvolvimento econômico conquistado no Interior do Estado de São Paulo - em particular na nossa região - é devido ao trabalho, persistência e patriotismo do professor Sérgio Mascarenhas.

*Andrés Eugui é bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP)