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São Carlos Agora

Artigo Rui Sintra: Partido político formado por cientistas?...

Publicado em 20 julho 2017

Por Rui Sintra

Tomamos conhecimento recentemente, através do jornal "Estado de São Paulo", que está sendo cogitada a criação de um novo partido político constituído por cientistas brasileiros, uma ideia que, segundo o citado jornal, estará tomando forma nos bastidores da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, um evento que ocorre até dia 22 de julho em Belo Horizonte (MG).

Embora sem estar oficialmente formalizada, esta ideia, consubstanciada na permissa inicial que o citado partido defenderia, no Congresso Nacional, unicamente pautas relacionadas com as áreas da Educação, Inovação, Ciência e Tecnologia, sem pleitear pastas no Poder Executivo, o projeto poderá parecer, à primeira vista, algo surrealista e um Déjà Vu, como, por exemplo, as bancadas ruralista, evangélica e armamentista, todas elas constituídas por membros de diversos partidos alinhados com as causas propostas. É difícil imaginar um partido político unicamente composto por cientistas e dedicado a pautas específicas como as que acima são elencadas, em primeiro lugar porque certamente esse partido não poderia ficar alheio e divorciado das restantes pautas que se discutem no Congresso; em segundo lugar, porque se imagina que esse partido sucumbiria facilmente às pressões e aos diversos lobbies que se encontram instalados nos diversos poderes - principalmente no legislativo - e que são responsáveis pela maior parte dos desmandos verificados desde há largos anos na conjuntura política, social e econômica do país.

Por outro lado, cada cientista tem sua própria filosofia política - de esquerda, centro e direita -, o que dificultaria a pretendida independência na defesa da temática. Numa outra vertente, haveria ainda a necessidade de se avaliar o que pensa a sociedade sobre essa ideia, atendendo a que, por um lado, estão na fila cerca de trinta novos partidos que lutam por sua criação oficial, ao que, se forem aprovadas suas criações, agravarão o já existente caos político-partidário e, consequentemente, a visão extremamente negativa que a população tem dos partidos políticos, cujo um dos expressivos comentários é "mais um para mamar nas tetas": assim, o partido dos cientistas seria mais um nesse nefasto rol popular. Será que a criação desse partido seria benéfica para a imagem dos pesquisadores nacionais, como um todo?

No citado jornal, uma das opiniões que merecem destaque sobre esse projeto é a que foi manifestada pelo diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, que na circunstância defendeu que os partidos políticos atualmente existentes no Brasil deveriam ter quadros políticos com formação científica, o que facilitaria o diálogo com toda a classe política brasileira nos temas ligados à ciência. Deduz-se, pois, que Brito se posiciona contra a formação do aludido partido. Sensata opinião essa, contudo há que lembrar que essa participação dos cientistas obrigaria, certamente, a uma subserviência dos mesmos a seus respectivos partidos: uma fatura que para muitos cientistas poderia ser cara demais.