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Universia Brasil

Artigo científico com participação de docente da UNESP de São Vicente é destaque em publicação internacional

Publicado em 28 agosto 2007

O trabalho da estudante de mestrado Fabiana Moreira (Procam, USP), realizado sob a orientação dos docentes Augusto Flores (UNESP, Campus do Litoral Paulista, São Vicente) e Joseph Harari (Instituto Oceanográfico, USP), ganhou destaque no último volume do periódico internacional Marine and Freshwater Research.

O trabalho, realizado em duas enseadas do município de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, mereceu destaque por indicar a importância de estudos sobre a biologia larval na regulação de populações marinhas bentônicas. Apesar de estudos desta natureza normalmente serem negligenciados, esta pesquisa teve apoio da FAPESP e do CNPq.

Os objetivos principais da pesquisa foram examinar, em seis costões rochosos, as taxas de assentamento larval de caranguejos/siris, afim de entender as variáveis físicas associadas ao transporte destes organismos em direção à costa, localizar agregações larvais na região costeira, para inferir a natureza destas agregações, e testar a relação entre suprimento e assentamento larval, em diferentes escalas espaciais.

A maioria dos invertebrados de zonas entre-marés, ou submareias de pouca profundidade, apresenta desenvolvimento indireto, ou seja, possuem uma fase larval. Durante seu ciclo de vida, esses animais produzem uma larva pelágica com potencial de dispersão variável, podendo atingir desde dezenas de metros até várias centenas de quilômetros. Dessa maneira, diz-se que esses organismos formam populações abertas, e a sua taxa de assentamento larval é uma variável crucial na dinâmica de comunidades e no estabelecimento de populações marinhas bentônicas.

Vários mecanismos físicos podem promover o transporte de larvas em direção às áreas "parentais" de assentamento e, como assumido repetidamente, determinar o ingresso de recrutas às populações bentônicas. O trabalho de Moreira e colaboradores mostrou, no entanto, que a densidade de larvas no plâncton, distante apenas algumas dezenas de metros da costa, não se correlaciona com a sua taxa de assentamento no hábitat bentônico.

Durante o dia, estágios finais de larvas de caranguejo se concentram à superfície do mar, em locais de agregação natural denominados "zonas de convergência". Essas zonas estão associadas a padrões de circulação causados pelos ventos ou por movimentos internos, causados pelas marés. Normalmente, como verificado nesse estudo, para estágios pelágicos de camarões, os organismos planctônicos sobem à superfície durante o período noturno, e descem ao amanhecer.

A inversão desse padrão pode promover o transporte de organismos em direção à costa devido às brisas marinhas, sendo este processo de vital importância para espécies que habitam zonas costeiras, como ocorre com os caranguejos examinados por Moreira, Harari e Flores.

Larvas capturadas próximo à costa, mostraram-se capazes de realizar sua muda em cativeiro para estágios bentônicos juvenis em poucos dias, o que mostra o seu estágio avançado de desenvolvimento. Porém, para a espécie de caranguejo entre-marés, Pachygrapsus transversus, o tempo para a muda decresceu significativamente (de 8-10 dias para 2 dias) para animais capturados em coletores artificiais instalados em costões rochosos. Isso significa que essas larvas podem permanecer por vários dias nas proximidades dos locais de assentamento sem ainda estarem aptas para realizar sua muda.

Os resultados do trabalho, apresentado em 2006, sugerem que a mortalidade nas adjacências dos costões, onde ocorre a maior abundância de predadores, pode explicar a falta de correspondência entre suprimento e assentamento larval.

Foram também observados padrões de circulação costeira e contrastes de assentamento consistentes espacialmente que indicam ser, a Enseada do Flamengo, uma importante área de deposição de larvas.

No futuro, os pesquisadores pretendem usar o conhecimento obtido sobre a variabilidade espacial do assentamento larval, em planos de gestão de áreas litorâneas do Estado de São Paulo e de outras localidades, sendo que estes estudos poderão indicar, por exemplo, áreas prioritárias para preservação ambiental, devido ao alto grau de assentamento larval existente.

Fonte: Unesp