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Artigo: Beber é bom, mas vamos com calma

Publicado em 10 setembro 2007

Por Jaime Pinsky, Historiador e editor (www.jaimepinsky.com.br)

Acontece a cada dois anos e pouco das eleições: os temas relevantes afloram. Cultura, educação e saúde saem do limbo e ganham capas de revistas, horário nobre das tevês, as primeiras páginas dos jornais e, principalmente, a atenção dos políticos. No rápido período que vai de julho a outubro dos anos eleitorais, o cidadão desavisado pode ter a impressão de que, finalmente, aquelas questões sairão das salas de seminários e entrarão na pauta das políticas públicas prioritárias. Ficamos todos com esperança de que assuntos como a inclusão social sustentável, a escola pública universal de qualidade, o acesso aos bens culturais por parte de todos os cidadãos, assim como ações mais decisivas na área da saúde, saiam do papel e do blablablá inconseqüente. Ledo engano. Após as eleições, eles saem rapidamente da agenda, das manchetes e das preocupações de quase todos, a não ser de meia dúzia de ingênuos idealistas.

Daí, por excepcional, é que chama a atenção a atitude do atual ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Ao que parece, ele tomou como tarefa, entre outras, esvaziar os necrotérios de acidentados de trânsito e os hospitais de portadores de cirrose, hipertensão arterial e outras doenças decorrentes do abuso de bebidas alcoólicas. Os dados são insofismáveis: quase metade dos jovens mortos em acidentes de trânsito dirigiam embriagados; o hábito de beber está começando na adolescência, quando ainda não se tem a medida exata das conseqüências do vício. O álcool é o maior responsável pela ausência no trabalho, com impacto importantíssimo sobre a produtividade do brasileiro. O álcool participa ativamente da violência doméstica e da violência nas ruas. Contudo, pouco se fez até agora para prevenir esses problemas.

Apesar de ser proibido vender ou servir bebida alcoólica a menores, qualquer pessoa de qualquer idade tem acesso a ela, salvo raríssimas exceções. Vários jornais experimentaram enviar crianças a supermercados e bares, e elas não tiveram dificuldade em consumir e/ou comprar garrafas de bebidas. Bares de estrada e, pior ainda, postos de gasolina, vendem bebidas alcoólicas. É comum, nas noites de sexta e sábado, jovens dirigirem com uma lata ou uma garrafa de cerveja na mão.

Espantosamente, a lei brasileira permite que pessoas em alto grau de embriaguez se recusem a fazer o uso do bafômetro. Em São Paulo, nas vilas Madalena e Olímpia, em Belo Horizonte, na Savassi, na orla do Rio, Maceió, Fortaleza, na região do Parque Ecológico em Indaiatuba, as pessoas enchem o caneco e saem dirigindo por aí, matando e morrendo. Compromisso? Nenhum, a não ser com a euforia turbinada a álcool em nível muito superior ao supostamente permitido. Se não se faz cumprir a lei, ela não tem função.

É claro que há interessados em manter a situação atual, principalmente fabricantes de bebidas. Por meio de muito bem montado lobby e de propaganda caríssima, as empresas de cerveja resistem a algumas medidas que já deram certo em numerosos países, como a regulamentação da propaganda. Em artigos, matérias pagas e até cartas às redações, os fabricantes querem nos convencer de que a apelação da propaganda na tevê, a qualquer hora, identificando a bebida — geralmente a cerveja — com a conquista de mulheres "gostosas", não pretendem carrear novos consumidores, apenas fazer com que os antigos mudem de marca. A propaganda é enganosa, porque não diz, por exemplo, que beber muito pode até aumentar a vontade, mas certamente diminui a possibilidade...

As alegações dos fabricantes de bebida, apoiadas por um frágil código de auto-regulamentação, trombam com o resultado de importantes pesquisas. Uma delas, patrocinada pela Fapesp, provou que a propaganda atinge profundamente os adolescentes, criando novos consumidores. E o novo alvo dos fabricantes são as mulheres que, supostamente, ainda bebem menos do que o desejável... para eles. Outra pesquisa de âmbito nacional demonstra que boa parte dos adolescentes que experimenta a bebida tende a tornar-se dependentes dela. A restrição dos horários de exibição das propagandas na tevê, a aplicação das leis já existentes sobre venda de bebidas a menores e a suspensão da habilitação de quem é pego dirigindo embriagado precisam se efetivar imediatamente.

Não se trata, é claro, de uma cruzada moralista. As pessoas bebem porque o álcool pode ser fonte de prazer. Beber moderadamente pode estar ligado a celebrações, e é bom celebrar. Acontece que é papel do Estado conscientizar as pessoas sobre os malefícios do abuso, já que terceiros podem ser afetados por quem bebe descontroladamente, tanto por conta dos acidentes que causa, além de faltas ao serviço (que podem acarretar também desagregação familiar), quanto pelos custos que o tratamento impõe a toda a sociedade. E essa conta, os fabricantes dizem que não é deles.