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Arte e loucura na modernidade brasileira

Publicado em 11 julho 2012

Por IHU - Unisinos- Brasil

Quarta, 11 de julho de 2012

"Se as imagens revelam alguma coisa a respeito da loucura é porque trazem à tona algoda loucura de todos nós, humanos que somos”, declara o psicanalista.

"Ao observaro cotidiano dos pacientes no hospital, que é comum passarem o dia sem nenhumtipo de atividade, ela se deparou com uma intensa vontade de expressão. Ocurioso para Nise era o fato de que os pacientes utilizavam qualquer coisa quetinham à mão para preencher as paredes do hospital com escritos, desenhos,garatujas etc.”. É a partir dessa narrativa que Gustavo Dionisio, autor de Oantídoto do mal: crítica de arte e loucura na modernidade brasileira (Rio deJaneiro: Ed. Fiocruz, 2012), recupera a trajetória da psiquiatra Nise da Silveira, que, nos 1940, organizou um ateliê de pintura no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. À época, a prática gerou uma melhora psíquica emalguns pacientes e suscitou "hipóteses a respeito da capacidade terapêutica daatividade que acabava de inaugurar ali”, destaca.

Em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, Dionisio comenta as repercussõesda iniciativa de Nise em relação à compreensão da arte e da psiquiatria. Noúltimo caso, assegura, não houve uma "mudança na forma como a psiquiatriaentende o doente mental (...). Mas não tenho dúvida, por outro lado, do quantoà iniciativa da doutora Nise participou historicamente disto que hoje chamamosde ‘paradigma psicossocial’ no tratamento à saúde mental. Ora, houve mesmo umamudança, mas não sei se ela se opera na psiquiatria”.

Gustavo Dionisio é graduado em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio deMesquita Filho, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É professor assistente do Departamentode Psicologia Clínica da Universidade Estadual Paulista – FCL-Unesp. É também membrodo Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos – EBEP-SP, assim como colaboracom outras instituições psicanalíticas. Também é autor dePede-se abrir os olhos. Psicanálise e reflexão estética hoje (Ed. Annablume).

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Como a arte contribuiu para o tratamento psiquiátrico, considerando o trabalhoda psiquiatra Nise da Silveira, que organizou um ateliê de pintura e modelagemcom os pacientes do Centro Psiquiátrico Pedro II?

Gustavo Henrique Dionisio – Como constatou Nise da Silveira, a potencialidade terapêutica encontrada nas atividades expressivas se revelaria desde o início de suas investigações a respeito da condição psicótica. No entanto, isso revela de fato uma constatação, ou seja, foi algo observado ao longo de sua prática no Centro Psiquiátrico Pedro II: a ideia de oferecer atividades artístico-expressivas aosseus pacientes não foi pensada de antemão. A prática surgiu de maneiraespontânea e se deu a partir de uma situação específica: ao observar o cotidianodos pacientes no hospital, que é comum passarem o dia sem nenhum tipo deatividade, ela se deparou com uma intensa vontade de expressão. O curioso paraNise era o fato de que os pacientes utilizavam qualquer coisa que tinham à mãopara preencher as paredes do hospital com escritos, desenhos, garatujas etc."Por que essa necessidade?”, ela então se perguntou. Esse foi o detalhe que a estimularia oferecer as atividades de pintura, desenho e escultura no ateliê que criaria, nos anos 1940, ali no CPPII. Com o tempo, Nise começou a observaruma melhora psíquica em alguns de seus pacientes, de modo a criar hipóteses arespeito da capacidade terapêutica da atividade que acabava de inaugurar ali.

IHU On-Line– A arte produzida pelos pacientes do Centro Psiquiátrico Pedro II foiestigmatizada? Que críticas surgiram no momento?

Gustavo Henrique Dionisio – Sim! E nãofoi pouco estigmatizada. Como constato em minha pesquisa para"O antídoto domal: crítica de arte e loucura na modernidade brasileira”, houve granderesistência diante das obras produzidas pelos pacientes. Alguns críticos nãoconcordavam com a ideia de que as imagens eram verdadeiramente artísticas, masisso se deu, sobretudo, em função da condição psicológica dos autores. Emprimeiro lugar, a resistência de boa parte da imprensa se perguntava: como taissujeitos, em condições tão degradantes, conseguiriam pintar? E mais: comoconseguiam apresentar obras que dialogavam diretamente com o meio artístico domomento, sem, no entanto serem artistas? Pois bem, essa problemáticaestimularia um largo debate sobre a "síndrome de artisticidade” das imagenssurgidas no interior do CPPII. De um lado havia parte da crítica queconsiderava artísticos os trabalhos, na qual situamos nomes comoMarioPedrosa, Sergio Milliet e Antonio Bento, críticos mais atentos à arte que lhesera contemporânea. A outra parte, contrária e mais conservadora, erabasicamente composta por Quirino Campofiorito, crítico e pintor de tradiçãonovecentista. Com efeito, ele nunca aceitaria dar caráter artístico às imagens.

IHU On-Line– A partir de que momento houve uma mudança de paradigma no sentido decompreender tais produções como arte?

Gustavo Henrique Dionisio – Não seidizer se se trata de uma questão de tempo, pois me parece que essa mudança temmais a ver com uma certa lógica. A propósito, acho muito pertinente declararisto: sem a presença de Mario Pedrosa, acredito que os trabalhos dos pacientesdificilmente teriam vindo a público. Quer dizer: Pedrosa reconheceu desde oinício o potencial artístico dos trabalhos, e para isso chegou a cunhar umtermo – "arte virgem” – que procurava circunscrever o fenômeno. Para Pedrosa,portanto, as pinturas dos pacientes do CPPII deveriam ganhar um capítulodefinitivo na história da arte moderna. Desse modo, o acolhimento às imagens foiocorrendo paulatinamente, sobretudo porque a Dra. Nise fazia questão deorganizar exposições para o conjunto dos trabalhos, ainda que nunca tenhadeclarado, a plenos pulmões, que se tratava de arte. Sua aceitação era tácita,evidentemente, mas isso ocorreu apenas acredito eu, em função de uma posição"metodológica” que ela visava afirmar. Do contrário, talvez seu trabalho (deNise) caísse totalmente em descrédito.

IHU On-Line– Pode-se dizer que, depois da introdução da produção artística e doreconhecimento destas produções como arte, houve mudanças na forma como apsiquiatria trata o doente mental? De que maneira o trabalho de Nise daSilveira, a partir da arte, trouxe elementos para pensar a reforma psiquiátricabrasileira?

Gustavo Henrique Dionisio – Essa é umaquestão muito pertinente. Acredito não poder dizer que houve uma mudança naforma como a psiquiatria entende o doente mental, não sei se é bem isso oque se deve sublinhar. Mas não tenho dúvida, por outro lado, do quanto àiniciativa da doutora Nise participou historicamente disto que hoje chamamos de"paradigma psicossocial” no tratamento à saúde mental. Ora, houve mesmo uma mudança, mas não sei se elase opera na psiquiatria... Como se sabe, a reforma psiquiátrica brasileira temlarga influência da reforma italiana, isto é, aquela iniciada com Franco Basaglia em Trieste. Isso não impediu, entretanto, que umaprática como aquela realizada por Nise no CPPII deixasse de inspirar toda umareflexão crítica a respeito do modo como a loucura é encarada em nossasociedade. Ademais, costumo defender que a abertura do Museu de Imagens doInconsciente configuraria uma pré-história de nossa reforma, ou seja, Niseteria sido uma espécie de antipsiquiatra "avant la lettre”.

IHU On-Line– O que essas obras de arte revelam sobre a loucura e sobre a subjetividade dossujeitos?

Gustavo Henrique Dionisio – Sobre a loucura de cada sujeito particular, diria que as obras não revelam nada! Com isso quero dizer que pensar na imagem como reveladora da personalidade de alguém é uma tendência já hoje bastante conhecida – como ocorreu naquela leitura que Quirino Campofiorito fez, como mencionei há pouco – que é a da patologização. A meu ver, é claro que todo trabalho artístico carrega o corpo do artista (assim como sua subjetividade, evidentemente!), não há dúvida quanto a isso; mas transformar a imagem em índice patográfico, emprova diagnóstica, é também comparar a obra com o "teste psicológico”, o que definitivamente ela não é. Essa vontade, que poderíamos chamar de umapsicologia selvagem, se revela, aliás, a prática mais comum, talvez porque nos seduza a ideia de decifrar a vida psicológica de alguém à luz do que essa pessoa faz – a propósito, publiquei recentemente um trabalho sobre esse assunto num livro chamado "Pede-se abrir os olhos. Psicanálise e reflexão estética hoje” (Editora Annablume, com auxílio da Fapesp). Nem preciso afirmar que penso de outro modo. Com isso, por exemplo, uma série de abordagens seautorizaria a dizer, sem muita dificuldade, algo aproximado disto: "se pintaassim, psicótico; se pinta assado, neurótico”, e assim por diante. Enfim, se asimagens revelam alguma coisa a respeito da loucura é porque trazem à tona algoda loucura de todos nós, humanos que somos.

IHU On-Line– Recentemente, Thomas Szasz, um dos defensores da separação entre psiquiatriae Estado, disse à IHU On-Line que loucura não é silenciada pela razão, e simpela psiquiatria. O senhor concorda?

Gustavo Henrique Dionisio – Como psicanalista, dificilmente posso concordar com a ideia de que haveria umarelação de exclusão entre loucura e razão; nada é mais absurdo. A razão, além disso, éapenas uma parte de nossa experiência psíquica. Isso que chamamos de doençamental, e que poderíamos identificar com a psicose, foi pensado por um Lacan, porexemplo, a partir de um "operador” psíquico elementar, que sobrevive ao lado dorecalcamento, algo que ele chama de "foraclusão”. Esta foraclusão, que de certa maneira procura explicar a dinâmica estrutural do funcionamento psicótico, nos habita a todos em algum momento, psicóticos ou não. Nesse sentido, concordoquando Szasz sugere que, assim como a escravidão, a psiquiatriadeveria ser abolida.

IHU On-Line– Como podemos compreender uma certa mentalidade existente em nossos diassegundo a qual a ciência é superior à arte, e esta deve estar submetida àquela?

Gustavo Henrique Dionisio – Sua questãoé muito interessante e toca num problema enorme, impossível de se esgotar aqui.Há alguns dias saiu, no jornal O Estado de São Paulo, uma bela matéria sobre asubserviência para a qual as artes foram empurradas ao longo do desenvolvimentoda ciência. Para mim, trata-se de um obscurantismo micropolítico sem igual emnossa história. Isso também carrega, mais ou menos em filigrana, outro problemabastante complexo, que é a vontade "interdisciplinar/transdisciplinar”,espraiada a torto e à direito e de cima para baixo no cenário universitário (edigo isso pensando de modo mais amplo, estrutural talvez, ou seja, nessa grandeinstituição que é o discurso universitário). A formação na fronteira dasciências é ótima, todos sabemos – é inclusive o meu caso –, mas não parece sero que se pratica majoritariamente ali. Raríssimas são as exceções. Ora,trata-se de uma condição a ser pensada incansavelmente por aqueles que habitamesse lugar, no qual também me incluo.