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Gazeta Mercantil

Arquivos do Deops vão parar na Internet

Publicado em 23 julho 2000

Por Giuliano Guandalini - de São Paulo
Um clic no mouse será o suficiente para uma viagem aos arquivos do Deops de São Paulo, a Delegacia de Ordem Política e Social, com paradas obrigatórias na ditadura de Vargas e dos militares. São 150 mil prontuários, que desde 91 pertencem ao acervo do Arquivo do Estado, mas a colossal tarefa de pesquisar a montanha, de documentos será facilitada pela informatização do material, feita por alunos de história da USP. A partir de outubro, parte dos arquivos poderá ser acessada pela Internet. especial para Gazeta Mercantil, ver mais na página 3 INTERNET ABRE ARQUIVO DO DEOPS Estudantes de história informatizam prontuários e dossiês da delegacia de repressão Os secretos arquivos da temida Delegacia de Ordem Política e Social de São Paulo, o Deops, que permaneceram confidenciais durante 70 anos, em breve serão devassados pelo menos reservado dos meios, a Internet. São 150 mil prontuários de pessoas e instituições que estiveram sob investigação, além de 6.000 dossiês temáticos, num número por enquanto incalculável de fotos e imagens. O Deops atuou de 1924 a 83. Mas seus arquivos não podiam ser consultados até 94, quando a proibição de acesso caiu, principalmente por causa da pressão dos familiares de desaparecidos políticos. Em 91 eles foram para o Arquivo do Estado. Numa parceria que envolve alunos do Departamento de História da USP, o Arquivo do Estado e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo), todas as fichas e imagens estão sendo gitalizados. Em outubro parte desse material já estará à disposição do público. "A idéia é colocar terminais no Arquivo do Estado e no Departamento de História e tornar a consulta possível pela Internet", explica Maria Luiza Tucci Carneiro, professora de história na USP e coordenadora do projeto. O projeto começou em 93, quando Tucci, como é conhecida entre os alunos, decidiu ministrar suas aulas no Arquivo do Estado. "Não existia nenhuma disciplina que levasse o aluno para o arquivo", conta. "Eles eram obrigados a aprender a fazer pesquisa por conta própria." Tarefa básica dos alunos da disciplina "História do Brasil Independente 2" é assumir um punhado de prontuários, anotar todas as informações disponíveis, listar toda a iconografia, fazer uma síntese das fichas e armazenar tudo nos computadores. Quando o arquivo informatizado estiver à disposição, a busca poderá ser feita por palavras-chave. "São todos documentos praticamente inéditos, uma fonte extraordinária de pesquisa", festeja a professora. Sua disciplina trata do período até 1950, sendo a era Vargas a mais fértil. O período posterior a 50 está sendo estudado paralelamente por outro grupo, com pesquisa num estágio menos adiantado. O trabalho já vem apresentando frutos. Os 16 alunos bolsistas escolhem um tema, para aprofundar a pesquisa e escrever um trabalho sobre o assunto. A série, organizada por Tucci, chama-se Inventário Deops. A primeira publicação foi um livro sobre a atuação policial contra os nazistas durante o Estado Novo. Agora acaba de sair o segundo volume da série. Os subversivos das Arcadas, de Viviane Teresinha dos Santos, que revela como funcionou a repressão aos alunos do Largo São Francisco na ditadura Vargas, ia estão prontos para sair em livro, sempre pela Imprensa Oficial do Estado, títulos que tratam dos imigrantes japoneses e da perseguição a artistas e intelectuais. "Ainda existe um mito muito grande, uma imagem positiva, em torno de Getúlio Vargas", diz Viviane, autora do livro sobre os alunos da Faculdade de Direito. "Os arquivos mostram que existia uma repressão organizada, e também uma resistência." Segundo Viviane, os alunos tinham um perfil liberal-democrático e se posicionaram contra o golpe que levou ao Estado Novo, em 37. Ela conta que até 42 a ação da polícia era apenas vigiar os estudantes. Mas, após a declaração de guerra contra os países do Eixo. a repressão toma-se violenta, com a prisão e tortura de líderes que defendiam a democracia. Hoje cursando o mestrado, Viviane já tem outro trabalho para ser publicado, Repressão à Italianità, sobre o combate aos fascistas. INTERVENTOR DE VARGAS DIRIGIU DANTE Fichas de imigrantes japoneses que foram presos acusados de falar japonês, italianos investigados por serem sócios do Palestra Itália, uma lista de livros proibidos por serem considerados subversivos, entre eles vários de histórias infantis de Monteiro Lobato. Os arquivos revelam que até união de namorados foi impedida. Num dos prontuários pesquisados por Viviane, está o de uma moça italiana, residente em São Paulo, que pedia uma autorização para que seu noivo, que morava no interior, pudesse se mudar para a capital. "Os italianos não podiam mudar de residência, para evitar a aglomeração em São Paulo", conta Viviane. Vargas temia que os fascistas ganhassem força. Cada imigrante possuía um salvo-conduto para uma cidade específica. "Quanto ao casamento, não há objeção, mas o pedido é inconseqüente", respondeu o Deops. Vargas tinha lá suas razões. "Várias instituições foram fascistizadas", relata Viviane. O colégio Dante Alighieri, por exemplo, foi objeto de uma investigação especial. Seus professores seriam indicados por fascistas. As crianças falavam italiano, o que era proibido. Em 43 o Dante foi invadido por ordem de Vargas, que o transformou em colégio Visconde de São Leopoldo, sob a direção de um interventor. Mais tarde o Dante reassumiria seu nome, mas o Palmeiras só é Palestra Itália na memória. Os estudantes de direito não sofreram a mesma perseguição, mas, em 43, com o recrudescimento de discursos democráticos, a repressão se intensifica. A violência culmina na Chacina de 9 de Novembro. Impedidos de realizar um comício, eles fizeram a ''passeata do silêncio". Liderados, entre outros, por Hélio Mota, presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, seguiram até a Praça do Patriarca, encontrando uma multidão. Foi impossível ficar calado. Entre vivas pela democracia começou o confronto com a polícia, que terminou com dois populares mortos a tiros e vários feridos. No relatório, os policiais culpam os estudantes pelo incidente, por terem desrespeitado a ordem.