Notícia

Tribuna do Norte (Natal, RN)

Arquiteto critica exclusão dos pobres pelo urbanismo brasileiro

Publicado em 26 outubro 2000

O arquiteto e sociólogo Nestor Goulart Reis fez ontem críticas ao modelo de urbanização experimentado pelas cidades brasileiras durante o século XX. O modelo de urbanização do Brasil retroagiu em relação ao período colonial, conta Goulart, que proferiu ontem, no Auditório da Reitoria da UFRN, a palestra imagens de Vilas, e Cidades do Brasil Colonial, dentro da programação da 6ª Semana de História da Cidade e do Urbanismo, promovido pelo Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN. Até o século 18, diz o arquiteto, baseado em pesquisa realizada por durante 40 anos, os projetos de urbanismo das cidades e vilas brasileiras previam habitação para famílias muito pobres. "Hoje, a população menos favorecida vive excluída em favelas", diz Goulart, lembrando que a favelização é um fenômeno urbanístico próprio do século XX e dos países do terceiro mundo. Segundo o arquiteto, até o ano de 1850 as câmaras municipais brasileiras detinham lotes de terras as quais eram disponibilizadas para as classes pobres. A norma prescrevia, porém, que o cidadão requeria o lote e tinha de construir a casa no prazo máximo de um ano e um dia após a solicitação. A inserção das classes menos favorecidas nos projetos de urbanização das cidades repercutia, segundo Goulart, sob a dinâmica social. "Note que enquanto os pobres estavam incluídos nos projetos urbanísticos, não havia a violência que existe hoje nas cidades brasileiras", ressalta o arquiteto. Apoiado no trabalho Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial, pesquisa que rendeu a publicação de um livro, um cd rom mais urna serie de pôsteres que caracterizam o processo de urbanização brasileiro nos primeiros 300 anos. Goulart tira dos portugueses a pecha de não ter realizado um projeto de urbanismo em suas cidades e vilas. O traçado urbanístico da Cidade Alta de Natal é um exemplo, que segundo o arquiteto, prova a preocupação dos portugueses no processo de povoação das cidades. Para o arquiteto, o fato da Cidade Alta ter sido povoada no alto de uma colina e ter no seu centro uma praça e uma igreja mostram o projeto do urbanista Diogo de Campas Mourão - que reproduz aqui em Natal o povoamento de Lisboa, Portugal. O projeto Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial teve o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Ministério da Educação e Cultura (Minc).