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Revista aU

Arquiteto brasileiro estuda formas de aproveitar os espaços "vazios" em comunidades urbanas

Publicado em 17 março 2017

Declarado como Embaixador no Brasil do LafargeHolcim Awards, Eduardo Pizarro, doutorando pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), ganhou o primeiro prêmio do LafargeHolcim Forum Student Poster Competition em 2016 com uma pesquisa que utiliza espaços vazios na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, para a construção de áreas mais sustentáveis.

O levantamento considera, principalmente, dois locais: os becos e vielas e as lajes. “[As lajes] podem ser conectadas em si, receberem coberturas retráteis e adaptáveis que permitam seus diferentes usos, serem pintadas com cores claras para ajudar no conforto térmico dos ambientes internos abaixo dela, servirem como espaço para cultivo de legumes e vegetais com reuso de água de chuva. São múltiplas as possibilidades de intervenção, de forma articulada, em diferentes escalas”, explica Pizarro.

Para os becos e vielas, o arquiteto defende a criação de espaços públicos que atraiam as pessoas, com "a presença de aberturas (janelas, portas, bancas e vitrines), espaços para sentar e se recostar (bancos, degraus, arcadas, muretas), diferentes níveis, pontos focais e hierarquia espacial". Veja mais sobre o projeto em entrevista abaixo.

Eduardo Pimentel Pizarro comenta o impacto que o prêmio LafargeHolcim trouxe para sua pesquisa. “Após a premiação, a pesquisa e seus resultados foram amplamente divulgados por meio de publicações, entrevistas, passei a receber e-mails de estudantes interessados em conhecer mais e contribuir. De fato, a pesquisa rompeu os muros da Academia e chegou às pessoas, fomentando sua discussão e aplicação”, disse.

As inscrições para o prêmio desta edição vão até a próxima terça-feira (21) e deverão ser feitas em inglês clicando aqui. O prêmio procura reconhecer inovações com alto potencial para proporcionar soluções na qualidade de vida na urbanização.

Entrevista – Arquiteto e Urbanista Eduardo Pizarro

Quais novos insights surgiram a partir dos desdobramentos do projeto para o doutorado, desde a sua proposição na pesquisa de mestrado?

O doutorado se lança à procura de um futuro alternativo à cidade de São Paulo como um todo, a ser planejada, projetada e construída a partir do espaço entre as edificações (interstícios urbanos) de modo a constituir efetiva infraestrutura urbana. A principal contribuição da pesquisa de mestrado para a de doutorado é a comprovação dos potenciais morfológicos, urbanos e ambientais dos espaços intersticiais da favela. Apesar da carência de infraestrutura das favelas, muitas das respostas que buscamos para repensar a dita “cidade formal” estão na “cidade informal”, construída à revelia das regulações urbanísticas. A questão, portanto, é como planejar a cidade como um todo (formal + informal) levando em conta a criação de espaços intersticiais positivos, e não a simples justaposição de objetos (edifícios).

Qual o atual status da sua pesquisa de doutorado? Quando será concluída? Qual o objetivo final?

O doutorado está ainda em desenvolvimento, foram concluídas as etapas de embasamento teórico (conceitos e métodos científicos) e de trabalho de campo (análise da situação existente de alguns estudos de caso na cidade de São Paulo, como a favela de Paraisópolis, entorno da Avenida Paulista e do Minhocão). Nos próximos meses, a pesquisa será desenvolvida na ETH Zurich (uma das melhores faculdades de Arquitetura e Urbanismo do mundo) para aprofundamento do método de avaliação e proposição, com financiamento da FAPESP. Até 2018 a pesquisa será concluída, culminando em um conjunto de instrumentos de planejamento e estratégias de desenho urbano para a proposição de futuros alternativos à cidade de São Paulo, pensada a partir de seus espaços intersticiais.

As medidas de transformação dos interstícios e manutenção dos lares podem ser implementadas em outras favelas ou são condições muito específicas de Paraisópolis?

Paraisópolis é um caso singular, por seu contingente populacional (100 mil habitantes), por sua inserção territorial (no bairro nobre do Morumbi) e por seu processo de ocupação (a partir de uma malha ortogonal viária pré-existente). De qualquer forma, toda intervenção deve levar em conta o contexto local. Ao mesmo tempo, a replicabilidade é parâmetro importante de projeto. Portanto, posso dizer que, uma vez adaptada e aclimatada a contextos similares (de favelas com alta densidade e nível de consolidação em clima quente) a estratégia pode guiar intervenções em outras comunidades informais. Vale destacar que a proposta parte do entendimento das dinâmicas fundamentais de uso e expansão de espaços construídos e não-construídos em favelas, que são, de forma geral, muito similares de comunidade para comunidade.

Quais são as condições para viabilizar a implantação do projeto?

A implantação da estratégia de redesenho dos interstícios urbanos da favela de Paraisópolis como infraestrutura qualificadora depende de projetos complementares e de parcerias entre poder público, privado e comunidade. Já as estratégias em pequena escala são de mais fácil implementação. O próximo passo planejado é o de intervir na realidade, por meio de protótipos. Este ano, como parte da XI Bienal de Arquitetura de São Paulo, serão realizadas oficinas com moradores de Paraisópolis e estudantes de arquitetura e urbanismo para a intervenção em casas e espaços intersticiais de Paraisópolis. Em paralelo, o objetivo é desenvolver uma cartilha mais precisa e detalhada que possa guiar os moradores no momento de construir ou reformar suas casas e espaços compartilhados com maior qualidade ambiental e urbana.