Notícia

Revista Globo Rural

Aroma sustentável

Publicado em 01 fevereiro 2007

Ao longo do século 20, um gigante de cerca de 30 metros quase desapareceu da floresta amazônica, seu hábitat natural, O pau-rosa, árvore cujo tronco fornece um óleo essencial apreciado em todo o mundo — o linalol —, enfrentou uma corrida por sua extração que se iniciou nos anos 1930 e só começou a cessar em 1992, quando o lbama o colocou na lista de espécies ameaçadas é de extinção.
Como a derrubada da árvore foi proibida, houve a necessidade de se buscar novas formas de obtenção do óleo, por é conta da grande demanda da indústria, O linalol é matéria-prima em mais de 70% de perfumes e aromas — tudo o que lembra flores acaba levando essa substância. Já se conseguiu obter o linalol sintético, até relativamente barato, mas que se presta apenas para xampus e sabonetes. A é perfumaria fina exige mesmo o produto natural, que é cinco vezes mais caro.
Além do pau-rosa, no entanto, uma série de outras plantas são também potenciais fontes naturais de linalol. Foi o que estimulou o pesquisador Nilson Bolina Maia, do IAC — Instituto Agronômico de Campinas, em São Paulo, a estudar possíveis substitutos para a árvore amazônica. Em 1999, Maia fez um trabalho científico para determinar o teor do óleo em cerca de 20 espécies, mas uma delas chamou mais a atenção: o manjericão. O motivo foi seu potencial agronômico. "Não adianta ter um óleo muito bom sem ter condições de cultivar a planta em grande escala" diz.
A concentração de óleo no manjericão é de 0,2%, sendo que 40% desse volume é de linalol. No tronco do pau-rosa, há mais de 1% de óleo, com mais de 80% de linalol. "Porém, enquanto essa árvore demora mais de 200 anos para crescer após o corte, e não permite o replantio, o manjericão pode ter até três cortes num ano, com produtividade por hectare muito boa", afirma o pesquisado.
Entusiasmado com os resultados, Maia enviou sua pesquisa ao Congresso Internacional de Horticultura, e o projeto teve apresentação destacada entre mais de 600 trabalhos sobre plantas aromáticas. O estudo apareceu nos jornais e despertou interesse do empresário paulista José Roberto Gonçalves, que vislumbrou uma oportunidade de negócio. "Conseguimos obter um financiamento da Fapesp, através de um programa que apóia pesquisas inovadoras de pequenas empresas", diz.
Maia e Gonçalvez passaram a trabalhar em conjunto. A decisão seguinte foi escolher o local para estabelecer a fábrica, que levou o nome de Linax. "Era importante que fosse uma região sem muitas opções agrícolas e onde a cana não tivesse chegado com intensidade", conta o empresário. A cidade de Votuporanga, a 547 quilômetros de São Paulo, mostrou-se interessante e logo reuniram três produtores para o cultivo do manjericão.
Segundo o pesquisador do IAC, é essencial que os agricultores que fornecem a matéria-prima estejam próximos à fábrica, pois o raio econômico para o transporte de folhas é de 30 quilômetros.
A Linax trabalha com capacidade produtiva de cerca de três toneladas de linalol ao ano. Em 2006, já foram feitas vendas do óleo no mercado interno. "O produto já foi aprovado tecnicamente pelas maiores multinacionais que operam no setor e está em vias de ser comercializada" diz Maia. O óleo de manjericão bruto também é de ótima qualidade — o que interessou uma empresa canadense, que vem adquirindo o produto desde o início dos primeiros pilotos da fábrica.
A empresa tem como perspectiva a produção de uma substância aromática usada como fixador de fragrâncias, o safrol, a partir da planta invasora pimenta longa. O safrol era tradicionalmente extraído da canela-de-sassafrás, cuja exploração foi proibida pelo Ibama por colocar a espécie em risco.