Notícia

Jornal da Tarde

Argentino já garantiu 'alívio imediato da dor'

Publicado em 29 junho 2003

O neurocirurgião argentino Marcelo Buccari usou a seringa com polímero líquido em quinze pacientes. Em alguns, o polímero, injetado pelas costas, preencheu fraturas em vértebras e solidificou-se em quarenta minutos. "Com isso dá-se a fixação das fraturas e tem-se o alívio imediato da dor." O paciente, como se vê no texto de abertura desta matéria, sai andando, curado, em seis horas. Marcelo mora e trabalha em Rafaela, a 500 quilômetros de Buenos Aires. O JT o entrevistou no campus da USP em São Carlos, interior de São Paulo, onde esteve esta semana. Diz que, antes de usar o polímero, empregava cimento metilmetacrilato para injetar. "Mas o cimento é inerte, não se intera com o osso", diz o médico. "Outro problema é que, quando injetado, fica muito quente, chega a 70 e até 90 graus centígrados. Isso causa a morte de células do paciente." O médico também usou o polímero injetado para preencher vazios surgidos em ossos da coluna. Esses vazios são causados por osteoporose, doença que rarefaz os ossos, ou por acidente. O material injetado preencheu integralmente o vazio, solidificou-se e tomou o lugar da porção de osso que faltava. Em outra situação, Marcelo operou pacientes com hérnia de disco. O problema estava em um dos discos da coluna cervical. Na cirurgia, o médico retirou o disco e o substituiu por um inserto, uma pecinha feita com o polímero, que funcionou como um calço. "Fiz mais de cem operações dessas, todas com sucesso", diz o neurocirurgião. Em outro tipo de operação, o médico usou, para trocas na coluna, um polímero poroso. "Quando é poroso, o osso que fica em contato com a peça invade os poros dela. Com isso, integra o polímero ao osso." Marcelo diz que avaliou pacientes deste caso, quatro anos depois da operação. "Em todos, vimos que tinha ocorrido a integração." EUA TAMBÉM DESENVOLVERAM O POLÍMERO. ONZE ANOS DEPOIS Uma noticia vinda dos Estados Unidos, na semana passada, dizia que uma empresa americana havia desenvolvido uma nova tecnologia no campo da ortopedia. Criara "um polímero (um plástico) que serve para produzir um material tão forte como o osso, mas que pode ser absorvido pelo corpo e substituído por tecido ósseo verdadeiro". Em princípio, muito parecido com o que Gilberto Chierice descobriu em 1992 e está sendo usado desde então. Gilberto é professor do Departamento de Química e Física Molecular da USP, campus de São Carlos. Não se preocupou em comentar a notícia sobre o invento americano. O polímero americano, ao que tudo indica, é feito de cerâmica O de Gilberto, como se viu, de mamona. O cientista brasileiro teve dificuldade para interessar empresas a produzir as peças feitas com o polímero. Em 1996, criou uma pequena empresa, a Poliquil, com três sócios, em Araraquara, próxima de São Carlos. A Poliquil trabalha de acordo com o volume de encomendas. Produz 300 itens, de próteses a membranas para reparar fraturas de ossos do rosto. Sua clientela são médicos de Estados brasileiros e da Argentina. Agora, a empresa fechou parceria com empresários americanos. O FDA, órgão do governo dos Estados Unidos que controla os remédios, aprovou os produtos da empresa. O registro deve sair no mês que vem Na fábrica, esta semana, seringas contendo polímero líquido estavam sendo embaladas para remessa aos Estados Unidos, junto, vão saquinhos com cálcio. As seringas são, na verdade, jogos com dois tipos de polímero líquido. Misturados entre si, e com o cálcio, resultam em uma pasta destinada a aplicação em fraturas. A pasta endurece e, com o tempo, é incorporada ao osso. O engenheiro Antonio Carlos Rossi, um dos sócios, diz que a empresa vai começar a trabalhar com estoque mínimo. E tem planos para ampliação da fábrica.