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Aranha-marrom identifica pontos fracos de presa e ataca com "golpe de judô"

Publicado em 23 fevereiro 2015

Por Elton Alisson, da Agência FAPESP

O revestimento espesso e rígido que recobre o corpo de alguns artrópodes (como insetos, crustáceos e aracnídeos) não funciona como uma armadura muito eficiente para o opilião Mischonyx cuspidatus se safar do ataque de uma aranha-marrom (Loxosceles gaucho).

Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), em colaboração com colegas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), de Minas Gerais, demonstrou que a aranha-marrom é capaz de identificar regiões vulneráveis do corpo do Mischonyx cuspidatus, onde o exoesqueleto é mais flexível, para matar e devorar a presa.

"Constatamos que a aranha-marrom consegue evitar a armadura do opiliãoMischonyx cuspidatus, identificando as regiões do corpo da presa mais vulneráveis e conseguindo, dessa forma, perfurá-lo mais facilmente", disse Rodrigo Hirata Willemart, professor da EACH-USP e coordenador do projeto.

Os opiliões são aracnídeos da ordem Opiliones. A subordem mais comum no Brasil é a dos Laniatores, ao qual pertence a espécie Mischonyx cuspidatus.

De acordo com Willemart, eles têm diferentes estratégias de defesa para se desvencilhar de um ataque dessas aranhas -- um de seus predadores, ao lado de algumas aves, mamíferos e anfíbios, entre outros animais. Uma delas é a liberação de secreções com cheiro forte, nas formas de gota ou em jato para afugentar o predador.

Os pesquisadores brasileiros descobriram, contudo, que essa estratégia de defesa química raramente é usada por alguns opiliões da subordem Laniatores contra espécies de aranhas da família das armadeiras, como a Enoploctenus cyclothorax e a Ctenus ornatus.

A hipótese levantada era a de que os opiliões Laniatores, por possuir um exoesqueleto rígido, já tivessem proteção contra as aranhas. Usar secreções contra esses predadores já tendo essa "armadura" talvez representasse um desperdício de "arma química", com provável alto custo de produção para o aracnídeo, avaliaram.

Para entender como a aranha-marrom supera as defesas de uma presa com uma armadura tão blindada, como o exoesqueleto do opilião, os pesquisadores gravaram vídeos e descreveram o comportamento do aracnídeo ao atacar a presa.

Segundo Willemart, inicialmente, a aranha-marrom se aproxima devagar e com cuidado do animal, tentando se colocar sempre na frente da presa para evitar a fuga.

Ao cercá-lo, a aranha começa a tatear o opilião repetidamente com as pernas, possivelmente procurando áreas vulneráveis e evitando se aproximar muito do corpo do aracnídeo, que também possui quelícera e espinhos afiados nas pernas.

Se o opilião fica imóvel ou movimenta-se pouco, a aranha-marrom pode aplicar um golpe que configuraria um ippon, no judô, em que o derruba de costas no chão.

Em seguida, desfere uma série de picadas venenosas nas articulações e nas partes distais das pernas (a porção mais afastada do corpo) -- as regiões em que o exoesqueleto é mais mole para permitir a movimentação do aracnídeo.

"Analisamos 176 picadas desferidas por aranhas-marrons em opilões durante o estudo e em 100% dos casos elas ocorreram nas articulações ou nas partes distais das pernas", afirmou Willemart.

Em nenhum dos ataques, os opiliões liberaram secreções químicas contra as aranhas-marrons.

Uma hipótese para explicar a decisão de não usar a defesa química é que os opiliões evitam utilizar as secreções defensivas contra aranhas, de forma geral, uma vez que, aparentemente, podem se proteger do ataque da maioria delas apenas por meio do exoesqueleto rígido.

Mas não contam com as habilidades da aranha-marrom de identificação dos "pontos fracos".

"A aranha-marrom tem uma estratégia de caça de opilião que, em comparação com as usadas por outras espécies de aranhas, como algumas que pertencem ao grupo das armadeiras, funciona muito melhor", disse Willemart.

"É como se as aranhas-marrons fossem lutadoras estrategistas, que exploram os pontos fracos dos oponentes, e as aranhas do grupo das armadeiras, lutadoras de rua, que atacam o opilião sem a técnica adequada", acrescentou.

Os pesquisadores pretendem estudar, agora, se outros artrópodes com exolesqueleto rígido geram respostas similares ao serem atacados tanto por aranhas que caçam, como as do grupo das armadeiras, e por aranhas-marrons.

Resultados da pesquisa, realizada no âmbito do projeto "Comunicação química em opiliões (Arachnida, Opiliones): morfologia, comportamento e química", com apoio da Fapesp, foram descritos em um artigo que acaba de ser publicado na versão on-line da revista Animal Behaviour, da editora Elsevier.

O texto na íntegra da Agência Fapesp pode ser lido aqui.