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A Tribuna (Santos, SP) online

Aquecimento global

Publicado em 14 abril 2006

Efeitos e alterações dos níveis do mar — que, em seu ritmo normal, levariam 40 mil anos para serem sentidos no planeta — poderão ser percebidos já de forma significativa nos próximos 40 anos, por influência do aquecimento global, provocado principalmente pela ação degradativa do homem.
A premissa, que pode parecer mais alarmista do que realmente se propõe, faz parte das conclusões dos pesquisadores da Divisão de Sensoriamento Remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre uma simulação, promovida pelo departamento, da subida do nível do mar (tipo enchente) na Ilha de Marajó (veja o mapa com a simulação) situada no Estado do Pará, no Norte do País.
Por conta da correlação geológica com aquela ilha paraense, Santos e Guarujá, na Baixada, também sentiriam as consequências da elevação do nível do mar.
''Nosso objetivo neste simulado foi avaliar o impacto das transformações no ambiente, provocadas principalmente pelo aquecimento global'', comentou o pesquisador do Inpe, Paulo Roberto Martini. Os cientistas do instituto, que é um órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, utilizaram imagens do satélite Landsat para calcular a simulação.
''O simulado teve como base vários estudos sobre mudanças climáticas, divulgados no final de março pela revista Science (uma das mais respeitadas do mundo científico), que indicam uma elevação mais rápida do que o previsto do nível do mar'', disse ainda Martini.
Em uma primeira projeção, os pesquisadores calcularam um aumento de dois metros no nível do mar na ilha e descobriram que, se isso acontecesse realmente, 28% de seu território desapareceria no oceano. Caso o aumento chegasse aos seis metros, 36% de Marajó seria inundada.

Altitude baixa
Para prever o nível de inundação nestes diferentes cenários, foram utilizados dados dos estudos Modelagem de dados topográficos SRTM (Projeto CNPq) e Integração de dados biológicos e geológicos no baixo Tocantins-Ilha do Marajó: chave na análise da biodiversidade (Projeto FAPESP).
''A Ilha de Marajó foi escolhida porque tem altitude muito baixa de modo geral, sobretudo na costa leste, que apresenta numerosos paleocanais com amplitude muito pequena, entre dois e quatro metros'', emendou Martini.
As análises do Inpe apontaram que Marajó preservou mais de uma linha ancestral de costa, devido a eventos passados de transgressão e regressão marinha. Com isso, a perspectiva de elevação dos níveis do mar deve manter o estabelecimento de uma nova costa e a ilha poderá sofrer uma rápida transformação no seu desenho.
''Estes resultados, obtidos por análise nesta área de dados do radar SRTM (Shuttle Radar Topographic Mission NASA), que é topográfico, ficaram evidentes porque em Marajó há uma cobertura vegetal esparsa e com ausência quase total de construções''.
Ou seja, não dá para comparar com áreas urbanas e densamente florestadas, como muitas outras regiões do litoral do País. Entretanto, outras cidades litorâneas — como Santos e Guarujá, na Baixada Santista; Caraguatatuba e São Sebastião, no Litoral Norte do Estado, e Vitória (ES) — têm o que os pesquisadores chamam de correlação geológica com a Ilha de Marajó.