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Agência C&T (MCTI)

Aquecimento comprometerá espécies de árvores na mata atlântica

Publicado em 01 janeiro 2008

Tamanho do texto (somente para monitor): Aumentar Diminuir Imprimir Enviar por e-mail Dezenas de espécies de árvores da mata atlântica poderão ter sua sobrevivência comprometida pelo aquecimento global nas próximas quatro décadas - inclusive aquelas que estão dentro de unidades de conservação, segundo um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa é uma das primeiras a avaliar o impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade do bioma, considerado um dos mais ameaçados do mundo. O pesquisador Alexandre Colombo analisou a área propícia de ocorrência de 38 espécies arbóreas da mata atlântica, levando em conta condições ideais de temperatura e precipitação. Depois, lançou sobre elas as previsões do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima (IPCC) para o ano 2050.

No cenário mais otimista, com aumento de temperatura menor ou igual a 2°C, quase todas as espécies (37) deverão perder, em média, 25% das áreas hoje propícias para sua sobrevivência. Uma única espécie seria beneficiada, com um pequeno ganho de 8% de área. No cenário mais pessimista, com aumento menor ou igual a 4°C, todas as 38 espécies sofreriam uma redução média de 50% de sua área potencial de ocorrência - um duro golpe para um bioma que já teve 93% de sua cobertura florestal devastada. "Todas as espécies, nos dois cenários, sofrem um deslocamento para o sul do País, em direção a áreas mais frias", afirma Colombo, que defendeu o trabalho como sua tese de mestrado no Instituto de Biologia da Unicamp. "O impacto não será catastrófico, mas será grande. Nossos filhos verão a mata atlântica, mas ela não será a mesma que vemos hoje."


Fragmentação

O estudo é conservador, pois se baseia na área potencial total de ocorrência das espécies, e não na área real de ocorrência atual - muito menor, já que a maior parte do bioma não existe mais. As florestas que sobraram estão fragmentadas, separadas por cidades, pastos e plantações. Por causa disso, aponta Colombo, muitas espécies estão "ilhadas" e não serão capazes de fazer as migrações necessárias naturalmente.

A solução seria recompor áreas degradadas e estabelecer corredores florestais, para que sementes de espécies pressionadas se dispersem para áreas de clima mais favorável. O Parque Estadual da Serra do Mar, maior unidade de conservação da mata atlântica, no litoral paulista, é um dos que deverá sofrer com a mudança do clima. "A Serra do Mar poderá ser bastante afetada pelo fato de a maioria das espécies ser típica daquela região e se estabelecer em uma faixa de terra muito estreita e intimamente ligada à altitude", avisa Colombo.

Os modelos ainda precisam ser refinados, especialmente com relação aos mapas de temperatura, mas já dão uma idéia de como a mata atlântica poderá reagir (ou sucumbir) ao aquecimento global A pesquisa faz parte de um grande projeto temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), chamado Biota Gradiente Funcional, iniciado em 2005.

O programa busca justamente entender a composição, a biologia e a ecologia das florestas no Parque Estadual da Serra do Mar, assim como sua relação com fatores climáticos. Um dos destaques do projeto é uma torre de pesquisa de 60 metros de altura, que entrou em operação em novembro. Equipada com diversos instrumentos, ela permitirá aos cientistas acompanharem em tempo real o "metabolismo" da floresta, como absorção de carbono, produção de vapor d'água e variações de temperatura.(AE)