Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Aquecedor abre caminho à vila solar

Publicado em 12 junho 2008

Por Lu Dressano

Os primeiros modelos do aquecedor solar de baixo custo (ASBC) foram instalados em Campinas, na Vila Brandina, entre setembro e dezembro do ano passado. Com patrocínio do Instituto HSBC Solidariedade, a Organização Não-Governamental (ONG) Plantando Paz na Terra facilitou a difusão inédita da consciência ecológica numa comunidade de baixa renda. Quarenta moradias receberam o equipamento, que possibilita uma economia entre 30% e 35% na conta de luz. A iniciativa transformou-se no Projeto Aquecendo-se com o Sol e o trabalho da ONG ganhou o título de Centro de Referência Solar, concedido pelo pesquisador e idealizador da proposta popular, o professor Julio Roberto Bartoli, da Universidade de São Paulo (USP-SP). “Com esse incentivo, o nosso desejo é transformar essas moradias na primeira vila solar”, diz a arquiteta voluntária e coordenadora do projeto, Marília Ferraz Ribeiro.

Ao difundir a consciência ecológica entre os moradores da vila, apareceram os primeiros resultados. “A energia limpa gera inclusão social, diminui o custo e consumo da energia elétrica e ajuda no combate ao aquecimento global”, explica a presidente da ONG, Paola Sierra. A proposta trouxe até inovação tecnológica. Segundo a arquiteta voluntária, um registro artesanal para água quente foi criado por um participante do primeiro curso. “Isso demonstra o fortalecimento da organização comunitária e a solidariedade entre moradores”.

O ASBC é todo em PVC (a caixa d’água, as placas e os canos) e a água fica aquecida no máxima a 42° centígrados, sem precisar utilizar tubos de cobre ou aquatermi (tubulação específica para água aquecida). Com uma caixa d’água de 300 litros, é possível atender uma família com até seis pessoas. Esse sistema popular custa R$ 550,00. No mercado convencional, um modelo similar sai por R$ 950,00. Já aqueles que usam os coletores em vidro, boiler e tubulação específica (cobre ou aquatermi) custam em média R$ 3,5 mil.

No primeiro curso para capacitar mão-de-obra especializada para a instalação dos aquecedores, no ano passado, 20 moradores foram contemplados e 40 moradias receberam a opção ecológica. Desses participantes, cinco serão monitores no segundo curso a ser oferecido. As inscrições já estão abertas para 15 vagas e os participantes terão a garantia do aquecedor instalado na própria casa ou na casa indicada. “Nós ganhamos um prêmio do HSBC Solidariedade para dar continuidade ao projeto”, diz a arte-educadora voluntária Neide Mafra. Ela conta que a ONG se organiza para a criação de uma escola para capacitar, construir e instalar o ASBC em toda a comunidade. “Queremos atingir o jovem de 14 a 17 anos, uma faixa etária descoberta aqui na vila. Trata-se de uma demanda que necessita de opções e o aquecedor pode ser uma.”

Enquanto não consegue atingir a faixa etária desejada, o Projeto Aquecendo-se com o Sol se organiza para mais uma capacitação. Com três meses de duração, o curso será dividido em duas fases. Na primeira, os participantes cumprem um programa de educação ambiental para depois receberem as informações técnicas. Um dos critérios adotados para a instalação dos primeiros ASBC foi colocar a caixa d’água sobre uma laje. Como na prática isso nem sempre é possível, devido às construções existentes na vila (a maioria sem laje), a saída foi construir uma torre de alvenaria, ao lado da casa, num espaço de um metro quadrado. Nesse espaço ficam as placas (três em média), a caixa d’água e os canos para hidráulica.

E nos dias sem sol? Um dimer ajuda a manter a temperatura da água em dias frios ou nublado, pelo tradicional sistema elétrico. A arquiteta diz que só com o regulador de temperatura já se consegue uma economia de 10% no consumo de energia elétrica. “O sol promove o movimento da água e o aquecimento se faz naturalmente”, diz José Eduardo Mafra, físico aposentado e consultor organizacional voluntário na ONG. Mafra, junto com sua mulher, querem tornar realidade o sonho da escola profissionalizante. “A nossa intenção é estruturar uma linha de montagem e criar condições para produção em série e, assim, transformar o local em uma vila solar.” Para isso, precisam produzir e instalar 600 aquecedores. a estimativa é de que na Vila Brandina existam 850 casas.

Os moradores

Aurinda e Antonio Neves de Almeida Rocha moram há 30 anos na Vila Brandina. O casal foi contemplado com o aquecedor solar de baixo custo, na primeira fase da implantação. A mulher, de 60 anos, conta que já tinha visto a opção na casa de um padre. Segundo ela, “a água aquecida pelo sol é melhor para a pele”. Mas o maior benefício parece ser mesmo a economia em dinheiro. O valor da conta de luz de R$ 120,00 agora fica entre R$ 80,00 e R$ 90,00. Juanira Souza Silva também fala da economia. Ela gastava R$ 60,00 e hoje, com o ASBC, o valor é de R$ 45,00. “A água é muito mais quente. É preciso misturar com a água gelada, aí fica bom”, diz.

Jairo Rodrigues Alves, pedreiro, será um dos cinco monitores no segundo curso a ser oferecido na Brandina. Ele resume o sistema. “É ótimo, barato e traz economia. Não tem ponto negativo.” Mas o pedreiro vai além. “Ganhei o aquecedor e também aprendi muito. Até fazer o curso eu não tinha consciência nenhuma. Trazia até resto das construções onde trabalhava e jogava aqui perto de casa. Eu mesmo sujava o lugar onde eu moro.” Na condição de monitor, o pedreiro quer repassar os conhecimentos adquiridos e também quer ajudar a passar uma mensagem consciente. “Todos precisam ajudar a cuidar das coisas onde moram. Assim, um ajuda o outro e todos se ajudam”, diz.

Saiba mais

O aquecedor solar de baixo custo (ASBC) é resultado de um trabalho de pesquisa coordenado pelo professor Julio Roberto Bartoli, da USP-SP. O produto foi desenvolvido na Sunpower Engenharia Ltda, uma empresa encubada do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) do Instituto de Pesquisas Energéticas (Ipen), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O professor orientou a pesquisa e transferiu a tecnologia para a ONG Sociedade do Sol, de São Paulo, sediada no Ipen. Essa ONG difunde em sua página na internet a maneira como construir o coletor, por meio de bricolagem (faça você mesmo). Uma cartilha detalhada está disponibilizada no endereço eletrônico www.sociedadedosol.org.br

Esse tipo de aquecedor despertou o interesse de pesquisa para várias defesas de tese na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Até um minicurso para treinamento, construção e instalação do sistema já foi desenvolvido pelo Departamento de Tecnologia de Polímeros da Unicamp, em março deste ano.

Os primeiros protótipos do equipamento foram idealizados e construídos no Centro de Incubação Tecnológica Cietec-Ipen-USP, entre 1999 e 2000. Para fazer uma comparação, o chuveiro elétrico corresponde entre 20% e 35% do gasto de energia em uma residência.

ONG visa preservar nascentes

A ONG Plantando Paz na Terra nasceu com um programa para revitalizar parte da antiga Fazenda Mato Dentro, em 1999 (a associação foi instituída em 2002). A entidade engloba bairros como a Vila Brandina, Palmeiras-Hípica, Instituto Biológico e o Parque Ecológico Monsenhor José Salim, na região Leste de Campinas. É uma área do Estado com 74 mil metros quadrados, mais 110 hectares do parque. A proposta da ONG é preservar as nascentes do córrego Mato Dentro, um importante formador do Ribeirão Anhumas. Na última área verde urbana de Campinas, a ONG atua em meio a contrastes sociais, econômicos e ambientais.

A associação desenvolve desde 2002, com a participação da comunidade da Vila Brandina, o programa-piloto de um Centro de Convivência e Aprendizado chamado Cidade Internacional da Paz (CIP). A proposta é formar um núcleo de educação socioambiental. (LD/AAN)