Notícia

Carta Fundamental

Aprender com as crianças

Publicado em 01 outubro 2011

Caro professor,

Todos sabemos que estamos sempre aprendendo uns com os outros. Mas, quando nossa função é dar aulas e transmitir conhecimentos profissionalmente, às vezes esquecemos que as crianças também podem nos ensinar. Não apenas porque estão descobrindo o mundo, com um olhar novo, capaz de evitar visões desgastadas e viciadas - às vezes carregadas de preconceitos. Mas também porque, ao trazerem um peso menor da carga pesada de outros tempos, podem estar mais adaptados ao dia de hoje e, principalmente, ao de amanhã.

Isso é algo que todos os adultos reconhecem ao ver uma criança lidar com as novas tecnologias, por exemplo - desde acertar um relógio digital a explorar as possibilidades dos telefones celulares. E compreensível. Por um lado, nasceram num mundo em que tudo isso já faz parte do cotidiano. Por outro lado, e em consequência disso, não se deixam intimidar pelo medo de quebrar algum mecanismo delicado. Partem logo para a atitude exploradora que já foi chamada de pedagogia do futuca: levam muito adiante o sistema de tentativa e erro e vão apertando botões, tocando a tela, mexendo em tudo até que surja a descoberta do que buscavam. Pelo caminho, descobrem muito mais.

Mas há outros aspectos. Há pouco tempo, conversando com Ruth Rocha e outros autores de literatura infantil, nos demos conta de que, desde a década de 1990, quando o governo começou essa política de distribuição de livros nas escolas públicas, houve uma mudança nas cartas de leitores que recebemos. Principalmente na virada do milênio, com os quatro anos do projeto Literatura em Minha Casa, que, além de reforçar as bibliotecas escolares, dava coleções de livros de qualidade, de gêneros variados, para que os alunos da quarta série levassem para casa. E lá, no ambiente familiar, essas obras começaram a ser lidas por todos. O que notamos é que mães, pais e avós começaram a escrever para os autores comentando os livros que a garotada lhes apresentara. Em muitos exemplos, eram os únicos livros da casa. Com frequência, os primeiros daquela família - o que não é de estranhar, considerando que os índices de analfabetismo brasileiro sempre foram vergonhosos e apenas naquela mesma década de 1990 conseguíamos garantir matrícula para 98% das crianças em idade escolar.O fato é que, para nós, autores, esse momento trouxe reações emocionantes, testemunhos do encontro de leitores e livros. Algumas crianças liam as histórias em voz alta para avós que não sabiam ler. Tivemos a comprovação de que o poder da escola e da educação alcança muito longe.

Agora surge outro belo exemplo na área de saúde. A Fapesp divulgou uma pesquisa mostrando que a ação das crianças pode reduzir riscos cardiovasculares dos pais. Luciana Savoy Fornari, da equipe do cardiologista Bruno Caramelli, do Instituto do Coração da USP, constatou que por meio de um programa educacional infantil é possível diminuir muito o risco de que seus pais apresentem doenças relativas ao coração. O programa é multidisciplinar e foi testado em Jundiaí.

Alunos entre 6 e 10 anos foram separados em dois grupos. Num deles, (o chamado grupo de controle) os pais receberam folhetos e palestras de orientação sobre alimentação saudável, os males do fumo e a importância de fazer exercícios. No outro, além disso, a ênfase sobre a prevenção focalizou também os alunos, tanto em sala de aula quanto na prática cotidiana: na orientação do que passou a ser servido nas refeições, em passeios de bicicleta incluindo as famílias, em peças de teatro sobre o tema, em palestras e aulas. Os resultados confirmaram pesquisas anteriores do mesmo tipo, feitas nos Estados Unidos. As crianças passaram a dar palpite em casa sobre a melhor refeição, as compras de supermercado, sugestões para andar a pé ou entrar para uma academia, deixar o fumo.

No final de um ano, os pais foram novamente examinados clinicamente: pressão, peso etc. No grupo de controle, 13% tiveram seus riscos reduzidos. No outro, em que as crianças também aprenderam, a redução foi de 91%.

O êxito desse projeto piloto foi tão animador que já se fala em estender esse programa de prevenção a todas as escolas públicas. Mas, enquanto isso não se concretiza em âmbito geral, bem que dá para se buscar algum caminho desse tipo em escala mais modesta. Afinal, aprender com as crianças, pode salvar vidas.

Um abraço,

Ana Maria Machado