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Após décadas de proibição, 7 poluentes ainda são encontrados em aves (16 notícias)

Publicado em 03 de fevereiro de 2026

Poluição Persistente: DDT e Outros Tóxicos Ameaçam Aves no Brasil

Um estudo recente revelou que mesmo décadas após a proibição do uso do DDT, pesticida extremamente nocivo, as aves marinhas que habitam áreas remotas ainda estão contaminadas. O trabalho, publicado na revista *Environmental Monitoring and Assessment*, foi realizado em colaboração entre diversas universidades e apoiado pela FAPESP. As análises mostraram a presença de poluentes orgânicos persistentes (POPs) em aves da costa do Rio Grande do Sul e do remoto Arquipélago de São Pedro e São Paulo.

História e Impacto do DDT

O DDT, introduzido nos anos 40 como um efetivo pesticida, logo se tornou uma preocupação ambiental massiva, sendo criticado pela bióloga Rachel Carson no seu livro de 1962, *Primavera Silenciosa*. A obra detalhou como o DDT levava ao afinamento das cascas de ovos de aves, resultando na redução de suas populações, o que gerou um movimento global para sua restrição.

Nos anos 70, diversos países baniram o uso agrícola do DDT, mas ele continuou a ser utilizado no Brasil para o controle de vetores de doenças até 1985. Somente em 2009, o Brasil aderiu à Convenção de Estocolmo, proibindo completamente o uso, fabricação e estocagem do DDT.

Descobertas do Estudo

A pesquisa conduzida por Janeide de Assis Guilherme Padilha, da Universidade do Minho, e Maria Virginia Petry, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, analisou fígados de aves encontradas no Rio Grande do Sul e sangue de atobás do Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Surpreendentemente, mesmo longe de atividades humanas, os atobás-pardos apresentavam níveis significativos de DDT e PCB (bifenilas policloradas), substâncias tóxicas antes usadas na indústria elétrica.

Poluentes Orgânicos em Aves

O fenômeno conhecido como “efeito gafanhoto” explica a presença de POPs em regiões remotas: os poluentes se evaporam em locais quentes e condensam em áreas frias, se dispersando globalmente. Nas aves, esses compostos são transmitidos de mãe para filho, afetando o desenvolvimento dos ovos e, nos humanos, estão associados a cânceres e disfunções endócrinas.

A pesquisa revelou que aves com dietas e tamanhos variados apresentaram níveis semelhantes de POPs. As espécies pardela-de-bico-preto, em particular, demonstraram altos níveis de PCBs e Mirex, indicando possível exposição em áreas de pesca contaminadas.

Fatores de Exposição e Contaminação

As diferenças nos níveis de contaminação entre populações do mesmo grupo de aves destacam a influência de seu habitat e dieta. No caso das Ilhas Cagarras, no Rio de Janeiro, a proximidade a áreas urbanas contribui para uma maior concentração de estanho nas aves, já que estas se alimentam de lulas que acumulam mais do metal.

A análise diferenciou os métodos utilizados – fígados de animais mortos no Rio Grande do Sul e sangue de aves vivas no arquipélago –, evidenciando que o tipo de amostra pode influenciar os resultados. Fígados retêm contaminantes por mais tempo, enquanto o sangue revela a exposição recente.

Implicações para o Futuro

A pesquisa agora se volta à investigação sobre o papel da poluição plástica nas aves marinhas. Alguns poluentes, como retardantes de chamas, são comuns em plástico, que por sua vez, pode ser confundido com alimento pelas aves. Incidentes como aves utilizando escovas de dentes para construir ninhos ilustram a gravidade do problema.

A análise contínua da bioacumulação de poluentes permanece crucial, não apenas para a preservação das espécies marinhas, mas também para entender os impactos mais amplos desses compostos persistentes no ecossistema global.