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IEDI - Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial

Após ano frustrante, em 2020 indústria deve ter recuperação tímida

Publicado em 03 janeiro 2020

Produção do setor deve voltar ao azul, puxada pela demanda interna, mas alta tende a ser modesta

Depois de um 2019 frustrante, que começou uma expectativa de crescimento de 3% e deve terminar com retração em torno de 1%, a produção da indústria brasileira deve voltar ao azul em 2020, puxada pelo crescimento da demanda interna. O ritmo, contudo, deve ser modesto. A mediana das estimativas do Boletim Focus, do Banco Central, aponta expansão de 2,2%.

Se em 2018 a greve dos caminhoneiros derrubou a atividade industrial e abortou uma recuperação que se desenhava após anos de contração, em 2019, o desastre da barragem de rejeitos de minério de ferro da Vale, em Brumadinho, em Minas Gerais, e a recessão na Argentina deram o tom negativo. Em 12 meses até outubro, dado mais recente, a produção industrial cai 1,3%, com recuo de 7,4% no segmento extrativo e de 0,4% no de transformação, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A queda que foi se desenhando ao longo de 2019 acabou afetando as projeções para o ano seguinte, que também chegaram a crescimento de 3%, mas agora estão na casa dos 2%.

O baque recente na indústria foi forte. Em outubro, 14 dos 26 segmentos do setor acompanhados pelo IBGE ainda não tinham conseguido recuperar o nível de produção anterior à greve dos caminhoneiros, quase um ano e meio antes. Embora o Índice de Confiança do setor, medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), mostre uma retomada do otimismo dos empresários do segmento, isso ainda não se traduz em produção. A ociosidade na indústria ainda é alta, como mostra o nível de utilização da capacidade instalada (Nuci), em 75%, bem abaixo do nível pré-crise, quando estava em torno de 85%. Como fatia do Produto Interno Bruto (PIB), a participação da indústria de transformação pode recuar mais, depois de ter atingido o menor patamar da história recente em 2018, de 11,3%. No acumulado até o terceiro trimestre de 2019, o peso era de 11,1%, segundo o IBGE. “Foi um ano perdido”, resume Paulo Morceiro, pesquisador especializado em indústria do Núcleo de Economia Regional e Urbana (Nereus) da Universidade de São Paulo (USP).

Na ponta mais positiva das expectativas para 2020, com estimativa de aumento de 4,2% na produção industrial, o dobro da projeção do mercado, a 4E Consultoria considera que a tração mais forte do setor no segundo semestre de 2019 deve se intensificar, diante de uma economia mais aquecida. A casa espera aumento de 2,8% no PIB do país, estimativa que também está acima da mediana, de 2,3%. “Deve haver uma recomposição da oferta extrativa. A expansão da construção civil, que já se iniciou, também vai puxar a indústria”, afirma o analista Luca Klein. A 4E estima crescimento de 9,5% no segmento extrativo e de 3,5% na transformação em 2020. “Os fundamentos para o consumo, como o crédito e a massa salarial, estão melhorando e grande vetor do crescimento industrial vai ser a economia doméstica”, diz ele.

Klein considera que a queda recente dos juros terá efeito maior na economia em 2020, o que também vai favorecer o investimento. A expectativa é que a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida do que se investe em máquinas, equipamentos, construção e inovação) cresça 4,2%, após alta em torno de 3% em 2019. O setor externo, contudo, deve continuar restritivo, o que não deve ajudar as exportações do setor, afirma ele.

O fator externo é um dos principais condicionantes da previsão mais moderada da MB Associados, de crescimento de apenas 1,3% na produção industrial em 2020. “Temos visto uma indústria muito errática, não dá para prever grande recuperação. Podemos ter resultado até pior que esse”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB. A projeção da casa para o PIB do ano também é modesta, de alta de 1,6%. Embora o impacto da recessão argentina já não seja mais tão relevante, o cenário internacional inspira cuidados, afirma. Há possibilidade de o acordo comercial entre Estados Unidos e China andar, mas há uma conturbada eleição americana pela frente. A desaceleração da economia mundial não está completamente descartada pelo economista.

“Há riscos relevantes. Não vemos uma indústria exportadora em 2020, o que seria algo importante para sua recuperação”, avalia. Um cenário externo mais positivo pode levar o país e a indústria a crescer em torno de 2%. Mas a economia ainda está fraca e a indústria não conseguirá entregar produções maiores que isso, diz ele.

Como contraponto, Vale destaca a boa perspectiva para os segmentos ligados ao agronegócio. “A transformação industrial na agricultura deve ter um ano positivo, especialmente com as exportações de carnes para a China.” A produção de duráveis, como produtos da linha branca (caso de fogões e geladeiras), também tem boa perspectiva, por causa da expansão do crédito.

A queda do juro deve fazer mais diferença a partir de 2021, na avaliação do economista. O crédito tende a ter papel importante nos próximos anos, o endividamento das famílias é baixo e tem espaço para crescer. “O consumo tende a ser o carro-chefe da economia.”

Embora a indústria deva apresentar uma melhora conjuntural, fatores estruturais devem continuar a pesar sobre o setor. “Há bloqueios importantes no lado da oferta, que prejudicam a competitividade”, afirma Rafael Cagnin, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), citando o complexo sistema tributário e a falta de investimento em infraestrutura. No lado da demanda, a baixa qualidade do emprego gerado na lenta recuperação da economia é um obstáculo para uma retomada mais forte do setor, avalia ele. “Trabalhadores informais ou por conta própria têm uma renda menor e variável, que dificulta o acesso ao crédito e limita o potencial do crescimento econômico.”

Para estimular a indústria, Cagnin vê como fundamental a retomada dos aportes públicos, ao lado do setor privado. “É preciso avançar nas PPPs [parcerias público-privadas], privatizações e destravar o investimento público pelo menos para terminar obras paradas.” Investimento em educação, inovação, acordos comerciais estão entre as lições de casa para recuperar a indústria, diz Paulo Morceiro, da USP. “A cada ano que ficamos parados nessas questões, maior é o desafio.”

Acima de tudo, os economistas defendem o desenho de uma estratégia industrial em que o objetivo maior seja incorporação e difusão de tecnologias. “Dados da Fapesp mostram que temos competência acumulada em várias áreas de fronteira tecnológica, como big data. A indústria pode participar da produção e difusão de tecnologia para o sistema produtivo em geral”, afirma Cagnin, do IEDI.

Para eles, há um limite para o quanto a economia pode crescer sem uma recuperação estrutural da indústria. Morceiro observa que a transformação tem perdido peso no PIB há pelo menos três décadas, ao mesmo tempo em que a economia cresce pouco. “Sem indústria e sem gasto do governo em infraestrutura, o país gente cresce de modo sustentado em torno de 1%. Com medidas temporárias, como liberação de FGTS, podemos chegar a 1,6%, 1,7%.” Como a indústria movimenta outros setores econômicos, como os serviços, seu desempenho, bom ou ruim, se espalha pela economia. “Há poucas dúvidas de que a indústria é uma engrenagem do crescimento econômico”, afirma Cagnin. “Países sem indústria forte até se desenvolvem, mas geralmente estão acoplados a alguma outra potência industrial, o que não é nosso caso”.

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