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Agência USP de Notícias

Após a compulsória, professores preferem continuar trabalhando na Universidade

Publicado em 23 abril 2007

Por Miguel Glugoski / Jornal da USP

Na sala de casa, Amélia e Ernst Hamburger montam um icosaedro, que é um poliedro convexo de 20 faces. Um dos cinco sólidos perfeitos de Platão, ao lado do tetraedro, do cubo, do octaedro e do dodecaedro. "Não existem outras figuras com faces iguais", comenta Ernst, enquanto puxa uma peça imantada, cola outra, equilibra uma terceira, desmonta tudo e torna a montar. Para o casal Hamburger, aposentado compulsoriamente, a dificuldade de montar o icosaedro é fichinha.  

Eles conhecem até o átomo por dentro, como a natureza o fez, e mesmo depois dos 70 não costumam ficar em casa muito tempo. São físicos, ele ocupado em bolar projetos educativos para o ensino de ciência para todos os graus, em especial para as primeiras séries escolares, e em organizar exposições de física, projetos como aqueles que costumam ser vistos na Estação Ciência, casa que dirigiu durante muitos anos. Aliás, é para lá, ou para o Instituto de Física, que Ernst vai todo dia. Amélia vai também, porque, embora não dê mais aula, orienta alunos de pós-graduação, em especial e com muita satisfação uma aluna da Unicamp que busca o título de doutora com pesquisa sobre o Laboratório Vandergraf, aquele mesmo onde Amélia começou a estudar Física Experimental.

Nos fins de semana, talvez apareçam alguns dos cinco filhos que Amélia e Ernst criaram: Vera, diretora de arte; Sônia, produtora; Esther, crítica de TV e Cinema; Cao... Bem, Cao todo mundo sabe quem é. Revolucionou programas de TV para crianças ("Castelo Rá-Tim-Bum") e agora está na crista da onda com o filme O ano em que meus pais saíram de férias. No fundo da casa, jardim, bananeira de cachos carregados, jabuticabeira, amoras e um cão labrador gordo e manso brincando com a filha do mesmo tamanho.

A novidade que Amélia exibe não é bem novidade. Tem 20, 30 anos. São poesias de uma física, que a Fapesp acaba de publicar na série Boletim de Idéias, com apresentação de Carlos Vogt, o poeta da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. O título do livrinho já pede alguma reflexão: In forma ação da medida. Por dentro, uma lembrança dos temas/termos de Ciro dos Anjos, com a diferença de que o poeta mineiro usava a linguagem científica mais para efeito sonoro, enquanto Amélia põe lógica na ciência e deixa os versos livres, com alguma rima, quando espontânea.

Se não edita seus próprios livros, Amélia está supervisionando a editoração das obras completas na área de física de Mário Schenberg, que sairão em dois volumes de 900 páginas cada um até o final do ano. Independente deste, outro volume está em preparo com a produção política desse professor de física, que foi também parlamentar militante e crítico de arte.

Ernst Hamburger confessa: na vida acadêmica sempre gostou de dar aula e de fazer pesquisa. Por isso não pára de trabalhar na aposentadoria. Não lamenta a chegada do tempo-limite para o serviço público nem defende esticar a idade para a compulsória até os 75 anos, conforme projeto do senador Pedro Simon (PMDB/RS), que agora se encontra na Câmara dos Deputados. Como Amélia, acha que se deve dar chance e lugar aos mais jovens, mas com a garantia de que o aposentado possa trabalhar na instituição, sem ganhar nada mais por isso. Afinal de contas, a aposentadoria aos 70 é um privilégio de poucos diante da realidade brasileira que, de acordo com a psicóloga Anete Souza Farina, aposenta seus trabalhadores aos 40 anos, negando-lhes novo emprego.

Alguma lembrança triste? Apenas ter sido testemunha da violenta repressão aos estudantes e professores nos anos quentes de 1968/69.

Numa coisa o casal Hamburger está dividido: ele é santista (em segundo lugar são-paulino); ela, corintiana roxa.

Totalmente dedicado ao ensino e à pesquisa, José Nicolau recebe o título de professor emérito

E por falar em Corinthians, a sala de outro docente da USP aposentado (não pela compulsória, mas já seria se esperasse mais um pouco) está lotada de fotos, flâmulas e símbolos do Timão. É onde fica e de onde dirige o Laboratório de Bioquímica Oral da Faculdade de Odontologia o professor José Nicolau, formado em duas áreas complementares de ciência: farmácia e odontologia.

Contratado pela USP em 1958, com pós-graduação nos Estados Unidos, Universidade de Chicago, Nicolau se aposentou antes pro forma, porque o seu dia-a-dia continua na Faculdade de Odontologia, pesquisando, ensinando os jovens alunos e prestando serviço à comunidade. Dia 31 de maio, recebe o título de Professor Emérito.

Um tesouro

Igor Gil Pacca, aposentado compulsoriamente há sete anos pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), conta que, no tempo em que dava aulas no Instituto de Física, certo dia fotografou um belo arco-íris na Cidade Universitária. Lembrou-se então de que, segundo crença popular, numa das pontas do arco deveria haver um baú de ouro enterrado. Na hora não pensou nisso, mas, passadas várias décadas, constatou que o mito continha uma verdade: o tesouro estava lá. Lá é onde está hoje o conjunto de prédios do IAG e o tesouro é o próprio IAG. O professor tem parte nisso, pois trabalhou muito para organizar e transferir aquela unidade de ensino e pesquisa da Água Funda para o campus do Butantã. A mudança foi necessária para integrar o ensino e a pesquisa e porque as condições no parque da Água Funda já não eram favoráveis à observação do céu iluminado de São Paulo. Pena foi abandonar aquela área verde de 1,4 milhão de metros quadrados e esquecer o suave ronco dos bugios.

Contando tudo, Gil Pacca já tem 63 anos de trabalho: 40 na USP, 16 antes disso em empresas. Especialista em Física da Radiação, foi colega de César Lattes, o brasileiro que por pouco não leva o Nobel de Física pela descoberta do méson Pi, depois foi chamado para dar nova estrutura ao IAG, antes denominado Observatório de São Paulo, um dos institutos oriundos da Comissão Geográfica e Geológica criada ainda no tempo do Império.  

Gil recorda como era bom trabalhar com o diretor Abraão de Moraes e da promessa do reitor Miguel Reale, quando do sepultamento do diretor, de transformar o IAG em unidade independente, com três departamentos: Astronomia, Geofísica e Meteorologia. A transferência, iniciada na gestão do professor Lobo e Silva, concluiu-se no tempo de Flávio Fava de Moraes, que garantiu os recursos necessários para iniciar a construção dos blocos, vendendo para a Fapesp um terreno da Universidade ao lado da avenida Politécnica.

Iates, barcos, jet ski, Gil Pacca não tem (nem é fácil encontrar aposentado que tenha ou revele ter) para usufruir a aposentadoria nas ondas do mar, mas possui uma chácara em Serra Negra, onde o caseiro cuida de hortaliças, de galinhas e colhe café, que é para o professor não comprar em supermercado. Gil gosta de viajar, mas prefere ficar mais tempo na USP, cumprindo o contrato de todo aposentado com a instituição, que contém um termo de adesão e permissão de uso.

Num laboratório blindado para o magnetismo exterior, Gil Pacca mostra pedras magmáticas, diz que elas têm memória magnética e podem conter informações sobre a história do interior da Terra e sobre o movimento dos continentes. Exames acurados são capazes de revelar que a pedra se formou num determinado lugar e milhões de anos depois estava em outro muito distante da origem.

Milagre tecnológico

O professor José Sebastião Witter, do Departamento de História, que já dirigiu o Museu Paulista, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e a Coordenadoria de Comunicação Social (CCS), tinha o sonho de se aposentar aos 70 anos. Mas, dez anos antes de atingir essa idade e já com ponte de safena, o seu cardiologista mandou parar. Só que ele não parou de trabalhar, mesmo consciente de que está vivo "graças à tecnologia". "O trabalho é o melhor remédio", afirma, sem deixar de dar um conselho, meio irrealista, aos que estão começando: "Aos 35 anos tirem dez anos de férias, viajem, façam cursos, mestrado, doutorado, conheçam o mundo, divirtam-se; aos 45, recomecem e trabalhem até morrer".

Conta que um de seus amigos, Raul de Andrada e Silva, apelidado de "neto de duas estátuas", porque descendente de José Bonifácio de Andrada e de Caetano de Campos, dizia que todo professor deveria pedir aposentadoria dois meses antes da compulsória, "dando tempo para ser recontratado". Não foi o seu caso.

Witter começou a dar aulas aos 17 anos e garante que férias de verdade nunca tirou, só burocraticamente. Agora, presta consultoria para a Universidade de Mogi das Cruzes. Sua mulher, Geraldina Porto Witter, também da USP, psicóloga aposentada, já passou pela PUC de Campinas, pela Universidade de Mogi e agora dá aula na Unicastelo, em Itaquera. Não é por dinheiro, garante Witter: "Não penso nisso, não tenho carro de luxo, não tenho motorista". Uma das suas atuais ocupações é preparar um livro com entrevistas de mogianos que têm boas histórias de vida e da cidade. Uma jornalista ouviu o pessoal.

Se dependesse do professor Witter, a idade limite para aposentadoria seria de no mínimo 80 anos. O que seria do arquiteto Oscar Niemeyer se fosse servidor público e impedido de trabalhar depois dos 70? "Ficar em casa, de chinelos, deprimido, diabético, com dor na coluna, cansado da mulher, olhando outros velhos, não faz meu gênero", conclui Witter, cheio de vida.

Fotos: Cecília Bastos / Jornal da USP