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Publicado em 01 novembro 2006

Tanto a pesquisa de ponta quanto o ensino da física sempre fascinaram igualmente o físico brasileiro Roberto Salmeron, desde o início de sua carreira. Há exatos 40 anos, já reconhecido internacionalmente, começava a trabalhar como membro permanente do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), em Genebra, na Suíça. No ano seguinte, 1967, tornou-se professor da École Polytechnique, em Paris, França, onde mora até hoje. Atualmente aposentado, Salmeron se dedica principalmente a mediar as conexões das duas instituições européias com estudantes e pesquisadores brasileiros.
Graças à dedicação de Salmeron, a École Polytechnique, uma das mais importantes instituições de ensino de engenharia no mundo, mantém, desde 2000, um convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com a Universidade de São Paulo (USP).
"As duas universidades enviam estudantes de graduação para a Polytéchnique, onde eles estudam dois anos e meio e recebem o título de engenheiro. Ficam com dois diplomas, o brasileiro e o francês", explicou o físico à Agência FAPESP.
O convênio terá novidades, segundo o físico. Está prevista sua extensão a outras quatro instituições: Universidade Estadual de Campinas, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. "Está estabelecido. As quatro instituições já têm representantes em contato com a escola francesa", revelou.
O professor conta que, a cada ano, os estudantes brasileiros chegam mais bem preparados à França. "São rapazes e moças diferenciados, que estão entre os melhores alunos do Brasil. Ainda assim, no início eles enfrentam dificuldades em matemática, porque o nível do ensino dessa disciplina na França é altíssimo", disse.
Salmeron considera raros os bons cursos de graduação no Brasil. "Seria preciso um amparo ao estudante para motivá-lo mais para ao trabalho individual. Por razões culturais, o estudante brasileiro não tem o hábito da leitura e não sabe estudar sozinho por livros. Formamos físicos de nível internacional, mas isso graças à excelência da nossa pós-graduação", afirmou.
Um bom curso de graduação, para Salmeron, é aquele que dá aos estudantes de um modo profundo as bases fundamentais da disciplina, com bom embasamento teórico e experimental. "Mas o fundamental é ensinar o estudante a trabalhar muito sozinho. Os brasileiros que vão para a França, sem exceção, dizem que nunca trabalharam tanto na vida", conta.

Partículas e grades
Roberto Salmeron foi um dos primeiros pesquisadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, e do Cern, na Suíça. Foi professor da Universidade de São Paulo e da Universidade de Brasília. Além da contribuição para o intercâmbio de estudantes, trabalha atualmente na coordenação dos projetos de grupos brasileiros que irão atuar no Cern. Veio três vezes ao país em 2005 com essa finalidade.
"O Brasil tem grupos importantes trabalhando lá. Eles apresentaram projetos para participar de experiências internacionais muito grandes e têm propostas maravilhosas no mesmo nível dos norte-americanos e europeus", disse.
As propostas apresentadas ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) obtiveram, segundo Salmeron, financiamento de menos de 50% dos valores pleiteados. "Havia seis projetos experimentais, além de um outro para físicos teóricos. Para isso tudo, o que se pedia era US$ 1 milhão por ano durante cinco anos, o que está dentro da possibilidade do Brasil, mas obtivemos menos da metade", lamentou.
Dos grupos, dois são da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, dois da UFRJ, dois do CBPF, um da USP e um da Universidade Estadual Paulista. "Todos eles estudam as propriedades da estrutura da matéria. As experiências sobre esse assunto são enormes. Para dar uma idéia, hoje é comum que uma experiência dessas tenha mais de mil físicos", disse.
O Cern conta com o maior acelerador de partículas do planeta, o Large Hadron Collider (LHC), de forma circular e com 27 quilômetros de comprimento. "As operações começam no fim de 2007. Teremos trabalho para 20 anos", disse o físico.
Para Salmeron, o projeto ajuda a melhorar a formação de físicos no Brasil. "O LHC utilizará a tecnologia grid [computação em grade], que, em vez de concentrar toda a informação no Cern, como ocorre atualmente, compartilha os dados entre diversas máquinas. Qualquer laboratório do mundo com conexão a essa rede terá acesso a todos os dados do Cern. O laboratório mais avançado nesse sentido no Brasil está na Uerj, dirigido pelo professor Alberto Santoro e que dá acesso direto aos dados."