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Aplicação de potássio garante algodão de melhor qualidade, aponta estudo

Publicado em 08 dezembro 2020

Por Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

O uso de plantas de cobertura, entre uma safra e outra de algodão, protege o solo, conserva água e reduz o risco de erosão. Pesquisadores da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificaram que, mesmo em solos arenosos, a antecipação da aplicação de potássio (K) na planta forrageira resulta em economia de recursos na produção, além de um algodão com maior valor de mercado.

“A dinâmica de aplicação precoce do potássio – na forrageira antecessora da lavoura de algodão – resulta em fibras mais resistentes e com menor índice de fibras curtas em comparação ao método convencional de aplicar o nutriente no algodoeiro. Além da melhora qualitativa, a técnica reduz os gastos do agricultor com a produção. Isso porque há um impacto na dinâmica operacional do produtor, que passa a fazer uma e não duas aplicações de potássio. Além de melhorar a logística operacional, economizar trabalho e óleo diesel nas fazendas, no longo prazo, também é esperada uma redução no uso de fertilizantes”, afirma Fábio Echer, professor e autor do artigo publicado na Scientific Reports.

O estudo, realizado na fazenda experimental da Unoeste, comparou por dois anos o método convencional de aplicação do fertilizante diretamente no algodoeiro com outros dois tipos de manejo, focados na aplicação antecipada do potássio. Também foi avaliado o cultivo de algodão sem o uso de fertilizantes e sem o uso de palha de cobertura.

A pesquisa é resultado de uma bolsa de mestrado concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a Vinicius José Souza Peres. Também contou com a colaboração da Associação Paulista dos Produtores de Algodão (APPA) e da Fundação Agrisus.

Análise quantitativa e qualitativa da fibra

Em um dos tratamentos, os pesquisadores cultivaram a planta de cobertura e aplicaram o potássio em duas doses (70 kg/hectare cada), em cobertura no algodoeiro.

Na comparação, tanto a lavoura em que a planta forrageira foi adubada com uma dose de 140 kg/hectare de potássio quanto a que a aplicação do fertilizante foi dividida em duas etapas – uma metade na planta de cobertura e a outra no algodoeiro – tiveram resultados iguais ao método convencional em relação à produtividade de fibra.

As lavouras sem aplicação de fertilizante apresentaram produção menor e de pior qualidade que o método convencional e da aplicação antecipada.

“No estudo realizamos um cálculo de eficiência do uso de fertilizante. Observamos que, no sistema antecipado, a braquiária [planta forrageira] também consegue recuperar o nutriente do solo, além da função de protegê-lo. Como essa forrageira tem um sistema articular profundo, suas raízes buscam os nutrientes no solo que foram perdidos em safras anteriores [lixiviados], reciclando-os e jogando-os para a superfície. Portanto, quando a planta é dessecada ela libera o potássio nas primeiras chuvas para culturas que vêm na sequência”, diz Echer.

Mas a principal vantagem da aplicação antecipada está no maior valor comercial do algodão produzido. Ao analisar a qualidade da fibra e por consequência o valor do algodão, as lavouras que utilizaram a adubação potássica na forrageira apresentaram menor índice de fibras curtas, o que deprecia o valor da produção. Isso porque houve melhorias em parâmetros como os índices micronaire (diâmetro da fibra), maturidade e resistência.

“Essas características são importantes, pois representam um algodão de maior valor comercial para a produção de tecidos mais finos, de melhor qualidade e com maior valor de mercado”, diz.

Echer explica que a melhora na qualidade da produção está relacionada com a disponibilidade de potássio no solo e com o status hídrico da planta.

“A fibra do algodão é uma célula e como toda célula precisa de água para se expandir. Portanto, ao conservar mais água no solo e na planta, é possível melhorar também o tamanho da fibra”, pontua.

O pesquisador ressalta que o potássio desempenha um papel importante no controle da perda de água na planta, já que regula o funcionamento dos estômatos, a taxa de fixação de dióxido de carbono, ativação enzimática, transporte de nutrientes e homeostase, além de ajudar na tolerância ao estresse.

Nos solos, o nutriente chega à raiz principalmente por difusão, que responde por 72% a 96% da demanda das plantas.

“A frequência de eventos climáticos extremos, como altas temperaturas e falta de chuva, tem aumentado em razão do aquecimento global, e o manejo conservacionista do solo, como o sugerido no estudo, pode contribuir com a redução dos efeitos negativos na produção. A instabilidade das chuvas pode limitar a instalação das lavouras e, como apenas cerca de 8% das lavouras de algodão no Brasil têm irrigação, a planta de cobertura ganha uma importância ainda maior. A palha ajuda a reduzir a temperatura do solo e isso ajuda a conservar mais água, inclusive”, afirma.

Na região oeste do Estado de São Paulo, por exemplo, em plantações de algodão com o solo exposto (sem a cobertura da palha) a temperatura pode chegar a 70 ï?°C. Já quando a palha é usada, a temperatura do solo fica entre 28 ï?°C ou 30 ï?°C, o que permite conservar a umidade do solo.

Echer explica que esse tipo de manejo com aplicação antecipada do nutriente já vem sendo utilizado em lavouras cultivadas em solo argiloso. No entanto, ainda não havia sido testado em solos mais marginais como os arenosos de baixo teor de matéria orgânica, o que dificulta a retenção do nutriente no solo.

"Os produtores ficavam com receio de antecipar a adubação em lavouras de solo arenoso. Com o estudo conseguimos provar que, mesmo em solo arenoso – que é mais frágil, armazena menos água e deixa o potássio mais suscetível à lixiviação –, o manejo do nutriente na planta de cobertura mantém a produtividade e ainda melhora a qualidade da fibra”, diz.

De acordo com os pesquisadores, o método analisado no Oeste do Estado de São Paulo pode ser replicado em lavouras de algodão cultivadas em solos arenosos na Bahia e no Mato Grosso, maior produtor de algodão do Brasil, e também em outros países.

“A planta de cobertura pode não ser a mesma que utilizamos na pesquisa, pois o clima pode ser diferente, mas abre um precedente para se testar novas espécies de cobertura em outros locais no mundo”, fala.

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