Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Aperto de mão molecular

Publicado em 03 agosto 2005

A principal via de acesso usada pelo parasita da malária para invadir as células humanas já era conhecida dos cientistas. Mas agora, a partir de um trabalho que acaba de ser publicado pela revista "Cell", um passo importante está dado para que medicamentos mais eficazes de combate à doença possam ser desenvolvidos.
Um grupo de pesquisadores do Laboratório Cold Spring Harbor, nos Estados Unidos, usou a cristalografia de raio X para determinar a estrutura molecular de uma parte da proteína EBA-175, chamada de RII. Presente na superfície dos merozoitos (estágio do parasita que invade a célula no início do processo de infecção), é esse RII que vai se ligar aos receptores, no caso a glicoforina A, das células vermelhas do sangue. É por isso que todos os olhos se voltaram para ele.
A análise feita pelos cientistas -, o primeiro autor, Niraj Tolia, teve malária quando criança - mostrou que para levar em frente a infecção, o plasmódio causador da malária se vale de uma espécie de "aperto de mão". Em vez de uma única molécula de RII, os pesquisadores descobriram que elas andam sempre em pares e entrelaçadas.
As duas moléculas - e se descobriu ainda que cada uma delas é ligada a outras seis moléculas de açúcar - ao se unir, para depois se ligar ao receptor das células do sangue do homem, acabam prendendo o parasita. O passo seguinte é carregar o invasor para dentro do citoplasma. É depois dessa invasão que os sintomas da malária começam a ser sentidos. E, em último caso, a conseqüência do processo é a morte. Dos 2 milhões de óbitos anuais em todo o mundo por causa da doença, 80% ocorrem entre crianças.
"Agora sabemos com precisão como uma parte-chave de proteínas da malária trabalha", disse Tolia, em comunicado do Laboratório Cold Spring Harbor. Para o pesquisador, a EBA-175 e as demais estruturas observadas ao longo do estudo parecem ser as únicas vias utilizadas pelo plasmódio. "Essas moléculas são alvos excelentes para o desenvolvimento de drogas e até de uma vacina", disse.
Os pesquisadores também fizeram vários testes para tentar barrar o entrelaçamento das moléculas e a posterior ligação delas com os receptores das células do sangue. Em todos os casos em que se alterou a composição do RII, o parasita não conseguiu invadir as células do organismo que seria contaminado. (Agência Fapesp)