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G1

Aos 31 anos, ex-aluna de escola pública é doutora em matemática e dá aula no ITA

Publicado em 14 março 2017

Por Luiza Tenente

Fernanda Pereira, de 31 anos, estudou a vida inteira em escolas públicas de Birigui, município de São Paulo próximo a Mato Grosso do Sul. No fim do ensino médio, ela se matriculou em um cursinho comunitário, voltado para estudantes de baixa renda. Seu currículo, desde então, é longo: ela se formou em matemática no Unesp, emendou o mestrado e o doutorado na mesma disciplina na Unicamp e, aos 28 anos, começou a dar aula no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP).

Seu pai, eletricista, e sua mãe, dona de casa, não tinham condições financeiras de pagar as mensalidades de uma escola particular. Para tentar cobrir as defasagens do ensino público, Fernanda procurou um cursinho pré-vestibular. “Era bem baratinho, com aulas à tarde. De manhã, eu ia para a escola, e à noite, ficava estudando em casa”, conta.

O resultado veio logo no fim do ensino médio: ela foi aprovada em matemática na Unesp, em 2004. “No primeiro ano, senti um pouco a dificuldade de ter estudado em escola pública. Mas corri atrás por conta própria dos tópicos que ainda não tinha aprendido no colégio. Depois, foi tranquilo e uma coisa foi puxando a outra”, diz Fernanda.

Desde o primeiro ano da universidade, ela fez iniciação científica, porque era exigência para manter a bolsa de assistência a alunos de baixa renda. Ela, até então, não tinha conhecimento do que era a pesquisa acadêmica. Quatro anos depois, quando estava terminando a graduação, decidiu se aprofundar em álgebra, uma sub-área da matemática pura – campo mais abstrato, que busca desenvolver teorias, e não aplicações práticas.

Mais uma vez, o resultado foi imediato: Fernanda saiu da graduação direto para o mestrado na Unicamp, também com bolsa de estudos para pesquisadores, e emendou com o doutorado, na mesma instituição. “Meu orientador sugeriu que eu tivesse uma experiência internacional e colaborasse com algum pesquisador. Consegui uma bolsa Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para passar seis meses em Paris, pesquisando com um dos maiores nomes da área, o professor David Hernandez”, diz.

Fernanda considerou a experiência na Université Paris Diderot enriquecedora academicamente. “Aprimorei minhas técnicas e meu trabalho evoluiu bastante”, diz. No fim do doutorado, ela se inscreveu em um concurso público para disputar uma das três vagas de professor no ITA. “Eu ainda não tinha me formado, mas a lei naquele ano permitia que não-doutores se candidatassem. Disputei com pessoas mais velhas e fui aprovada em segundo lugar”, conta.

Mulheres no ITA

Desde então, ela faz parte da pequena parcela de professoras mulheres ITA: de 191 docentes, 29 são do sexo feminino – aproximadamente 15%.

Ela percebe que, conforme avança na vida profissional de pesquisadora, a desproporção entre homens e mulheres aumenta. Uma das razões apontadas por Fernanda é a ideia de que cuidar dos filhos e do lar é apenas dever das mães.

“Isso dificulta a evolução da carreira”, afirma. No setor privado, de acordo com ela, existe a desconfiança de que, ao contratar uma mulher, a dedicação ao emprego será menor: “Acham que vamos tirar licença-maternidade, por exemplo”.

Apesar de não ter sido ofendida explicitamente por ser mulher, Fernanda conta que sente dificuldade em ser ouvida na universidade. “Tento impor as opiniões e tomar iniciativas para mudanças. Mas nem sempre elas são acolhidas. Não sei se é pelo fato de eu ser mulher ou de eu ser nova. Minhas opiniões não são muito levadas em conta, apesar de eu ser bem tratada”, afirma.

No ITA, as meninas não são minoria só entre os professores. Na 1ª chamada do vestibular 2017, foram 110 candidatos convocados: 99 meninos e 11 meninas. Fernanda percebe que, em geral, existe a visão de que as garotas são menos preparadas e menos capazes. “Diante do ar de superioridade dos colegas, elas costumam se unir mais”, conta.

Para a professora, o principal fator que afasta as alunas e as professoras das universidades de ciência é a educação na infância. “Não somos incentivadas a conhecer jogos de lógica, por exemplo, por conta de uma cultura machista que atribui que meninas brinquem apenas com casinha”, diz.

Filhos

Fernanda é mãe de Julia, de 2 anos e 4 meses, e está prestes a dar à luz Lucas. Ao educar a filha, ela busca não fazer distinção entre “brincadeira de menino” e “brincadeira de menina”. “É natural da criança pequena gostar de casinha, porque quer imitar o que vê à volta. A Julia adora. Mas incentivo o outro lado também: jogos e carrinhos, por exemplo”, conta.

O desafio maior, segundo ela, virá com o nascimento do bebê. Ela pretende criá-lo da mesma maneira. “É mais difícil criar um menino não machista do que uma menina que não se intimide. Com as garotas, a gente pode ensinar que elas devem fazer o que quiserem. Com os garotos, a questão é lutar contra um sistema. Se alguém vir que ele está brincando com panela, vai criticar. Mas estou me preparando e vou dar a ele o brinquedo que não ganhar dos outros. Meus filhos terão as mesmas obrigações e os mesmos direitos”, diz.

Casamento

Fernanda é casada com Luís Felipe Bueno, professor de matemática aplicada na Unifesp, também em São José dos Campos. Ele enaltece a carreira da companheira: “Ela foi a primeira da família a fazer universidade pública. Foi uma das melhores alunas desde o começo do curso, mesmo tendo uma base fraca. Após a separação dos pais, ajudou a mãe a se colocar no mercado de trabalho e virar auxiliar de cozinha no Sesi”, conta Bueno.

Luís Felipe compara sua trajetória com a de Fernanda. “Eu também dou aula em universidade pública, mas estudei em um dos melhores colégios do Brasil e venho de uma família em que era natural ir para o ensino superior. Por isso, admiro muito minha mulher. Ela me mostra que precisamos dar oportunidades a todos”, diz.

O plano do casal é aguardar cerca de dois anos, quando Lucas e Julia estarão maiores, para fazer um pós-doutorado no exterior. “Vamos tentar ir todo mundo junto. Queria ter filhos nova, tinha a vontade de ser mãe, mas queria estar empregada para ter segurança. Consegui realizar isso”, conclui Fernanda.