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Brasil Econômico

Aos 10 anos, Genoma busca novo modelo

Publicado em 23 junho 2010

Por Martha San Juan

Dez anos depois, ciência busca um novo projeto genoma

Martha San Juan França

Há apenas dez anos, em 13 de julho de 2000, um artigo na revista científica Nature colocou o Brasil na corrida de um dos campos mais promissores da ciência contemporânea — o sequenciamento de genomas. O desafio de identificar os genes da Xylella fastidiosa,uma bactéria que ataca laranjais, foi o embrião do projeto, referenciado como um grande feito da pesquisa nacional. Demorou dois anos e envolveu um “instituto virtual” de 30 laboratórios ao custo de US$ 13 milhões, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O diferencial, concordam os participantes, foi a forma de trabalhar. “O projeto genoma não foi simplesmente o sequenciamento dos genes da Xylella”, afirma José Fernando Perez, um dos “pais” da ideia, quando era diretor científico da Fapesp. “ O maior benefício foi colocar os grupos de biologia molecular e informática de diversas universidades em contato. Isso deu aos pesquisadores as condições de fazer ciência na fronteira do conhecimento e de criar elos entre a comunidade científica e o estudo de problemas de relevância socioeconômica para o país .”

Pesquisa em grupo

Sob esse ponto de vista, o projeto funcionou muito bem. O trabalho de contagem de artigos científicos, realizado por Rogério Meneghini, coordenador do programa SciELO,mostrou que, no período de 1996 a 2007, houve um aumento de 236%no número de artigos da área publicados por brasileiros — um total de 202.643. No mesmo período, porém, foram registradas apenas 3.429 patentes, menos do que o México (10.828) e certamente menos do que os Estados Unidos (mais de 2 milhões) e Japão (727 mil). “O grande impulso em biologiamolecular não foi acompanhado de inovações tecnológicas”, conclui o estudo.

Sem visibilidade

Após o genoma da Xylella, outros se seguiram — mais duas bactérias maiores ( Xanthomonas), boi, eucalipto, cana, café. “Eram bemfocados e realizados em rede, contando com o conhecimento dos grupos adquirido com aquela primeira experiência”, experiência”, conta o biólogo Fernando Reinach, o outro “pai” da ideia, até recentemente diretor-executivo da Votorantim Ventures, fundo de capital de risco destinado a fomentar empresas de base tecnológica, que apostou na inovação adquirida pelos pesquisadores.

“O problema é que, depois disso, perdeu-se um pouco o ímpeto do começo”, afirma Reinach. “Diversos grupos de pesquisa que trabalharam no genoma, e outros formados em seguida, partiram para uma nova fase de análise desses organismos com projetos individuais, e mesmo os temáticos não tiveram a mesma visibilidade.” Para Reinach, a ciência brasileira acabou voltando ao modo tradicional de pesquisar. “O bom seria que, a cada cinco anos, estivéssemos envolvidos em desafios como aquele, impossíveis de se realizar sozinhos”,

 “Ganhamos anos para a ciência brasileira”, acrescenta Paulo Arruda, um dos cinco pesquisadores egressos do projeto que criaram a Alellyx Applied Genomics, fundada com capital de risco da Votorantim Novos Negócios. Vendida a empresa para a Monsanto, Arruda voltou à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “A experiência do genoma foi ótima, mas não entendo porque não resultou em mais ciência aplicada”, diz. “Temos excelente pesquisa, mas nada de tecnologia avançada. Há uma oportunidade absurda para criar, só precisamos descobrir a trava.” ■

DESDOBRAMENTOS

1 - Investimento de R$ 3 mi do CNPq

Em 2002 o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) investiu R$ 3 milhões na infraestrutura de pesquisa em genômica de 32 instituições. A iniciativa contribuiu para a formação de mão-de-obra em locais sem tradição na área e hoje o segmento é bem desenvolvido em todo o país.

2 - Genes do café em banco público

Iniciado em 2002, o sequenciamento do genoma do café foi uma experiência bem sucedida. O projeto permitiu a identificação de mais de 30 mil genes ligados ao crescimento e melhoria da planta, que fazem parte de um banco de dados aberto a instituições ligadas à Fapesp e aos cafeicultores.

3 - Eucalipto é projeto internacional

Projeto da Fapesp e de empresas papeleiras, o Forests visava sequenciar o genoma do eucalipto, o que chegou a ser feito em parte. Em 2006, deu origem a uma colaboração internacional, Genolyptus, submetida ao Joint Genome Institute dos EUA, para sequenciar o genoma completo da planta.

4 - Diversidade da análise do boi

Pesquisadores brasileiros ligaram-se a um consórcio de 25 países e concluíram em 2009 o sequenciamento do genoma do boi, utilizando a raça taurina. Projeto semelhante com animais da raça zebuína, a mais comum no Brasil, levará a um entendimento melhor de suas características.

Alellyx e Canavialis são casos de sucesso

Quando se fala no outro objetivo do projeto genoma, além da formação de pessoal especializado, costuma-se citar a criação das empresas Alellyx e Canavialis. Nascidas em 2002 e 2003, respectivamente, são produto da inovação tecnológica resultante do conhecimento adquirido com o sequenciamento genético nos últimos dez anos. Além delas, a Scylla Bioinformática foi criada para produzir software inovador e de alta qualidade para investigação de dados genômicos.

Alellyx e Canavialis receberam aporte de R$ 30 milhões e os recursos destinados à Scylla não foram divulgados. Especializadas em melhoramento genético e em genômica, as duas primeiras foram vendidas para a Monsanto por US$ 290 milhões no final de 2008. A Votorantim desistiu de investir na Scylla, que continua sob a direção de João Meidanis, do Instituto de Computação da Unicamp.

Acesso a tecnologias

As três empresas constituem uma exceção, que confirma a regra, que o capital de risco não se interessa em investir em empresas de alta tecnologia no Brasil e as universidades ainda não se acostumaram a trabalhar com o setor privado. Um dos fundadores da Alellyx, o bioquímico Jesus Ferro, da Faculdade de Agronomia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal, acredita que ainda existe no Brasil a mentalidade de que só é possível fazer negócio pequeno com pouco investimento. “A história de sucesso da Alellyx e da Canavialis deveria estimular mais investidores e empresas a apostar em projetos bem fundamentados”, afirma.

A Alellyx, no entanto, se beneficiou de um momento no Brasil em que o investimento na pesquisa do melhoramento genético da cana tornou-se estratégico, diante da constatação de que a planta deverá ser a melhor alternativa para a produção de energia nos próximos anos.

As declarações da Monsanto após a aquisição das duas empresas confirmam essa percepção. A multinacional anunciou que o objetivo era o acesso a tecnologias de ponta em variedades da cana e oferecer inovações em uma cultura essencial.  E frisou que o investimento visava o longo prazo, possivelmente por volta de 2016.

Pouco investimento

Idealizador tanto do projeto genoma como das empresas que dele surgiram, Fernando Reinachlamenta que outros negócios não tenham surgido. “Os fundos de venture capital, fora da Votorantim, investem em projetos pouco ambiciosos”, afirma. Uma exceção, segundo o cientista, é a Amyris, empresa americana, com laboratório no Brasil, que recebe investimento do próprio Votorantim e do Grupo Cornélio Brennand. A empresa desenvolve pesquisa para a indústria alcoolquímica e para diesel à base de cana. “É uma empresa americana que enxerga o pioneirismo do Brasil nessa área”, diz Reinach.