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Ao se equivocar no impeachment, Hélio Bicudo não soube preservar seu patrimônio histórico

Publicado em 14 agosto 2018

Por José Eduardo Bicudo

Logo após o falecimento de Hélio Bicudo, a família tomou conhecimento, pela direção do Colégio Santa Cruz (São Paulo, Capital), de uma carta confidencial (arquivo PDF) que ele entregara no ano de 1970 ao Padre Paul-Eugène Charbonneau para que esta fosse aberta pelo próprio Charbonneau, pelo Padre Lionel Corbeil, diretor do colégio na época, ou pelo Padre Paul Grenier, e que ela fosse enviada à imprensa caso ele morresse “acidentalmente” ou “desaparecesse”.

Foi escrita durante o período mais repressivo e sangrento da ditadura militar no Brasil (1968-1974), conhecido como “anos de chumbo” (leia no pé deste artigo).

Li e reli várias vezes a carta escrita por meu pai e esta me fez retomar a ideia de que a vida das pessoas é repleta de equívocos e também, é claro, de acertos.

A palavra equívoco normalmente é entendida como erro, mas também pode ser entendida no sentido de incorreção, dubiedade, ambiguidade, engano.

Muitas vezes, quando queremos acertar, podemos cometer equívocos, e muitos acertos para uns podem ser entendidos como equívocos para outros, e vice-versa. No entanto, uma coisa é certa: a história contada com base em fatos inequívocos é implacável com aqueles equívocos entendidos como incorreções, dubiedades ou ambiguidades.

Hélio Bicudo morreu no dia 31 agosto passado e a mídia enviesada, conservadora e retrógrada não tardou a noticiar com os chavões de sempre: “Fundador do PT e um dos autores do pedido do Impeachment de Dilma Rousseff morre aos 96 anos de idade”.

Essa mídia comete, de propósito, um equívoco, cujo sentido neste caso específico é o de “dúbio, ambíguo e enganoso”.

Não há desmentidos suficientes, inclusive feitos pelo próprio Hélio Bicudo de que este nunca fora fundador do PT, que façam com que essa mídia deixe de caracteriza-lo como tal.

Mas, como a segunda parte do slogan só produz efeito quando precedida da primeira, por que não continuar martelando a primeira?

Com 93 anos na época do impeachment de Dilma Rousseff, o nome e a pessoa de Hélio Bicudo foram usados de maneira descarada por “amigos de ocasião” para que ele co-assinasse o tal pedido de impeachment.

Não entrarei no mérito da participação dele nesse processo, pois isso já foi feito exaustivamente no passado, inclusive com respeito aos alertas de que ele estava sendo usado por pessoas interesseiras e inescrupulosas.

O quanto ele se deixou levar por isso e o quanto foi fruto da sua própria vontade, pouco importa agora, embora possa ser assunto de interesse da “arqueologia psicológica”.

Num país de memória de curtíssimo prazo e no qual a história é quase sempre ignorada, inclusive para explicar os problemas enfrentados no presente, o slogan difundido para resumir os 96 anos de uma pessoa é, no mínimo, fruto da desonestidade intelectual que impera no Brasil.

Num país que viveu uma ditadura militar por mais de 20 anos e, hoje, na iminência de viver uma outra, é importante destacar que Hélio Bicudo, nos anos 1970, ou seja, durante o auge da ditadura militar, enfrentou não apenas os militares e governantes de plantão, mas também setores do próprio Ministério Público do qual era integrante, pondo em risco a sua própria vida, para lutar pelo resgate de princípios fundamentais da dignidade humana, completamente sufocados pelos donos do poder naquela época.

Essa sua luta se juntou à de várias outras pessoas e lideranças, culminando com a queda da ditadura militar e a reconquista das liberdades democráticas, em 1985.

Essa postura firme de Hélio Bicudo pautou a maior parte da sua vida como procurador de justiça e militante dos direitos humanos no Brasil e no exterior.

Assim, considero que o emblema que Hélio Bicudo carrega, como um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, é conseqüência de um equívoco da parte dele, no sentido de “erro ou engano”, contradizendo, portanto, toda a importância e dimensão da sua própria contribuição, no passado, para a queda do regime militar e o restabelecimento da democracia no Brasil.

A meu ver, infelizmente, Hélio Bicudo, ao se equivocar daquela maneira, não soube preservar o seu patrimônio histórico, acumulado durante a maior parte da sua vida.

O resultado disso tudo ele não verá, mas uma coisa é inequívoca, em um passado não tão longínquo, Hélio Bicudo sabia muito bem de que lado da história se encontrava.

Finalmente, é importante destacar mais um outro aspecto da vida pública de Hélio Bicudo, não menos importante, mas pouco conhecido.

No governo de Carvalho Pinto, como seu chefe de gabinete, Hélio Bicudo auxiliou, junto com a comunidade acadêmica e científica do Estado de São Paulo, na criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Fundada em 1962, a FAPESP é uma das mais bem sucedidas iniciativas governamentais com respeito ao fomento à pesquisa científica e exemplo para o resto do Brasil, além de gozar de amplo prestígio internacional.

Ressalto a importância desse fato histórico no momento em que se noticia que o congelamento dos recursos financeiros destinados ao fomento à pesquisa científica no Brasil acabará comprometendo de modo irreversível, já a partir de 2019, o avanço do conhecimento e, como conseqüência, a qualidade de vida das gerações futuras.

Em 1962, antes, portanto, do golpe militar de 1964, já se sabia da importância da pesquisa científica para a soberania nacional e Hélio Bicudo, como ficou registrado, também sabia muito bem disso.

Jamais me esquecerei dessas duas contribuições relevantes e acertadas de meu pai.

Professor Honorário da Universidade de Wollongong, Austrália