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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Ao lado dos Nobéis, palestrantes brasileiros mostram a que vieram

Publicado em 16 agosto 2011

Não é apenas de prêmios Nobel e de outros renomados cientistas internacionais que os jovens participantes da Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) estão alimentando seu conhecimento. Do total de 18 palestrantes do encontro na Unicamp, nove são brasileiros que desenvolvem pesquisas de ponta em química de produtos naturais, química medicinal e química orgânica sintética, e todos demonstrando um sentimento comum: o prazer sincero por serem igualmente atores desta rara oportunidade dada aos estudantes brasileiros de conviver com colegas estrangeiros e aprender com a nata de cientistas nestas três áreas da química.

Eliezer Jesus Barreiro, professor de química medicinal na UFRJ, que daria a última palestra da manhã desta terça-feira, atribuiu o convite feito pela organização à sua longa estrada em busca de moléculas candidatas a fármacos. "Temos tido sorte e achado substâncias interessantes, provável razão de nosso laboratório vencer edital do MCT criando o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia [INCT] de fármacos e medicamentos. Encontramos duas substâncias bastante promissoras que alavancaram um trabalho de inovação realmente inovadora - e não há como escapar da redundância".

Este trabalho se relaciona ao medicamento mais vendido no mundo, o Lipitor, para redução de colesterol plasmático, que foi desenvolvido a partir de um produto natural, o fungo compactina. "Por estar nesta Universidade, tenho obrigação ainda maior de citar a participação de outro palestrante, o professor Luiz Carlos Dias, que liderando o Grupo de Síntese Orgânica do Instituto de Química da Unicamp, desenvolveu uma rota para síntese deste medicamento, que é uma estatina. Como sua patente caducou agora em junho, temos então uma rota alternativa exequível para acesso sintético ao fármaco".

Carlos Roque Duarte Correia, professor IQ da Unicamp, concederá palestra nesta quarta-feira sobre seus estudos visando à montagem de moléculas orgânicas funcionais do ponto de vista biológico, farmacológico ou catalisador no desenvolvimento de novos materiais. Depois de assistir à aula do Nobel Kurt Wuthrich, Correia instigou os jovens da ESPCA a interagir com os laureados. "Os estudantes devem ver o Nobel não apenas pela ciência que levou a um prêmio desta grandeza, mas também o seu lado humano, interagindo com ele e desmistificando a ideia de alguém inacessível. Este é um evento excepcional e acredito que há espaço para outras iniciativas no Brasil, que vem ganhando projeção internacional e atraindo pesquisadores interessados em conhecer a nossa ciência".Jerson Lima Silva, professor da UFRJ e diretor da Academia Brasileira de Ciências, inspirou-se igualmente em Kurt Wuthrich para falar da importância de uma ESPCA para a formação dos jovens participantes. "Esta última palestra foi bastante ilustrativa: para ser um bom cientista, como um bom jogador de futebol, é preciso treinamento e, também, saber aonde se quer chegar e fazer as escolhas certas nas horas certas. O jovem, que tem muita energia, corre o risco de correr de um lado para outro e se dispersar, acabando por não focar uma área importante. E não basta escolher o problema certo, mas aquele que ele terá condições de estudar e alcançar resultados usando tanto sua capacidade técnica como intelectual - a motivação estética".

Jerson Silva, que teve "um pequeno treino" nas áreas de espectroscopia e de proteínas nos Estados Unidos, falaria no final da tarde sobre suas pesquisas, que seguem a linha de Kurt Wuthrich. "Utilizo a chamada ferramenta de pressão hidrostática para estudar como as proteínas se dobram e como fazer isso de forma reversível - como no exemplo do cinto do professor Kurt, que é esticado e depois volta a dobrar quando a pressão é liberada. Meu interesse está nas proteínas que se dobram de forma errada e causam doenças, como Alzheimer e Parkinson. Outra linha de pesquisa envolve a P53, proteína importantíssima como fator de supressão tumoral e que aparece mutada em 50% dos cânceres, o que é um sinal de prognóstico".

Outro palestrante brasileiro da terça-feira foi o professor Paulo Mourão, da UFRJ, cujo trabalho envolve polissacarídeos sulfatados, moléculas diferentes daquelas tratadas nas apresentações anteriores, concentradas basicamente em proteínas e ácidos nucleicos. "Trabalhos com carboidratos e encontramos em laboratório estruturas novas, polissacarídeos com propriedades bem diferentes e envolvidos em eventos biológicos significativos. São moléculas que também podem ter aplicações terapêuticas no futuro".

Paulo Mourão elogiou o excelente nível das palestras da ESPCA da Fapesp, ressaltando a importância de reunir estudantes brasileiros e estrangeiros e do convívio com cientistas de renome mundial. "Os nossos alunos têm pouco oportunidade de viver esse contato, diante do problema da distância entre o Brasil e os países que sediam congressos mais internacionais mais frequentes. É um problema a resolver, pois precisamos de ciência de nível internacional, competitiva, e que os jovens têm que aprender".