Painel de especialistas vai reunir evidências sobre a vacina contra a dengue enquanto o Ministério da Saúde mantém a interrupção temporária da imunização
A iniciativa foi oficializada pela Portaria nº 715/2026 e estabelece a estruturação, a coordenação e o suporte a um Painel de Especialistas que fará a análise de informações ligadas à vacina Butantan-DV. A finalidade é ampliar a apuração epidemiológica dos casos notificados e embasar, com evidências científicas atualizadas, futuras decisões regulatórias.
De acordo com a Anvisa, a equipe ficará encarregada de examinar dados clínicos, epidemiológicos e de farmacovigilância, além de organizar, do ponto de vista técnico, as atividades do painel consultivo, composto por especialistas externos com experiência reconhecida na área.
Entre os deveres previstos estão a reunião de evidências científicas, a preparação das discussões técnicas e a produção de relatórios capazes de contribuir para a definição dos próximos encaminhamentos relacionados ao imunizante.
A formação do grupo ocorre depois de o Ministério da Saúde ter suspendido de forma provisória a vacinação com a Butantan-DV no último dia 8 de junho. A decisão veio após o registro de 42 reações adversas graves entre cerca de 500 mil pessoas vacinadas. Desse total, três foram enquadrados como casos severos, incluindo duas mortes que seguem em investigação.
Até agora, as autoridades de saúde reforçam que não há prova de ligação causal entre o imunizante e os episódios graves identificados. A paralisação foi aplicada como medida preventiva, para viabilizar uma apuração mais minuciosa.
Ao comunicar a interrupção da campanha, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou que os dados disponíveis ainda não são suficientes para afirmar que a vacina tenha provocado os eventos adversos observados.
Pesquisadores também têm ressaltado que a suspensão temporária integra os protocolos internacionais de farmacovigilância. O infectologista Jean Gorinchteyn, do Instituto Emílio Ribas, explicou que ocorrências raras podem aparecer quando um imunizante passa a ser aplicado em uma população muito maior do que a analisada nos estudos clínicos.
A vacina desenvolvida pelo Butantan foi liberada após testes com aproximadamente 16 mil voluntários e se tornou a primeira vacina contra a dengue produzida integralmente no Brasil e a primeira do mundo administrada em dose única. Os estudos indicaram eficácia geral de 79,6% contra a doença e de cerca de 89% contra as formas graves da dengue.
Segundo a Anvisa, a instalação do Grupo de Trabalho reafirma o compromisso do órgão com a transparência e com o rigor técnico na análise de vacinas. A agência salientou que o acompanhamento permanente da segurança dos imunizantes é uma etapa indispensável para assegurar a proteção da população e manter a confiança nos programas de vacinação.
Enquanto os levantamentos seguem em andamento, as doses já distribuídas continuarão guardadas na rede de frio do Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde ainda não anunciou prazo para a conclusão das análises nem para uma possível retomada da campanha de vacinação.